A resposta, no momento em que vive o Brasil, com toda certeza, não virá sem antes destruir a própria ordem democrática, em nome da qual a ferida foi exposta, nesta última sexta-feira (19/08). Sabe-se que ele foi secretário de governo do agora Ministro da Fazenda, Antonio Palocci, durante os dois primeiros anos, dos seis em que este governou a prefeitura de Ribeirão Preto. Esta é a versão que fica para a grande maioria da população brasileira - NADA MAIS.
A histeria para a qual fomos jogados, nesses meses que antecede a eleição presidencial impede que um cidadão brasileiro use de instrumento legítimo da democracia, que é a desmoralização do acusador, quando seu ataque merece reservas ou, no melhor das hipóteses, averiguação. É o caso que se apresenta. Dessa forma, de nada adianta lembrar a cada eleitor que Rogério é suspeito de ser um contraventor, um criminoso. Tanto é verdade, que foi preso e, agora, recebe como prêmio a liberdade, não pela sua boa conduta ou inexistência de provas, mas por ter sido um delator. Ou seja, em nome da "ordem democrática", se joga na latrina a confiança de milhões de brasileiros, norte-americanos, sul-coreanos e japoneses e, porque não, toda estabilidade econômica vivida até sexta-feira pelo Brasil. Moral da estória: a acusação tem mais valor, nos dias de hoje, do que a esperança e todos os passos dados, rumo à recuperação econômica e à própria dignidade de quem as fez.
Mas, quem é Rogério Buratti, afinal??? Estamos impossibilitados de saber porque a Lei (alguns, diriam, "a Lei, ora a Lei!!!") não está preocupada em descobrir como se forma um delinqüente e/ou criar mecanismos de prevenção contra essa delinqüência, pelo contrário. Podemos contribuir com algumas informações para se conhecer um pouco do que foi Rogério Buratti e por que, num momento tão delicado da história da Nação, ele vem à luz dos refletores. Vamos lá.
Conheci Rogério Buratti, certa tarde, em 1986, quando fui até o comitê de campanha do candidato à Constituinte, o jornalista Jorge Batista (já falecido), a pedido do então candidato a deputado estadual, José Dirceu. Foi José Dirceu quem me apresentou Jorge e não o contrário. Nesse local, fiz uma apresentação teatral, naquele final de semana. Rogério me recebeu, abrindo o portão da casa, alugada para aquela finalidade, com as mãos sujas de tinta de uma máquina off set que teimava em não funcionar, ao imprimir panfletos para a campanha do jornalista. Sua camisa azul era um misto de cores escuras e gotas de tinta vermelha. Naquele gesto humilde de quem não quer provocar constrangimento ofereceu o antebraço para me cumprimentar. Essa foi a primeira imagem do Rogério. Ao me aproximar da grande legião de jornalistas, intelectuais, artistas que apoiavam a candidatura do ex-editor da revista Isto É, percebi que ele, Rogério, não inspirava grande simpatia da maioria do grupo de "apoiadores", mas ele estava ali mais disponível do que os demais. Todos tinham uma profissão a exercer, ele não, estava trabalhando tempo integral. Vinha de Osasco, base popular e operária do ex-preso político, Jorge Batista. Segundo a mulher de Jorge, Ana, "nem ela ousava se meter".
A tragédia acompanha par e passo cada lance da trajetória desse partido que, agora, passa pela sua maior e talvez derradeira crise. Após sua derrota na eleição para deputado federal, à véspera do Natal daquele ano, Jorge, sua mulher, Ana, e seu filho mais novo morrem em terrível acidente rodoviário, apenas seu filho, Manoel, sobrevive. Início de janeiro de 1987, igreja de Perdizes, eu lia os textos junto com José Dirceu, na missa em homenagem ao jornalista morto. Lá estava Rogério, falando em nome da militância operária de Osasco. Na sua limitação vocabular repetia palavras para expressar o que sentia, tal como ontem, sexta-feira, frente às câmeras de tevê. "O Jorge morreu, o Jorge morreu", repetia, como quem não está entendendo o que está vivendo. O mesmo de ontem.
