domingo, 13 de abril de 2008

A DIREITA MAL ARMADA

Cai o Rei de Espadas...
Cai o Rei de Ouro...
Cai o Rei de Paus...
Cai, não fica nada.

O vexame produzido por Gugú Liberato e o êxito show de alegria (alegria), proporcionado pelo ministro da Cultura, Gilberto Gil, na ONU, na semana passada, são evidências de que estamos vivenciando grandes transformações. No entanto, é preciso apressá-las e direcioná-las para o rumo certo da tão sonhada Democracia Brasileira. Contudo, convivemos aqui e ali com manifestações da mais nefasta truculência.

Por economia de tempo e palavras, vou direto ao assunto:

- SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA (cidade de São Paulo);
- PROGRAMA CEU;
- Credenciamento de profissionais das Artes Cênicas para ministrar cursos.

Itens a serem abordados:

- Inscrição e Seleção dos candidatos;
- Index da SMC;
- Lista dos Escolhidos;
- Uma história que ilustra.

Inscrição e Seleção dos candidatos

Fiquei motivado a inscrever-me como candidato a orientador artístico (teatro),
no programa CEUs. Acreditei, e ainda acredito, ser um projeto tocado com seriedade.
Passei por todos os desconfortos de alguém que foi à procura de trabalho,
e não reclamei. Enfrentei fila, voltei quando mandaram retornar, no dia
seguinte, e esperei pacientemente o resultado da primeira avaliação. Mais de 1.200 pessoas se inscreveram para o cargo de orientador artístico, além de outras categorias. Desses, 254 pessoas foram selecionadas para entrevista com monitores da Secretaria Municipal de Cultura. Para minha surpresa, meu nome não se encontrava entre os escolhidos. Fui à luta.

Index da SMC

Como era meu direito dirigi-me até a SMC para conhecer os critérios que tinham me excluído da oportunidade de mostrar em detalhes o meu trabalho. Fui recebido não com flores, mas com respostas lacônicas, tipo, os critérios são esses:

1-Experiência profissional (aonde me enquadro);
2- Pratica pedagógica (????);
3- Morar próximo ao local onde o serviço será prestado.

Ora! onde estavam firmados estes critérios, na portaria expedida pelo Secretário? Critérios no mínimo confusos, pois como poderia encontrar a SMC profissionais residindo próximo aos referidos CEUs? A maioria, ao menos os que conheço, reside na região central, Pinheiro ou Vila Mariana, e isso não é crime. Na verdade esses critérios eram despistes, pois mais tarde a funcionária pública, Maria Cecatto, afirmou categoricamente que minha exclusão tinha ocorrido pelos motivos que exponho abaixo:

a) ter eu desacatado alguém, durante os ensaios do Evento que coordenei
e dirigi, sobre Vladimir Herzog, em 2000, quando dezenas de artistas subiram
ao palco para prestar homenagem pelos 25 anos de sua morte. Ela disse estar
presente, embora até agora ela não disse a quem eu teria destratado. Sinceramente,
não me lembro de tê-la visto antes;

b) ter eu provocado um atrito com o Secretário Municipal de Cultura (imagino que seja
o atual, a quem ela se refere). Gostaria de saber qual "entrevero?";

c) ter brigado com a Cooperativa Paulista de Teatro.

Isso é ou não um INDEX dos indesejados?

Lista dos Escolhidos

Para conhecimento geral, aproveito e reproduzo a lista dos escolhidos, em definitivo, para compor o cadastro dos futuros prestadores de serviços da SMC. Para dizer com franqueza, não conheço ninguém que tenha prestado serviços ao teatro, salvo Sonia Aguilera, atriz e divulgadora do Teatro Ágora, também dirigido pelo diretor Celso Frateschi. Espero que os demais integrantes sejam do conhecimento ao menos de parte da categoria profissional a que pertenço. Para tanto, aqui está a lista:


