quinta-feira, 17 de abril de 2008

A FARRA DO BOI E O TIO DA DEBORA BLOCH

Para tratar de uma questão tão delicada, envolvendo o talento e a beleza de Débora Bloch, e ainda mais, os meandros da cultura nacional, é preciso criar um parâmetro que todos possam entender. Achei que seria oportuno lembrar o episódio do boi brasileiro, embalado em forma de bife, disputando a tapa espaço no mercado internacional com o boi nascido nos países da União Européia. O que significa essa briga (dois bois)?

Os pecuaristas da União Européia exigem de seus países a aplicação de uma sobretaxa na importação de carne originária do Brasil, coisa que vem acontecendo já de há muito, mas eles exigem mais. Por sua vez, os pecuaristas brasileiros protestam reclamando dessa proteção, exigindo que o governo brasileiro seja mais agressivo na luta pela derrubada dessas barreiras alfandegárias, o que resultaria, segundo eles, num melhor padrão de vida para o cidadão comum. E o que tem a ver o tio da Débora Bloch com isso?

Esperem um pouco, por favor!!!

Na mesma direção, o governo dos Estados Unidos subsidia a sua produção agrícola para que ela possa competir com os produtos brasileiros. Neste caso não apenas os pecuaristas, mas todos os empresários da agropecuária brasileira protestam, alegando que a redução das taxas seria melhor para o bolso e o estomago do cidadão brasileiro comum. Sugiro deixar para discutir especificamente essa questão na ALCA, ou melhor, na conveniência ou não da ALCA, e que a CNBB, os radicais e o MST tenham espaço para falar o que bem entendam.

Agora sim, o Tio da Débora Bloch.

O Tio da Débora Bloch ou o bife cultural (parodiando o boi brasileiro) custa aos cofres do Município da cidade de Paulo exatamente R$ 50,00, por unidade. Este bife não será, obviamente, consumido por essa massa anônima a que se referem os pecuaristas brasileiros e seus colegas. A peça Tio Vânia, de Anton Checov, estrelada pela atriz Débora Bloch e Diogo Vilela, faz temporada em São Paulo, perfazendo quinze (15) espetáculos, segundo Guia Folha, e doze (12), segundo a Revista Veja, custando R$ 300.000,00 para os cofres municipais. Essa generosa ajuda para um espetáculo que estreou no Rio de Janeiro, com patrocínio da Embratel, vem deduzir do dinheiro destinado à cultura de São Paulo o valor em tela, pela lei municipal nº 10.923/90.

Absolutamente nada contra o valor artístico do evento, até porque isso não está em questão. Seu diretor, Aderbal Freire Junior, deu inequívoca contribuição ao teatro brasileiro, e pronto. Seria um absurdo vetar qualquer que fosse o produto artístico por sua natureza, e de absurdos basta o estão embutidos na prática diária do uso do dinheiro público. O que se discute aqui é o surrealismo da situação. O leigo ou mesmo àqueles que não se dão ao trabalho de observar as publicações oficiais (como eu forçado fui) não entende e muitas vezes nem toma conhecimento dos bastidores da grande comédia nacional que faz a roda girar, massacrando anônimos contestadores, como este que escreve essas linhas. Vamos aos números:

A peça se apresenta em quinze (15) sessões, num teatro de 408 lugares, com ingressos cobrados a R$ 40,00 e R$ 50,00, por unidade (dados publicados no Guia Folha). Logo, além do preço cobrado, os 6120 ingressos serão subsidiados, por unidade, com R$ 50,00 do tesouro municipal, da mesma maneira que o governo norte-americano subsidia os seus produtores agrícolas para competir com a desprotegida agricultura brasileira.

O surrealismo não para aí, o mesmo Diário Oficial do município também publica o patrocínio:

"Título: OFICINAS CULTURAIS CASA DO ZEZINHO 2003
Área: CRITÍCA E FORMAÇÃO CULTURAL
Empreendedor: VERTENTES PRODUÇÕES E CONCULTORIA LTDA.
Incentivador: XEROX COMÉRCIO E INDÚSTRIA LTDA.
Valor: R$ 468.000,00?"

E, por outra, a incógnita Comissão autoriza a captação de recursos da:

"Inscrição: 198/03
Título: ENGENHO TEATRAL
Área: ARTES CÊNICAS
Empreendedor: ASSOCIAÇÃO CULTURAL ENGENHO TEATRAL
Valor: R$ 401.783,00 ".

Observe-se aí que este projeto, já contemplado com ajuda financeira pela Lei do Fomento ao Teatro, agora se faz representar por outra razão social. O que se conclui é que não existe preconceito ideológico quanto à inscrição e autorização de patrocínio, o que não se vê é um rigor na legalidade e legitimidade dos projetos inscritos ou contemplados. Enquanto isso, milhares de pessoas, debaixo de chuva fina e frio, disputam vaga para dar aula de teatro na periferia de São Paulo, no programa CEUs.

E ai daqueles que por razões não confessas são excluídos e venham a protestar sobre essa não inclusão. São mandados para os quinto dos infernos.

Parodiando o Jô Soares, naquela piadinha medíocre que ele faz balançando o polegar e o dedo indicador, "perceberam a relação, CEUS & INFERNOS ???


Jair Alves - Dramaturgo

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