Na próxima terça-feira, 11 de Maio, mais precisamente na passagem do dia 11 para 12, completam-se 25 anos da criação da CPT. O dado mais significativo a ser analisado, no movimento que deu origem a essa organização, é o fato de estar ele atrelado aos acontecimentos da época (1979) e que mudaram substancialmente a história brasileira contemporânea. Naquele início de ano reuniu-se, no Rio de Janeiro, toda a comunidade teatral brasileira para discutir, não somente sua realidade mais imediata, mas também a aceleração das mudanças nacionais em curso. Fui escolhido, juntamente com o ator Adilson Barros, como representante dos grupos teatrais de São Paulo para levar até Arcozelo as reivindicações que dariam corpo às transformações necessárias - a criação de uma Política Cultural mais justa para aqueles que efetivamente simbolizavam as tais transformações em curso, ou seja, os grupos de teatro. Essa lembrança (esse texto) não oferece espaço para um aprofundamento da discussão, mas faltar com a verdade é um pecado e, por isso mesmo, deixo aqui registrado o ocorrido e um esforço último, no sentido de alertar que negar o passado é negar a existência de qualquer futuro.
O movimento que deu origem a CPT foi um reflexo dos acontecimentos nacionais. Paralelamente, havia a movimentação dos metalúrgicos do ABC paulista, liderado pelo hoje presidente da República, mas que só progrediu porque houve a mão segura da atriz Lélia Abramo, forçando o líder em acessão a não recuar no movimento da história brasileira contemporânea.
Este espaço é curto para um aprofundamento da questão, mas os livros de história estão aí para serem consultados, quando se faz necessária uma leitura correta dessa mesma história. Essa mesma atriz, por outro lado, foi a grande aliada do movimento que deu origem a CPT, contrariando alguns de seus pares que viam nesse movimento um grupo de "anti-revolucionários". Piada de muito mau gosto, quando vemos hoje parte desses "revolucionários" se valendo do trabalho produzido pela CPT (tanto no passado, como no presente). De novo, a escassez de espaço (criaremos outros para a discussão dessa questão específica).
Para não estender muito, basta lembrar que naquele semestre, com as greves sob a liderança de Lula, dava-se início a uma trajetória que culminou com a sua chegada ao Palácio do Planalto, o que tem provocado controvérsias a respeito do mérito desse feito. Depois da dúvida o caos, e já vivemos sinais evidentes dessa terra de ninguém. Como o teatro está refém das disputas palacianas, nunca é demais lembrar que a única possibilidade da atual gestão municipal de São Paulo se reeleger é a manutenção na disputa com o maior representante da ditadura militar do período 64-84 - Maluf. Com ele fora, oficialmente ou sem chances eleitorais, não haverá reeleição, pois o saco de pancada será a atual administração e, com isso, toda discussão sobre a cultura na cidade de São Paulo, com todas as suas falhas, vão ser sepultadas, dando origem a outro período de malhação ao Judas. O que se verá novamente, repetindo a fábula brasileira da autodestruição, será um aventureiro qualquer assumindo o controle da cidade, teatralizada por Anchieta. Daí para a instalação do caos, um passo. Não sem razão, neste domingo de sol, com o Capeta do Apocalipse caindo em desgraça com a revelação de documentos comprometedores na Suíça, paraíso fiscal, etc., o jornal oficial da oposição inicia mais uma campanha sórdida, dessa vez pessoal, contra o presidente da Nação. Simultâneo a essa divulgação, acende-se a esperança dos opositores, sedentos de revanche.
Mas, voltemos a CPT. Esse texto tem um objetivo claro: contribuir, a todo e qualquer esforço, para a construção de uma política cultural que aumente as chances do Brasil dar certo. As questões menores, como a utilização de métodos espúrios, citados acima, ficarão para depois. Não me furtarei, em outra ocasião, a dar nome aos bois nessas questões menores. Uma delas diz respeito à "loucura" dos dois dirigentes da CPT, na sua primeira fase. Essa bravata, além do seu efeito duvidoso, é ridícula. Em se tratando de teatro, só mesmo sendo "louco" para alguma coisa dar certo (vide Artaud - autor do título acima). Por outra, chamar o adversário de louco revela mais uma prática, hoje execrada. Este foi um instrumento sórdido usado pelos stalinistas que condenavam os opositores ao exílio, em Gulag. Dessa forma, no aniversário de 25 anos da CPT convido a todos a cantar parabéns, olhando o mundo e as coisas com um olhar de quem quer construir, não destruir (como diria um filósofo em evidência, na década de 60).
Ofereço a vocês que me fizeram a gentileza de ler este texto até o seu final, OS TREZE TRABALHOS DE ÉRCULES, onde, dentre outras coisas, registro a trajetória desse movimento nos seus primeiros anos (6, para ser mais preciso) dos 25 que agora é comemorado. O texto que fala explicitamente de sua essência é DOS LIMITES DA LIBERDADE, além, é claro, de referências ao momento político e social, em todas as demais faixas. Uma coisa é certa, todos os nomes listados dedicaram sua vida para construir e testemunharam seu compromisso com a verdade e as mudanças para um Brasil justo. Isso não é pouco.
Quando o parlamento e os centros decisórios de poder superam as maluquices dos internos de sanatórios, só nos resta consagrarmos santos. Daí a dignificação da santa loucura de Adilson e dos demais que se aventuraram, como eu, contra o poder de plantão.
Sentirei muita honra em contar com a sua atenção e aceitação desse testemunho.
Jair Alves - Dramaturgo/SP - Ex-Presidente da CPT 79/85
(*) Título do último texto do dramaturgo francês, Antonin Artaud, em 1948
Os parceiros que de fato queiram participar dessa celebração podem acessar a página http://macunaim.sites.uol.com.br
Neste sítio terão informações a respeito do envio do CD Os Treze Trabalhos de Ércules
sexta-feira, 18 de abril de 2008
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