sexta-feira, 18 de abril de 2008

UMA DÉCADA ENTRE ESCUTA ZÉ DIRCEU E

A pouco mais de uma década, quando recebi a incumbência de redigir um libreto que recebeu, mais tarde, o título de ESCUTA ZÉ DIRCEU, a expectativa daqueles que pensavam em transformar o Brasil era bem diferente do que se apresenta hoje e do que também veio acontecer, ao longo daquele ano de 1994. Curioso e dramático como os meios de comunicação estão organizados neste país, pois conseguem criar um torpor na população, uma espécie de embriaguez, que provoca de imediato o esquecimento de vivencias fortes, como o que veremos.

No início de 94, ainda era muito recente a movimentação popular que vestiu de negro a população e as janelas dos prédios, nos grandes centros, e mais, pintou de verde e amarelo as faces dos jovens. Não só isso, num fato inédito, no calor da CPI que botou pra correr uma quadrilha que tinha tomado de assalto o Palácio do Planalto, descobriu-se, também, que o Legislativo abrigava outra camarilha, a do ORÇAMENTO. Nessa lavagem de roupa suja, transmitida ao vivo e a cores pelos meios de comunicação, criou-se espontaneamente a expectativa de, em 94, eleger um quadro diretivo, progressista, agregando expoentes (parlamentares que haviam lavado a alma do povo brasileiro, durante as CPIs,) dos episódios anteriormente citados. Trabalhou-se por uma frente progressista, embora hoje isso possa parecer uma heresia, composta de políticos do PT, PSDB e setor progressista do PMDB, além de pequenos partidos de esquerda, tendo como cabeça de chapa o atual presidente da República. Para os mais exigentes de informações mais precisas, sugiro ler nos jornais da época o índice espontâneo de escolha para o novo chefe da Nação.

Foi nesse contexto que escrevi, sem maniqueísmos, o Escuta Zé Dirceu, com a preocupação de modestamente indicar alguns tópicos, ligados à nova guerra moderna, a batalha pelo controle das comunicações, travada já no âmbito internacional. A mordaça do Pentágono, aplicada sobre a imprensa norte-americana, durante a Guerra do Golfo, era o sinal mais claro. Discuti com o então deputado federal, José Dirceu, aspectos dessa nova guerra, alimentados por preocupações do falecido jornalista Jorge Batista, durante curto tempo que estive com ele. Apesar de não sentir nenhuma discordância de Zé Dirceu, não vi ao longo desses dez anos nenhuma ação concreta que levasse a um fortalecimento dos profissionais da área (artistas, jornalistas, comunicadores e geral).

Inesperadamente, já na primeira metade do primeiro semestre de 94, essa frente progressista evaporou-se, como se não houvesse existido. O TNT que implodiu esse esforço generoso teve o nome de PLANO REAL e selou a união de dois partidos, o PSDB e PFL, que governou o Brasil por oito anos. Os resultados estão aí. É só analisa-los com isenção para ver o que os olhos vêem e o coração insiste em não aceitar.

As pessoas presentes nesta última terça-feira, 13 de abril, no Teatro de Arena, em São Paulo, tiveram o privilégio de ouvir as palavras de Silvana Abramo Margueriti Ariano, sobrinha da atriz Lélia Abramo. Quando essa recebeu das mãos da jornalista Suely Pinheiro, da atriz Éster Góes e do advogado e dramaturgo Idibal Piveta (César Vieira), fitas, contendo entrevistas inéditas com Lélia Abramo, sintetizou o momento atual e pudemos perceber que estamos diante de uma encruzilhada. Ou olhamos para o passado e para pessoas que escreveram com a própria vida esse passado ou não há saída. É sucumbir à barbárie que invade os noticiários de todas as tevês e jornais impressos. Como disse Silvana Abramo, "é preciso olhar a vida dessas pessoas que foram lembradas aqui hoje, dentre elas, meu tio Perseu, o Plínio e o Carlito e ver - ISSO É IMPORTANTE - onde eles queriam chegar?".

Apesar da indiferença crônica de setores da imprensa que se negam discutir e dar o devido destaque para quem navega na contra-mão do ato suicida, os doze escolhidos que compõem o roteiro de Os Treze Trabalhos de Ércules, estou convencido, como diz a expressão em uso, existe sim um caminho para nos tirar desse atoleiro. A nova conjuntura internacional, com lances explícitos de guerra suicida, tendo como personagens principais George W. Bush e o premier israelense, Ariel Sharon, que nada devem a outros carrascos da humanidade muito menos a Osama Bin Laden, líder da rede terrorista Al Qaeda, nos faz pensar que agimos ou sucumbimos.

A atriz Éster Góes, quando procurada para falar sobre Lélia Abramo na imprensa, deu como exemplo a intransigência e a contrariedade da amiga, quanto ao boicote sofrido por ela, ao longo de sua carreira artística. Éster lembrou que mesmo começando aos 47 anos, naquele mesmo Teatro de Arena, Lélia construiu uma trajetória exemplar, não só para o teatro, mas para a Cultura Nacional, com poucos trabalhos, proporcionalmente, se considerarmos os 93 anos vividos. O que prova que é necessário debruçarmos sobre pessoas que foram, não só necessárias, mas como disse Brecht, indispensáveis. Os doze nomes lembrados no Treze Trabalhos de Ércules recebem a adesão, em cima da hora, da principal causadora da repulsa a toda forma de miséria e de injustiça nesse mundo - a atriz Lélia Abramo.




Jair Alves - Dramaturgo -

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