domingo, 13 de abril de 2008

Visibilidade, transparência e denúncia

Bastaram alguns tiros disparados por um pelotão do Exercito Brasileiro, contra operários em greve na cidade de Volta Redonda, em outubro de 88, para que a máscara autoritária do governo militar finalmente caísse e uma nova realidade tivesse ali seu início. Nesse episódio, quatro operários pagaram com a vida. Formalmente, a ditadura teria caído com a eleição indireta de Tancredo Neves à presidência da República, em 84, a realidade, porém, registra outra face. Foi preciso grande mobilização nacional, em torno da discussão e votação da Constituição, de 5 de outubro, para que o país passasse a viver uma nova fase. O ano de 88 foi, portanto, um divisor de águas e a palavra chave para esses novos tempos era transparência. Em São Paulo, a maior cidade do Brasil elegia-se uma prefeitura do Partido dos Trabalhadores e a palavra mais usada nos discursos e manifestos da prefeita eleita era justamente transparência. Acompanha o conceito transparência, outra palavra: denúncia. Palavra maldita que, durante os anos da ditadura, significava traição, "deduragem". Denúncia era galgada, então, à categoria dos atos nobres: denunciar irregularidades, denunciar corrupção, etc. etc., etc.

Rapidamente, o passar dos quatro anos fez com que o feitiço se virasse contra o feiticeiro e o denuncismo virou moda, sepultando a primeira fase das transformações sociais desejadas. Em São Paulo talvez se explique por que essa mesma cidade grandiosa, em tamanho e importância, fosse governada, posteriormente, por Maluf e depois pelo seu afilhado. Alguém se lembra do slogan "nada temos contra o Suplicy, só não queremos mais o PT mandando aqui?". O milagre produziu seu próprio veneno. O denuncismo acabou abortando os frutos da nova realidade e a expressão "transparência" perdeu seu efeito.

Não se trata de uso inadequado do termo, mas de conteúdo do que vivemos. A transparência ficou tão transparente que já não se percebe os seus efeitos, nos dias de hoje. O autoritarismo foi impregnado nas relações e estamos como nos velhos tempos da ditadura militar, onde falar da roupa rasgada do rei significava um passaporte para o ostracismo, quando não para a morte.

E por falar dessa cultura impregnada no espírito paulistano, vale lembrar que estamos prestes a viver um outro período, a era da visibilidade. E é justamente no terreno específico das relações entre os profissionais da cultura onde isso pode começar. Esse período seria marcado pela visibilidade de conteúdo e informações, através de sua veiculação sem limites. O recente caso dos cineastas bem sucedidos, contra a política de inserção social projetada pelo governo Lula, e a rápida resposta de um grupo maior de cineastas, nem tão financeiramente bem sucedidos deu o toque dessa nova era. Registre-se que São Paulo ainda não se manifestou, mesmo sendo o maior mercado consumidor de arte e de todos os bens, duráveis ou não. Essa omissão é a expressão clara de que muitos precisam e poucos querem ver a tal visibilidade. Parodiando a velha máxima, "informação é revolução", os próprios profissionais de comunicação e arte ocultam sua própria realidade. A tal visibilidade virá, independentemente de credo político partidário. Isso é muito bom.

Todos aqueles que trabalham com liberdade de expressão saberão que o cenário de outubro de 1988, Volta Redonda, assembléia de operários sendo interrompida com um black-out, seguido de tiros de metralhadora contra uma multidão indefesa, simboliza o final de um regime. Não podemos reeditar ou perdurar seus efeitos nefastos. Enquanto a visibilidade não vem, o principal adepto do denuncismo continua arrumando confusão, circulando abaixo-assinados no Senado Brasileiro. Coisa de quem não tem o que fazer.

Jair Alves – dramaturgo

17/05/03

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