UM SOL PARA CADA UM
ou
Brasiltv, o processo civilizatório
Alguém se lembra de José Mauro de Vasconcelos?
Pois bem, os puristas da década 70 esperneavam, com razão, para que seus livros - exemplo de subliteratura - não passassem a ocupar no currículo escolar o lugar de Machado de Assis, José de Alencar, entre outros. A luta era quase inglória, pois quem mandava e não pedia opinião era nada menos do que o temido regime militar. Na visão dos militares e seus aliados era preciso descontextualizar o ensino básico, e, portanto um menino falando com um pé de laranja-lima era muito interessante para a chamada reforma necessária. Graças ao esperneio desses professores o quadro não ficou pior. Hoje, analisando os textos do esquecido romancista, dono de uma empresa de ônibus que fazia a rota São Paulo-Nordeste, percebemos que em certo sentido a ditadura foi ingênua, pois não impediu que Machado de Assis e outros autores, também importantes, continuassem lidos e estudados. Os aliados do regime militar, porém não foram ingênuos, em especial aqueles que naquele momento montavam um verdadeiro império televisivo. Começava, a partir do governo Geisel, o crescimento vertiginoso da telenovela, como processo civilizatório.
O que tem a ver esse episódio com a recente ameaça de fechamento de uma escola de teatro (Escola Ewerton de Castro)? Tem a ver que, num determinado momento de nossa história, os mantenedores formais do poder da nação precisaram dos melhores profissionais das artes cênicas para construir a cultura de consumo que domina a vida da maioria dos brasileiros. E de que maneira? Na montagem de uma indústria de sonhos que, na maioria das vezes, não discutiu a realidade daqueles que alimentaram e alimentam essa máquina de fazer dinheiro. Para isso, o governo militar despejou uma dinheirama no teatro brasileiro, por mais de uma década, na expectativa correspondida de que novos e mais profissionais ficassem à disposição dessa indústria. Uma espécie de mão-de-obra reserva. A fonte secou quando os militares abandonaram o poder, em 1985. A partir daí vivemos de uma panacéia chamada Leis de Incentivo à Cultura.
Não é tarefa desse texto esgotar o assunto sobre as leis de incentivo, até porque não me proponho a isso, mas é preciso dizer com todas as letras que o poderoso Estado, hoje esvaziado, tem responsabilidade nesse descalabro. UMA ESCOLA NÃO SE FECHA porque não é um empório de periferia, engolido que foi pelas grandes redes de supermercados. Uma escola é um lugar aonde se formam pessoas para enfrentar o futuro. Uma escola séria de teatro como a de Ewerton de Castro é mais do que isso, é uma porta dos sonhos para muitos excluídos que sequer podem fazer parte desse universo de consumo que tornou nossa civilização.
O maior entrave nessa discussão tem sido a cultura de que existe “um sol para cada um”, o que verdadeiramente não é verdade. Os diretos interessados nessa questão estão perdidos nas disputas de espaço e centavos. Estão conversando com um pé de laranja-lima. Por livre e espontânea vontade não vão abandonar essa posição egoísta. O caminho que resta é esse: apelar para todos os segmentos que compõem a sociedade brasileira que se espelham na produção cultural deste país e que, por justiça, têm o direito de dizer “isso tem a ver comigo”.
O Estado gasta muito pouco com a formação de profissionais que cuidam do sonho dos demais brasileiros. O Estado brasileiro, nas suas diferentes esferas, precisa responder ao apelo do momento, expresso nas palavras do chefe da Nação. Equacionar, sim, as questões de ordem econômica, porém resguardando os interesses sociais emergentes. Essa é mais uma das centenas de questões que depois do voto, em 27 de outubro, precisa da participação de todos. O sol que temos é um só e pertence a todos nós.
Penso nos personagens que Ewerton de Castro interpretou no teatro, como "o cavalo", em Equus; o triste personagem do "Homem Elefante", "o palhaço", em Patética e, porque não, "Noel Rosas", em Poeta da Vila. Me pergunto se esses seres frágeis e sensíveis não representam a maioria dos nossos sonhos, sempre prestes a serem esmagados.
Torço que não.
Jair Alves – dramaturgo
09/03/2003
terça-feira, 29 de abril de 2008
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