Nenhuma coisa nem outra. Parte da imprensa diária reflete o desalento e o beco-sem-saída em que nos metemos nesses dias tumultuados. A pergunta sobre o grau de inteligência da imprensa surge como resposta a demonização de assassinos, menores de 18 anos, nas últimas semanas. Acaso estes infelizes atores de nossa miséria pertencem a uma sociedade alienígena? Acaso foram introduzidos clandestinamente no país para corromper nossa sociedade casta e cristã? O grau de cinismo chega ao extremo de um governador sair em caravana, rumo à Brasília, e à frente dos refletores apresentar uma proposta de aumento da penalidade para o menor infrator e, com isso, faturar politicamente. A inutilidade da medida é tão absurda que discuti-la é aumentar ainda mais o caldo da burrice que ainda perdura no país. Enquanto isso se avoluma as rebeliões como termômetro dos conflitos sociais não resolvidos, ao longo de décadas e mandatos recentes, tais como o do governador que foi a Brasília.
Sou insuspeito ao lembrar que em 92 por ocasião do movimento que provocou a renúncia de Collor, o diretor Zé Celso Martinez Correa, num programa de tevê, disse que Collor era a síntese de nós mesmos. Foi um Deus nos acuda e os presentes, conduzidos por Maria Lídia, só faltaram pedir a renúncia do Zé Celso ali mesmo. Todos, com exceção, é claro, do autor da bombástica frase, se revoltaram e a expressão mais amena foi "imaginem!!!". Mas, Zé Celso estava certo, apesar da antipatia recíproca que nutrimos um pelo outro, considero ele um gênio, apesar de seu temperamento.
Voltemos ao presente. O repetitivo show proporcionado pelos programas de tevê, ao cair da tarde, é um circo dos horrores. E nada tem de parecido com o antigo programa da Rádio Eldorado "Piano ao Cair da Tarde", muito menos da tradicional Ave Maria de Gounod ou Schubert que ouvíamos todos os dias, às 18 horas, no interior do Brasil. Vivemos hoje num país que se brutalizou, onde a falta de criatividade e a crescente necessidade de audiência forjam cenas mais terríveis do que a própria realidade. A imprensa em si não é burra, tão pouco os programas de tevê, e sim a misencéne que chegou ao seu ponto crítico.
Essa parte da imprensa que sobrevive graças à miséria humana não merece censura, precisa é de nojo. Ela é mais perigosa que o incesto e o estupro praticado pelos anônimos personagens. Acaso o crime praticado pelo menor de Juquitiba é maior do que aquele praticado pelos demais marmanjos? Esta semana um apresentador de tevê comentava, placidamente, a reação da multidão enfurecida, diante da reconstrução de outro crime cometido por não menores numa lavanderia. Com o cinismo costumeiro dizia que "a população revoltada pede justiça", omitindo, é claro, fazer comentário a respeito da insanidade daquela mesma população que pedia o linchamento dos acusados. O sorriso escondido no canto dos lábios denunciava sua covardia. Sabe esse apresentador, ou deveria saber, que o transeunte anônimo que pedia linchamento protestava contra a sua miséria particular, não necessariamente ligada à degola e ao estupro. Essa população, desprovida de qualquer direito, vem sofrendo há décadas humilhações e privações. Quando pode protestar, protesta. Na ausência de verbo, reproduz os conceitos e pré-conceitos produzidos paradoxalmente pelos causadores de sua miséria.
Por outro lado, vimos a mancada, protagonizada pelo ministro da previdência, que se gaba de ouvir música clássica, mas se esqueceu ou nunca soube do sofrimento que é ser pobre e velho neste país. Como se vê, nem aqueles que fazem parte da reserva moral da Nação estão isentos de cometer brutalidades. Este é o resultado de um Brasil que precisa de uma revolução...Pacífica, de preferência.
A falta de profissionalismo, por uma parte da imprensa, descambando para descalabros é o reflexo dessa sociedade que procura formas de se expressar e não obtém respostas adequadas nos instrumentos de comunicação de massas. Moral da parábola: nojo se paga com nojo.
Jair Alves - Dramaturgo/SP
22/11/2003
terça-feira, 29 de abril de 2008
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