domingo, 13 de abril de 2008

QUEM TEM MEDO DE ZÉ DIRCEU?

Por Jair Alves (*)


“Para uns José Dirceu é um perigoso aliado do governo de Cuba, para outros um reacionário, para os mais empolados um stalinista”


A crescente e generalizada campanha contra o ministro José Dirceu revela mais segredos do que a ingênua consciência, produzida pelo noticiário diário, pode parecer. Ela é uma senha para se desvendar o que está em curso. Convidamos a todos a refletir sobre o que se segue e descobrir o verdadeiro significado desta campanha. A pergunta é: o objetivo não seria desestabilizar o atual governo federal a qualquer custo, produzindo uma interrupção no árduo processo democrático, iniciado há décadas atrás? Anistia, Eleições Diretas, Constituinte foram etapas dessa mesma trajetória que está ameaçada neste momento. Faz parte dessa trajetória a Comissão de transição de governos que existiu entre o 26 de outubro e o 31 de dezembro de 2002 e que não foi patrocinada pela atual imprensa. Essa estava, ao menos parte dela, ocupada em nomear ministros.

Sempre é bom lembrar que uma democracia não se sustenta se a Nação não tiver uma imprensa séria. A independência da imprensa é sonho a ser alcançado num futuro longínquo, no entanto é condição sine quanon para a sobrevivência da atual democracia uma imprensa séria. Hoje, o que se vê publicado torna impossível generalizar que temos uma imprensa à altura da importância, do estágio e do desenvolvimento em que vivemos. As reiteradas mentiras publicadas no padrão “ouvi dizer”, “fontes” ou “segundo pudemos apurar” contraria muitas vezes os próprios atores dos acontecimentos, o que prova a falta de seriedade.

No episódio envolvendo o ministro da Casa Civil, José Dirceu, onde ele teria sido desautorizado pelo chefe da Nação, conforme noticiou um já citado órgão de imprensa, de nada valeu a declaração do assessor especial da presidência (o jornalista Ricardo Kotcho, este sim um jornalista sério) dizendo o contrário. Dias depois, o mesmo setorista de Brasília, responsável pelo mal estar, inventa um outro gancho para continuar com a sua pregação. Produziu assim um factóide, apesar de sua desmascarada má intenção. Desta vez, o impacto foi menor porque outro veículo havia desmentido a notícia anterior. Mesmo assim ancorou sua afirmativa no fato de um outro ministro ter ocupado os refletores, em substituição ao brilho próprio de Zé Dirceu. É evidente, cara pálida, que com o Brasil debaixo d’água era natural que Ciro Gomes, Ministro da Integração Nacional, ganhasse as manchetes. Afinal, ele é o responsável pelo setor. Mas, para provar que é possível se fazer um jornalismo sério basta lembrar que os jornais conservadores têm praticado, em muitas ocasiões, um jornalismo correto, contrariando a prática dos veículos ditos “democráticos”. É possível, sim, um jornalismo sério.

Com relação ao conteúdo da campanha, é preciso que seus adversários definam aonde querem chegar. Para uns José Dirceu é um perigoso aliado do governo de Cuba, para outros um reacionário, para os mais empolados um stalinista. Subtraem dessa pregação informações preciosas quando o comparam a Stalin. O grande ídolo do ex-líder estudantil, em 68, ao longo de toda sua vida tem sido o jornalista Cláudio Abramo. Os estudiosos do jornalismo sério sabem que não apenas Cláudio, mas toda família Abramo foi hostilizada, durante décadas, justamente pelos stalinistas e considerada por eles inimigos da Revolução. Isto porque seguiam como orientação política o russo Leon Trotsky. Dessa perseguição não foram poupados outros irmãos, dentre eles, a atriz Lélia Abramo e seu sobrinho, o extraordinário jornalista Perseu Abramo, também amigo pessoal do Ministro da Casa Civil. Quanto a este ponto, entendemos que os seus mais diferentes adversários deveriam padronizar o discurso, se afinal Zé Dirceu é um revolucionário ou um baita de um reacionário. Temos certeza que o esforço concentrado de seus críticos deixaria evidenciado se estamos vivendo a evolução ou interrupção da democracia brasileira.

Democracia nem sempre e necessariamente é revolucionária, muitas vezes ela se apresenta lenta e conservadora, nunca, porém, inconseqüente. Se para alguns as ações do atual governo não parecem ser tão “revolucionárias” é porque afinal a população não votou num projeto revolucionário, nem por isso inconseqüente. Ao contrário, se para outros as ações desenvolvidas nestes primeiros doze meses não agradam justamente os anti-revolucionários é porque outras perspectivas afloraram neste período, dentre eles o combate à corrupção na máquina do Estado. A campanha revela que o que está em jogo não é o Ministro da Casa Civil, e sim o atual governo e seu projeto para a Nação. Essa mesma imprensa que acredita nomear ministros, mesmo antes do resultado das urnas de outubro de 2002, engrossa e adota o discurso do padrão Enéas e Brizola, cheios de arroubos verbais e responsabilidade nenhuma. Muitas vezes adota o estilo dos apresentadores bufões dos programas policiais, sempre criticados na academia e imitados quando se trata de atingir adversários.