Mas, quem foi Rogério Buratti? Ele foi um daqueles que, na miséria social em que vivemos, se aproveita de uma brecha aqui acolá e vai crescendo, até que um dia, por um fato grave, é expulso da história. Não tenho dúvidas de que ele faria o mesmo em qualquer partido, de direita ou de esquerda. Nunca vi nele um gesto que pudesse identificá-lo como um apaixonado pela causa, equivocado que fosse. Sempre que era chamado a falar repetia jargões partidários e análise sintética de quem defende a posição partidária de seu grupo, nada mais. Nunca fez uma análise própria de qualquer situação, dificuldade que demonstrou ontem frente às câmeras de tevê. É normal que se sinta abandonado, mas por quem? Rogério estaria fazendo referência aos doze anos que se dedicou ao partido, do qual foi "convidado a sair" há mais de 10 anos? Ao se referir a um dos homens mais importantes da política atual (palavras dele), não demonstrou publicamente sua decepção por algo que sequer entende? Se entendesse veria facilmente que um contraventor não recebe solidariedade de homens públicos, tão pouco de ex-patrões com grande inserção nos negócios de recursos estatais. As regras do jogo político-partidário não oferecem espaço para generosidades. Mas ele, Rogério, não entende assim, mesmo que a imprensa insista em chamá-lo de advogado, sem, contudo, ter exercido efetivamente a profissão. Alguns redatores arriscam chamá-lo de lobista, e essa profissão propicia alguns riscos ainda maiores que ele ainda não se deu conta, muito menos o Ministério Público que ontem deu a ele o direito de seguir o seu rumo.
Mas, ainda assim, quem foi Rogério Buratti? Em pouco tempo, por essas particularidades que só partido político oferece, Rogério foi trabalhar na Secretaria de Organização Estadual, como braço direito de outro personagem, também de Osasco, hoje figura nacional, o senhor Silvio Pereira. Outro que, também, tropeçando nas palavras e nas concordâncias se transformou num alto mandatário, até que 'involuntariamente' recebeu um veículo importado, como presente. Rogério, na Secretaria de Organização teve rápida ascensão e, em pouco tempo, lá estava Buratti coordenando a campanha para prefeito de Ribeirão Preto, no primeiro mandato, do agora ministro, Antonio Palocci. Após a eleição, tornou-se Secretário de Governo.
Ao ser flagrado em operação ilegal e inconseqüente (gravou reuniões com empreiteiros) foi exonerado, após pouco mais de dois anos de pleno poder na prefeitura de Ribeirão. De lá, em pouco tempo passou para o lado oposto, ou seja, foi vender sua agenda de influência, seu livre trânsito, como gostava de dizer. Seu envolvimento com atividade criminosa está para ser desvendada, mas não parece ser um real interesse de quem está investigando. Em pouco mais de dois anos o patrimônio de Rogério Buratti subiu de um carro na garagem e um pequeno apartamento para somas inimagináveis, mas isso parece não importar para quem investiga. Da mesma forma, como a segurança pessoal do acusado (de lavagem de dinheiro) parece não se importar. Isso é inevitável. A trajetória trágica do partido que ainda governa a Nação poderá se transformar na tragédia nacional. E aí é só juntar mais um caso enigmático aos casos não esclarecidos na história recente da República. A visível ilegalidade das tratativas para tomar o depoimento do acusado, em troca da delação e sua imediata divulgação, cujo objetivo não pode ser outro a não ser tumultuar a ordem democrática, não deixa dúvidas quanto ao que pode acontecer. Afinal, um promotor tem por obrigação se tornar um repórter obcecado pelos furos jornalísticos? Ou, na sua subjetividade, observar a conveniência de trazer a público uma acusação mais consistente e sem prejuízos irreparáveis, quando se trata da ordem institucional?
Sou apenas um artista, logo de opinião que pouco importa à Lei, à Ordem, a não ser quando essa opinião contraria os interesses do Estado e, como conseqüência, reprimida. No caso, humildemente defendo a legalidade. E termino fazendo uma singela pergunta: e se nada for provado contra quem foi bombasticamente acusado, nessa sexta-feira, como ficamos?
Na entrevista coletiva do Ministro da Fazenda neste domingo, Antonio Palocci Filho respondeu a todas as questões, inclusive sobre a afirmativa estapafúrdia feita por uma jornalista de que ele deveria provar ser inocente. Diante do exposto, só nos resta pedir serenidade de todos e que, há seu tempo, tudo seja investigado e punido, quando crime houver. Melhor seria também que o ex-Ministro José Dirceu, quando envolvido nas acusações, hoje motivo de CPI, tivesse tido a mesma coragem de se explicar para a Nação, no início dos tremores. É possível que a democracia não estivesse tão abalada.
Jair Alves - Dramaturgo
sexta-feira, 18 de abril de 2008
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Um comentário:
BOM EU NAO TENHO MEDO DO SR ROBERTO IRINEU MARINHO QUE ME COLOCOU PRESA O DINHEIRO DELE NAO COMSEGUIU ME COMPRAR
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