sexta-feira, 18 de abril de 2008

OLHOS ESBUGALHADOS

ou
A Revolta Bandida

O que ela quer nos dizer com esses olhos esbugalhados, nos intervalos comerciais da Rede Globo? Ela está com medo? Medo de quê? Estamos falando da atriz Regina Duarte que, num passado não muito recente, dizia estar com medo. Pelo visto, agora ela está em pânico. É a metáfora do presente. Regina Duarte está em pânico.

Enquanto isso, atônita, boquiaberta, a população mais letrada assiste pela tevê os novos lances da guerra urbana, desenvolvida ao longo de décadas entre mocinhos e bandidos. Um lado perde feio nesse embate (nem mocinhos nem bandidos). È o lado onde ficam os (desculpem-nos) trabalhadores que tomam ônibus porque têm empregos no centro da cidade. Pior ainda, são esses trabalhadores que sempre têm um membro da família trabalhando como soldado raso, carcereiro ou escrivão, quem sabe até um filho ou um namorado. Ninguém está livre desse martírio. Já não é a violência que a classe média tem a ilusão de se proteger com vidros à prova de balas. É o terror que nos assalta em qualquer canto, nos cinemas, bares, supermercados e igrejas (esperem para ver).

Quando começou? Ontem? Essa violência vem de há muito. As causas sociais vêm de algumas décadas, plantadas pelos governos militares, sacramentadas ao longo de dois governos do PSDB. As causas carcerárias no Estado de São Paulo vêm desde 1995. O ponto de partida é o estopim do massacre do Carandiru (1992), quando ainda havia um pouco de compaixão, distribuída entre os corações que habitam este rico e agitado Estado. Pouco tempo depois, quebrando uma seqüência de governos PMDBistas, o PSDB aproveitou-se da euforia da população que pacificamente se revoltou contra os desmandos federal e estadual - Collor e Fleury. Em parceria com o irmão PFL, o PSDB sentou na cadeira do poder. Nos dias de hoje, esse mesmo governo larga os comandos da Capital e do Estado nas mãos de seu irmão mais truculento. Quando assumiu o comando do Estado de São Paulo apresentou como solução para as prisões superlotadas a velha máxima aristocrática de que os bandidos devem ser afastados do alcance da sociedade. Comporta-se como se a escória nada tivesse a ver com o que eles comeram. Comporta-se em relação aos encarcerados como se eles fossem fezes, e de fato o são, aos olhos dessa aristocracia tardia. Reproduzem o degredo, assim como fizeram os almirantes com os revoltosos da Chibata. A escória da sociedade deve ficar reclusa em locais como a Ilha das Cobras, Alcatraz. Mas, o Estado de São Paulo não tem Ilha disponível, dessa forma: “vamos distribuir esses malandros por todo o interior. Quem sabe, assim, eles ficam bem longe dos grandes veículos de comunicação e lá hão de apodrecer”.

O tiro sem dúvida saiu pela culatra. As famílias dos encarcerados também se mudaram para esse pacato interior, para cidades como Mirandópolis, Hortolândia, Pontal, Santa Bárbara do Oeste, ajudando assim a socializar também a miséria. Os novos aristocratas não contavam que o surgimento do celular, um produto dos privilegiados, passasse a ser um instrumento de libertação e revolta dos criminosos. Ai então a coisa degringolou de vez. Despirocou, como costuma dizer o secretário de segurança, que mais parece um personagem recém saído de um episódio do Agente 86.

Lembrando João Cabral de Mello Neto: “Não se defende só com palavras a vida. Há que se mudar o rumo dos rios”. No entanto, os modernos bufões continuam numa bravata só, dizendo o que não fizeram. Nem precisam dizer que nada fizeram. Os resultados de oito anos de arrocho na economia e a propagação de uma política perversa atingiram não só os condenados por crimes contra a vida humana ou contra o patrimônio, mas também seus aliados - pequenos comerciantes, gente conservadora mais honesta. Todos foram enfiados numa vala comum. Quanto a eles, os homens de cabelos grisalhos nas laterais da cabeça, sim, porque a maioria pouco pelo tem na região central do crânio, bem como pouco juízo. Entre seus comparsas reclamam que não têm capilaridade social, é verdade. Da mesma forma como não têm capilaridade no centro do crânio. Os resultados de oito anos estão dando seus frutos agora. Na contabilidade macabra do dia-a-dia destacam os jornais: “189 pontos de ataques, 37 ônibus queimados, 16 mortos”. Essa imprensa retrata o que vem ocorrendo, com a mesma frieza que Galvão Bueno comenta os chutes a gol, o percentual de posse de bola de cada equipe. É o fim, não do jogo, e sim da picada.

Tempos atrás o governador atendeu a um chamado de um bandido, encurralado na casa do apresentador Silvio Santos, para negociar a sua rendição. O mais incrível é que ele (o governador) foi, como quem estava indo à inauguração de uma ponte. Foi participar de uma cena da tragédia humana, mas para ele apenas mais um evento, a oportunidade de aparecer na mídia. Parece brincadeira, mas ele foi. O marginal que parecia também não ter muito juízo andou prometendo falar muita coisa (só na frente do juiz).O tempo passou e num final de semana, já dentro da prisão, começou a sentir dores estranhas, e acabou como a maioria dos detentos - morto antes do tempo, envenenado.
Parece brincadeira mesmo, mas ele, o governador, continuou fazendo outras coisas e nós da classe mais equilibrada, dessa que mora no centro ou nos jardins, não falamos nada. E se falamos algum gaiato haverá de protestar, dizendo que estamos quebrando alguma norma eleitoral. Mas nós não podemos esquecer o que se passou na tela da tevê, com igual audiência de um último dia de Big Brother Brasil. Um fugitivo da Lei pediu a presença do governador, hoje candidato à presidente do Brasil, e ele foi. Mesmo tendo um secretário que sonhava ser prefeito da capital, já usando seu terninho de personagem do Agente 86.

Agora entendemos o medo da atriz Regina Duarte. Na sua verve premonitória ela dizia, há quatros anos atrás, que estava com medo. Ela estava com medo que isso tudo poderia não dar certo, e não deu. E ela que sempre se orgulhou ao dizer que seu líder político era um homem vitorioso, hoje, por ironia do destino, interpreta uma mulher que de cara perde o marido, assim na moral. Estrela uma novela, cuja idade média dos personagens está na casa dos 60 anos, em mais uma ação social da tevê Globo - a primeira novela feita para e pela terceira idade. O marido da estrela se chama Gregório. Existe nome mais aristocrata cafeeiro? Qual é o
Latifundiário que não teve um avô, um tio por nome Gregório? Freud explica.

Tudo está ruindo, e mais uma vez quem paga a conta somos nós que nada temos nada a ver com isso. Que diabo é esse?


Jair Alves - Dramaturgo/SP

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