Quanto a Lula, superou todos os preconceitos e críticos surpreendendo a todos, submetendo-se a nada menos do que a quatro pleitos nacionais. Ele é o retrato da democracia brasileira. Suportou armadilhas da vida pública, do pessoal (alguém se esquece do episódio envolvendo sua filha, em 1989?) e foi considerado nos primeiros momentos de sua vida pública, pela esquerda tradicional, como um “vendido”, um “borra-botas”. Sem contar a expressiva legitimidade de seu projeto político, alcançada nas urnas. E como não é tão fácil atingir hoje o chefe da Nação que sobreviveu a tudo, a opção é atacar o seu fiel escudeiro. Qualquer um outro que estivesse no posto de segundo homem mais importante do governo entraria na mira dos seus adversários e, provavelmente, não suportaria tanto bombardeio. O que está em jogo é um projeto político, não uma pessoa.

Essa mesma imprensa que julgamos não séria gosta de fazer comparações. No passado fizeram comparações de José Dirceu a Sergio Motta, recentemente chegaram a compará-lo ao antigo Ministro da Casa Civil do governo FHC. Quem foi esse ex-ministro? Foi um dos líderes de uma geração? Sobreviveu às durezas do regime militar, organizou e administrou, durante décadas, o maior partido de esquerda do mundo? Nós não conhecemos este ex-ministro de FHC, nem o que ele representa para a Nação Brasileira. A Nação brasileira não pode se responsabilizar pelo amadorismo dessa mesma imprensa.

O uso do dramático episódio da morte do prefeito de Santo André, Celso Daniel, seria cômico se não fosse sério, apesar dos reiterados desmentidos, invertendo-se muitas vezes o ônus da prova. O PT e o Ministro José Dirceu não têm que provar sua inocência. Quem foi morto nessa história seria o terceiro homem da República e membro do partido que governa a Nação. Quem está na cadeia, acusado, aguardando julgamento, não é um filiado do PT, muito menos um dirigente. Que o acusado e os demais responsáveis tenham um julgamento limpo. Se culpados, que sejam condenados. Este é o desejo dos homens justos. Em qualquer democracia que se preste nenhum poder é inteiramente independente, do contrário não seria o Congresso Nacional a destituir governantes, não seria o mesmo Congresso a elaborar leis a serem aplicadas pelo Judiciário, e não seria o Judiciário, em ultima instância, a processar e julgar parlamentares e governantes pelos seus atos. E foi o que aconteceu no caso do Ministro. O Supremo Tribunal Federal não aceitou denúncia a ele referente por julgar improcedente a acusação. No entanto, este poder (imprensa) se autodenomina quarto. Afinal, quem inventou essa história de quarto poder foi a própria Imprensa. Esta parte da imprensa se julga acima das leis, dos pactos sociais e da própria história. Esta imprensa, acima do bem e do mal, se julga no direito de reabrir a discussão quantas vezes seja do seu interesse.

Em cima da hora chega a divulgação de gravação onde registra que Nixon tentou impedir, sem êxito, a posse do presidente Allende, na década de 70. Conseguindo, contudo, destituí-lo em sangrento golpe de Estado, poucos anos depois. Fosse este governo Lula mais impetuoso nas suas reformas, como defende o proprietário de um desses jornais “independentes”, não estaríamos numa rota de colisão com a Casa Branca? Estamos, afinal, protegidos contra esta fatalidade?

Com a proximidade de completar um ano do início da guerra dos Estados Unidos e Inglaterra contra o Iraque, é salutar refletirmos sobre a nossa história mundial recente (não mais do que um ano) e observarmos que a imprensa pode ser um instrumento para construir, mas pode ser também uma poderosa arma de destruição. O alinhamento da imprensa norte-americana à tese, que afinal todos nós sabíamos tratar-se de um blefe (armas químicas no Iraque) produziu não apenas cadáveres, mas quem sabe um conflito insolúvel no Oriente Médio, por décadas. Todos os esforços de paz, costurados ao longo de anos, foram sepultados com os escombros da Guerra.

Para finalizar repetimos: não existe democracia sem uma imprensa séria, ainda que o ex-presidente do PT seja uma ameaça aos interesses de muita gente. São eles, afinal, que temem a Zé Dirceu?

(*) Jair Alves - Dramaturgo/SP

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