Paradoxalmente, fui indicado pela APETESP para compor uma lista tríplice que será submetida aos grupos ou empresas concorrentes à Lei de FOMENTO AO TEATRO NA CIDADE DE SÃO PAULO, neste semestre. Senti-me duplamente honrado, não só por ter sido acompanhado nesta lista por dois outros nomes, a quem muito deve o teatro brasileiro (dois críticos teatrais que, lamentavelmente, não puderam atender a esse chamamento), mas e principalmente por eu ter sido, no passado, um crítico feroz à hegemonia exercida pela APETESP, no teatro paulista, há exatos 24 anos passados. Mesmo assim a atual diretoria, ao incluir meu nome nessa lista deu provas de que deixou de lado minhas discordâncias no passado, quanto aos rumos do teatro paulista, e confiou na minha capacidade de julgar hoje as melhores propostas para a referida Lei. Sou muito grato a APETESP por esse gesto.
Sou parte de uma geração que revolucionou o teatro brasileiro, na forma de agir, pensar e projetar o teatro e o país. Como bem disse certa feita, a atriz Denise Del Vecchio, "essa geração se encontrou na COOPERATIVA PAULISTA DE TEATRO". Longe de ser uma manifestação de arrogância de minha parte, peço que ela seja entendida como um chamamento à responsabilidade que todo profissional de teatro não pode se furtar. Prova da necessidade dessa participação é o pequeno número dos inscritos, na versão anterior (janeiro de 2003), para a escolha dos julgadores que fizeram parte desta Comissão. Menos de 50% dos grupos se dirigiram à Secretaria Municipal de Cultura para depositar o seu voto e, desses, grande parte apenas escolheu um nome, quando lhes é facultado a escolha de três. É visível o desinteresse de numa parcela significativa da categoria e, se existe descontentamento quanto ao resultado desse julgamento, é necessário intervir com os instrumentos que resultam nesse julgamento, mesmo considerando que a Secretaria, por lei, escolha a maioria dos julgadores (4, de um total de 7 membros).
Outra questão nevrálgica é quanto à destinação do montante financeiro. Todos sabemos que quando se trata de dinheiro público e que, em muitos casos, são somas vultuosas desse dinheiro público que vai para o teatro e a cultura, sem a devida resposta do patrocinado à população que, em última análise, é quem está pagando essa destinação. Quanto a nós, envolvidos diretamente com a produção teatral, não temos dúvidas quanto à legitimidade e propósitos firmados na Lei de Fomento, prova disso é a nossa participação na mesma. Porém, há que se deixar claro para o conjunto da sociedade a correção dessa destinação financeira. O caminho começa dentro de nossos limites, ou seja, participar e discutir sobre o que é melhor para o momento em que vivemos. Daí o chamamento que faço.
Tenho a honra de poder ter pensado, criado, organizado e presidido este grupo de pessoas, no período de 79 a março de 1985 (a Cooperativa), numa época em que o teatro e realidade caminhavam lado a lado. Não havia dicotomia. Fazer política era encenar Artaud, Brechet ou escrever os próprios textos. Lutávamos por uma profissionalização, única forma de fugir daquele voluntarismo estudantil que marcou os anos anteriores. Nossos inimigos sempre foram os beneficiários do regime militar, naquela época, ajudados por uma certa política, pensada de forma reformista, pelo Partido Comunista Brasileiro. O mesmo PCB que considerava o metalúrgico do ABC um reacionário, um papa hóstia, como se dizia então. Quando vejo, na atualidade, a falsa questão levantada pelos homens do cinema nacional que tripudiam a tal contrapartida social, zombando de uma preocupação mais do que legítima do atual governo federal, posso identificá-los com os mesmos homens de teatro que, no passado, ajudaram o regime militar a sonhar com um Brasil Grande que, de grande mesmo, só nos deixou de herança a miséria e a violência social.
O tempo, como sempre, mostra a verdadeira face do terror e de seus colaboradores. Não fosse a persistência desses mesmos metalúrgicos, que enfrentaram com o próprio corpo a repressão às suas greves, não estaríamos vivendo, em 2003, esses dias de esperança. Nossa participação, naquele período (79/85), aconteceu para denunciar a hegemonia do teatro oficial. Política que classificava o belíssimo trabalho dos grupos, já acumulado, em vertentes diferentes, como "não-empresariais". Éramos tratados como se fôssemos produtos com algum defeito, um subproduto, talvez, quando, na verdade, fazíamos uma antítese do que pretendia a política oficial. De forma alguma aceitamos esta condição, daí a reação. Esta hegemonia significava, no frigir dos ovos, dinheiro sem limites para produções mais afinadas à política oficial discriminatória, e quase nenhum patrocínio para as produções realizadas em grupo.
