sexta-feira, 18 de abril de 2008

VERDE QUE TE QUERO VERDE E AMARELO!!!

Nas últimas semanas, por conta da execução do projeto Teatro, Cultura e Sociedade, temos convivido com depoimentos de expoentes da cultura brasileira, especificamente de pessoas ligadas à história do teatro brasileiro, dentre elas Etty Fraser, Marika Gidali e Renato Borghi. Impossível não relacionar a sinceridade dessa exposição pública, feita através de gravações e debates, com o caos a que fomos metidos de uma hora para outra. Enquanto de um lado pode-se ter acesso a um período de um Brasil jovem (pós-guerra), imperfeito, porém vibrante, de outro (na atualidade) tudo nos leva à desesperança e à sensação amarga que outro final não teremos, senão a submissão a interesses externos, alheios, portanto, à nossa vontade.

Para que o generoso leitor não fique ainda mais desnorteado, convém esclarecer que Teatro, Cultura e Sociedade é um projeto cultural, onde se pretende levar até aos estudantes universitários, informações a respeito da história do teatro brasileiro e a sua relação com a formação da cultura brasileira contemporânea. Tanto quanto possível procuramos descobrir em que momentos esse teatro não só foi testemunha da história, como também a própria história brasileira. Para tanto, foram convidados expoentes desse mesmo teatro e que disponham de tempo e vontade para contar e analisar sua contribuição com os avanços da sociedade civil brasileira. Desses depoimentos estão sendo produzidos documentos, que já se encontram à disposição de interessados no assunto, bastando procurar o que já foi publicado (*). Nosso enfoque neste texto - esperando contar com a boa vontade dos senhores - é vincular esse trabalho em curso à crise institucional a vista. Não é possível que os valores da sociedade brasileira caminhem rapidamente para o deboche, como se fossemos todos irresponsáveis e falastrões, impedindo o cidadão honesto de se rebelar contra aquilo que lhe parece mais gritante. O que se vê, em grande parte da imprensa escrita, é uma violência e um insulto à inteligência média de cada brasileiro. A denúncia vazia, sem a menor prova, na boca de um conhecido deputado corrupto, representante de um dos piores momentos da cena política brasileira, se transforma num feito capaz de sepultar os sonhos de milhões de brasileiros, sem a menor chance de defesa. As mentiras e acusações que esconde (ou não se importa em esconder) as próprias mazelas têm o mesmo peso de uma eleição presidencial. Por outra, a pregação diária na produção artificial de factóides, por parte dessa mesma imprensa, lançando pesquisas do tipo “você acha que o partido x acabou?” ou, “como funcionava a propina?”, mesmo sabendo que ainda nada foi provado e que tudo o que foi investigado ainda não veio a público. A certeza da impunidade desses predadores da imprensa brasileira leva-os a ignorar regras básicas da decência. Esse é o ponto que nos faz tão diferentes daqueles que, num passado não tão longínquo, construíram uma história republicana brasileira que, mais à frente, pretendemos reverenciar.

Neste final de semana, em um programa de televisão veiculado nacionalmente - o Canal Livre - o ministro da articulação política do governo foi entrevistado, em horário diferenciado. Comumente estas entrevistas acontecem ao vivo, porém o ministro estaria e esteve, no horário da veiculação, discutindo justamente os rumos da atual crise, com o chefe da Nação. Essa ‘cortesia’ da emissora aconteceu no sábado, uma vez que ele não poderia estar presente de corpo e alma, no show montado para o domingo à noite. Nem precisava, a presença física do ministro era só uma formalidade, e o mais importante nesse caso era montar um palanque para as figuras carimbadas da oposição desfilar. Não faltaram depoimentos de governadores, jornalistas, em sua maioria, engajados na sucessão presidencial. Um jornalista, da Folha de São Paulo, chamado a depor, chegou a sacramentar que esta crise se iguala ao depoimento do irmão do ex-presidente Collor. Após a entrevista serena do ministro Aldo Rabelo, o programa, aí sim ao vivo e sem a chance do expectador protestar, desfilou o que eles chamam “repercussão”. Curioso esse procedimento, pois a entrevista acabara de ser veiculada. Não se importaram muito com o conteúdo das respostas dadas pelo principal entrevistado da noite. Mais curioso ainda é a repetição de um bom mocismo, que chega a irritar. A generosidade expressa pela oposição representa a posição de que o presidente da república nada tem a ver com essa confusão, salvo ter demorado muito para agir na adesão de uma CPI. Mesmo o ministro repetindo que a prerrogativa das CPI’s é dos parlamentares e não do governo, o editor chefe do Canal Livre, atropelando muitas vezes o entrevistado, insistia não estar convencido. Diante do ministro sereno e pouco discursivo, o editor chefe repetiu apopléctico o seu ponto de vista. Mas, ele não estava ali entrevistando um convidado? Por que insistia tanto em dar sua opinião?

Nesta segunda-feira gorda, simultaneamente ao show interpretado pelo deputado assumidamente corrupto e contraventor da Lei Eleitoral vigente, foi armado um “furo de reportagem”, veiculado por uma agência internacional, para dar credibilidade. A notícia era que o ministro da Casa Civil, José Dirceu, por livre e espontânea iniciativa se demitiria, para, então, se defender das acusações e armar um contra-ataque do governo, na Câmara Federal. Nos diversos cantos do país, por alguns minutos, velhos companheiros e admiradores do ministro ficaram confusos, porém duvidaram que ele, ministro, fosse tão estúpido de cair nessa armadilha. O ministro não é demissionário e não pauta seus atos pelo que é noticiado na imprensa. Aí entram os nossos reais e bons atores do passado, daí a reverência a Etty Fraser, Marika Gidali, Renato Borghi e tantos outros.

Num passado, hoje longínquo para muitos, esses atores representavam a esperança de um Brasil em construção, uma República em construção, uma democracia em construção. Quando veio a truculência dos sucessivos golpes militares, esses artistas desprezaram o conforto de uma vida pessoal abastada e de sucesso para enfileirar-se, ao lado das principais vítimas dessa truculência, os jovens, os trabalhadores e o próprio país adolescente. Muitos usando apenas o instrumento de que dispunham, sua arte, alimentaram sonhos e eis aqui, afinal, o que vivemos hoje, uma democracia, se não social e econômica, como sempre sonhamos, ao menos representativa. Tanto é verdade que, apesar da desconfiança que um parlamentar provoca no cidadão comum, ainda hoje a maioria desesperadamente, a cada eleição, vê sua expectativa renovada. Uma parcela, lamentavelmente, ao longo dos anos, vem aderindo à violência como instrumento de sobrevivência, mesmo que isso a leve a morte prematura, mas aí são outros quinhentos. Na contramão, caminhando no sentido inverso de nossos grandes artistas de todos os tempos (esses serão imortais, afinal) alguns canastrões, bufões da vida nacional, são capazes de criar uma atmosfera de fantasia, a ponto de se fazer parecer real. Com isso, destroem não apenas sonhos, mas também instituições, a democracia e, por fim, o próprio Brasil. Dessa encenação, que por certo não terão como coadjuvantes os artistas citados acima, participa o ator deputado, o ator jornalista, o ator governador, num mesmo enredo. Ou seja, não nascemos como Nação, estamos definitivamente condenados a ser uma colônia, pior, escravos de uma outra civilização e interesses que vêm de fora. Uma esperança ainda nos resta, como diz o verso do cantor popular, ‘antes que um aventureiro lance mão’, teremos de novo os artistas a representar a alma nacional.

Jair Alves - Dramaturgo

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