Uma história que ilustra

No início do ano de 1983, a Secretaria Cultura do Estado de São Paulo, nos estertores do mandato Malufista, me chamou para organizar um grande evento de teatro que veio a se chamar ATO TEATRAL. Daí há semanas a pasta seria entregue ao primeiro governo democraticamente eleito (Franco Montoro) e a intenção era “queimar” toda verba disponível na pasta para deixar o “caixa limpo”, quando os pmdbistas assumissem o poder. Conhecendo os propósitos da então pasta e sendo membro da diretoria de duas entidades teatrais naquela oportunidade, chamei aquilo que se convencionou ser o melhor daquela geração de artistas para produzir no palco justamente uma crítica à violência que a Ditadura tinha feito com a Cultura no país. Do Ato participaram muitos profissionais, apesar de alguns atores não terem sido incluídos, porque não quiseram ou porque não foram lembrados pelo petit comitê do qual eu era coordenador. Por conta disso, peço aqui, tardiamente, desculpas se alguém se sentiu preterido. Dentre os que realizaram este brilhante evento estavam presentes:

Foram vários dias de preparação e ensaios e duas espetaculares apresentações, no teatro SERGIO CARDOSO.

Do trabalho tiramos uma lição nua e crua. A ditadura não somente destruiu um projeto de construção de uma Cultura Nacional, como também eliminou fisicamente seus opositores. Nossa homenagem não poderia ser outra senão a professora e diretora de teatro Heleni Guariba, morta pela ditadura.

Quando estive recentemente na SMC, na conversa acima citada com a funcionária pública, ela chegou a me ameaçar dizendo estar eu “desacatando um funcionário público ao chamá-la de polícia”. Eu retruquei dizendo que em absoluto não estava chamando a ela de polícia, até porque um policial, além de funcionário do Estado, pode e deve servir a população, o que é legítimo. O que eu dizia e repito aqui, é que ela me lembrava os policiais da ditadura que ameaçavam, do alto de seu pífio poder, os pobres diabos que, por razões já conhecidas, eram obrigados a dar explicações de seus atos na sociedade. É evidente que o seu desconhecimento de período tão cruel, vivido pela sociedade brasileira, não lhe dá parâmetro para saber o que desejamos, hoje, de um servidor público. O que deve prevalecer é uma atitude de respeito ao cidadão, e não puramente servir “a outro senhor”. Não fui a SMC para obrigar a quem quer que seja a me contratar, e sim para exercer o meu direito de protestar contra a discriminação que afinal se configurou.

Em seguida, encaminhei carta ao Secretário Municipal de Cultura e, como até o momento não recebi nenhum “ai” a respeito, valho-me dessa carta para dizer exatamente o que penso.

CONCLUSÃO:

Considero que a iniciativa da atual Secretaria Municipal de Cultura de inverter prioridade na distribuição dos equipamentos públicos de acesso à cultura é altamente louvável, mais que isso, é necessário, até porque este é um desejo alimentado por gerações. O mesmo vale para o Fomento ao Teatro. Considero que o caminho mais curto e seguro, e não há outro quando se pensa em democracia, é dar plena visibilidade aos critérios, dotação orçamentária, competência profissional do pessoal e propósitos que envolvam as ações do Poder Público. A história se escreve dia-a-dia num mesmo livro, recuando às vezes para reler o que foi escrito nos capítulos iniciais.

O grande império da indústria cultural brasileira (Tevê Globo) foi construído com os melhores profissionais, dentre eles, por algum tempo, a própria prefeita da cidade de São Paulo. A grande diferença, o salto de qualidade será (ainda acredito nisso) garantir oportunidade a todos de participar dessa transformação desejada. Do contrário, é compactuar com a mais retrógrada direita. Numa frase: radicalizar a democracia.

E para que não haja nenhum mal entendido, quero ressaltar que sou um homem de partido, ainda que não me valha disso para sobreviver. Fui e sempre serei um homem de teatro, e assim quero morrer.

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