É claro que não foi assim o tempo todo, até porque o grande benefício da ação política organizada é mudar a realidade, e essa hegemonia foi se perdendo ou se adequando aos novos tempos. Paradoxal, de qualquer forma, porque apesar das acaloradas disputas entre nós que dirigíamos a Cooperativa e o superintendente da APETESP, Lenine Tavares, nunca faltou lealdade no tratamento entre as partes. A mesma lealdade, difícil de se encontrar hoje. Mas, não é só isso. É desejável que se lute hoje contra outro tipo de hegemonia discriminatória e, para isso, tomei a liberdade de me dirigir a vocês. O foro para este debate não é exatamente aqui, as vésperas da escolha de uma singela comissão. Voluntariosa., se considerarmos o volume de trabalho a que são submetidos seus membros. Podemos com isso exercitar nossa participação para o que seria, no futuro, um grande debate nacional sobre a Cultura e as Artes, em todos os setores que elas se manifestam.
Tudo o que se projeta como objetivos, na Lei de Fomento ao Teatro, têm sua origem de há muito tempo na própria trajetória do teatro paulista e, em alguns aspectos, no teatro brasileiro. Especificamente na questão do trabalho continuado, várias experiências foram concretizadas, ao longo de mais de duas décadas. Nem sempre o sucesso imediato pode e deve ser a panacéia para todos os males. Na maioria das vezes, os fracassos oferecem melhores ensinamentos que meteóricos sucessos. A questão não pára por aí. Essa trajetória remonta a 1975, ao menos na cidade de São Paulo, já que estamos falando especificamente do teatro na cidade de São Paulo.
Nesse ano (75), teve início um ciclo de leituras públicas de peças premiadas, pelo então Serviço Nacional de Teatro. Esses eventos se transformaram, na época, numa referência para se avaliar o que era produzido como dramaturgia brasileira. É claro que tudo que aprendemos, a partir daí, teve a vertente do não cometer os mesmos erros. Melhor ainda, inventamos outras linguagens para dizer aquilo que estava na cabeça de cada um de nós que fazíamos teatro, e também na cabeça e na expectativa daqueles que nos prestigiavam, pagando religiosamente seu ingresso na bilheteria. É bem provável que aquelas peças do período, que lotavam os teatros, nada dissessem na atualidade. É natural. A realidade, empurrada pelo movimento social e pelas fissuras da história contemporânea, subverteram a linguagem teatral.
Em março de 1983, fui o Coordenador de uma programação teatral, comandando três dezenas de atores, denominada ATO TEATRAL. Lá se reuniram, dentre outros, o diretor Fernando Peixoto, companheiro da presente lista; o ator e diretor, Paulo Betti; e o atual secretário de cultura do município. Nesse grupo de atores estavam, provavelmente, os que mais se destacaram daquela geração. No evento, todo período ditatorial foi passado a limpo. Quando o movimento social se impôs, progressivamente, e o teatro das ruas se tornou dinâmico, os atores, diretores e dramaturgos já estavam preparados para fluir um outro tipo de teatro contemporâneo. Daí surgiram peças como, NA CARREIRA DO DIVINO; FELIZ ANO VELHO; EDIPO REI; ARTAUD, O ESPIRITO DO TEATRO; UBU e todas as peças realizadas pelo grupo Ornitorrinco e pelo grupo Mambembe, consagrando o teatro de grupo e permanente. Estava inaugurada, ali, a nova fase do teatro profissional brasileiro, em São Paulo. No plano sócio-político, apesar da derrubada do regime militar, outros instrumentos foram criados para continuar à discriminação. A derrota da emenda que permitia ELEIÇÕES DIRETAS, em 1985, possibilitou essa continuidade. No que nos afeta mais diretamente, tivemos o surgimento das Leis de Incentivo à cultura, que retirou da sociedade civil o direito de opinar e decidir sobre o tipo de política cultural.
Nessa oportunidade, no terceiro edital para inscrição na Lei do Fomento, os primeiros grupos contemplados, há um ano, voltam a concorrer. Isso é inevitável e também salutar. É hora, portanto, das primeiras avaliações, com profundidade. É hora de comparar o tamanho do subsídio destinado e os seus resultados. É hora de comparar o que foi apresentada como comprovação de projeto e sua realidade. É hora, enfim, de maior responsabilidade de todos, a começar dos grupos inscritos.
A lei de Fomento ao Teatro não é um reforço à responsabilidade do Estado sobre a cultura? Então, é urgente radicalizar este reforço, sem meias palavras. Com o maior respeito aos demais profissionais, indicados para concorrer a uma vaga na Comissão Julgadora, e também àqueles que diretamente foram escolhidos pela Secretaria de Cultura, submeto meu nome à sua avaliação. Submeto-me à sua escolha para realizar um julgamento justo do que está em discussão, ou seja, quais as melhores propostas para dar um passo à frente, objetivando aproximar o teatro da realidade social em que vivemos. FOMENTEMOS NÓS, DESTA FEITA.
26/06/2003
domingo, 13 de abril de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário