Era de se esperar muito mais de quem ficou por oito anos, no comando da Nação brasileira. Esperava-se uma proposta política mais concreta do que essa que foi apresentada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Senhor presidente, pessoas que se dedicaram à administração de entidades ou organizações públicas, por tempo às vezes menor, sete anos por exemplo, dizem que essa experiência mudou suas vidas. Falo da vida de presidente de clube de futebol, grupo de teatro e até de determinados síndicos. Imagine o que teria a dizer a pessoa responsável pelo destino de milhões de brasileiros!
Quanto ao senhor, parece que os oito anos em que usou a faixa presidencial, na verdade, serviram apenas para dar-lhe o privilégio de ser um expectador, com direito a opinar sobre este ou aquele assunto. De resto, não se lê nem se ouve nada a seu respeito, relacionado a temas político-econômico-administrativo ligados a esse período. E por falar nisso, desculpe-me senhor presidente, acha mesmo que a privatização do Estado brasileiro que aconteceu no seu governo serviu para impulsionar o Brasil ao desenvolvimento? Pelo visto, não. O que se desenvolveu, na verdade, foi a miséria, a violência, o crime organizado e as fortunas de algumas poucas famílias. Mas, como bem disse, tudo isso é passado. O que importa é olhar para frente e não olhar pelo espelho retrovisor, numa de suas preferidas metáforas, a respeito do atual governo.
Na sua análise dos anos que se avizinham, tudo parece gerar em torno dos postos de comando e dos cargos ocupados na administração pública, como se política se restringisse a vereadores, deputados, prefeitos. Talvez, isso explicasse o reclamo de seus pares ao dizer que seu partido não tem capilaridade social (e, por favor, isso não é nenhuma piada a respeito dos candidatos carecas). O desenvolvimento de setores humanos, como os meios de comunicação, ainda que controlados pela concessão governamental trouxe à tona várias contradições que ainda não foram suficientemente discutidas, mas o serão nos anos que virão. Por outro lado, é sabido, inclusive com sua valiosa contribuição no passado, quando era apenas um professor e sociólogo, que a democracia que os homens de bem do Brasil querem implica bem mais do que a democracia representativa, contida na sua ridícula proposta de voto distrital. De fato, o povo quer mais do que um policial em cada esquina e um vereador para votar a cada quatro anos. Essa população sofrida, com o desenvolvimento dos meios de comunicação, quer muito mais. Essa população quer tudo o que tem direito. Já não basta dizer que “o cobertor não vai dar para cobrir a todos”, como costuma fazer seus pares.
Na observação do artigo que subscreve neste site, chega a zombar da tese do “acordo entre as elites”, professada pelos intelectuais de esquerda, grupo esse que um dia o senhor teve cadeira cativa. Vale perguntar: E agora? E agora, José? Ou seria melhor indagar, “E agora José Dirceu? É impossível imaginar o cenário político futuro, sem a presença do PT e também do emblemático deputado José Dirceu. Impossível negar o papel desse partido e do ex-líder estudantil, ex-ministro e ex-deputado, na construção do atual estágio da democracia brasileira. No entanto, o senhor sabe que ele, José Dirceu, seria um candidato muito forte, com capilariade substancial à sucessão do atual governo. Na dúvida, seu partido tratou de promover sua degola, prematuramente, desencadeada por um obscuro senador de seu partido do Mato Grosso do Sul. Lembra-se do caso Waldomiro Diniz? Hoje, esse mesmo senador se vê encalacrado com denúncias de envolvimento, no escândalo dos sanguessugas. Coisas da política representativa e, como sabemos, não esgota a participação política da população.
A obsessão de seu partido, em eliminar o adversário, nada mais é do que uma vertente anunciada pelos intelectuais de esquerda, a respeito do conceito de Washington, do qual o senhor nunca conseguiu provar não ser um adepto. Por falar nisso, mais a esquerda ou mais a direita, o PT, como sigla partidária, vai sobreviver. Historicamente, o senhor bem sabe disso, temos antecedentes significativos, vide o velho PTB de seu respeitado pai, que sobreviveu, inclusive, à ditadura militar. O PT não será diferente. Quanto ao seu partido, não há dúvidas, ele caminha rapidamente para a direita - ou para ser mais preciso - caminha rumo à métodos perversos, utilizados pelos partidos conservadores. Quanto à convergência, preconizada entre PT e PSDB, e também por intelectuais de esquerda, talvez nem seja necessário que ocorra, nem desejável. A única esperança dos homens de bem, e sua consciência saberá dizer se ainda pertence a esse grupo, é que a Nação Brasileira não abandone o sonho de uma democracia política e econômica, é claro. Do contrário, estaremos mergulhados num longo período de obscuridade, e não faltarão dedos e bocas para acusá-lo de ser um dos causadores dessa tragédia. A história tem sido implacável, em se tratando de traidores, e o senhor, preventivamente, tem atacado seus adversários com o uso indiscriminado da palavra traição. Cuidado, Robespierre foi a maior vítima desse modelo, usou a guilhotina para eliminar adversários e companheiros de primeira hora e, depois, foi pateticamente conduzido ao cadafalso da mesma forma. O senhor fala de traição, mas o atual governante não pode ter traído suas expectativas, afinal, ele não era seu candidato. Assim como, com toda segurança, o senhor não pode falar mais, em nome da Nação Brasileira.
O ano que se avizinha (2007) será polarizado entre as lutas da sociedade civil, contra todos os desmandos do Estado, em todos os seus segmentos. Não se engane, o desengajamento de um grande número de intelectuais, ativistas que hoje ainda apóiam o atual governo, não significará vida fácil para a coalização centro-direita a que o senhor faz parte. Diz o dito popular, “o bicho agora vai pegar”. Ai, talvez, o senhor venha sentir falta desses tempos tão cordiais, dessa briga entre os primos petistas e psdbistas.
Quanto a nós artistas, cansados de subir em palanques, emprestar nossa transitória ou duradoura notoriedade para falar contra a ditadura, estamos seriamente engajados, a partir de agora, a falar a favor da cultura. E isso, pode ter certeza, terá grande repercussão em todas as classes sociais, principalmente se essa postura for acompanhada de uma produção artística que espelhe a realidade nacional, coisa que a muito tempo os políticos não fazem. Repercutindo o brilhante ator Renato Borghi, “o ministério da Cultura tem um orçamento zero vírgula qualquer coisa, por cento. Como podemos pensar na construção de uma Nação, dessa forma?”. Senhor presidente, sua participação, ou de seu ministro da Cultura, foi pífia na produção artística nacional. Foi pior do que esse atual governo.
A ruptura política, na maioria das vezes, é lenta, porém quando a população se decepciona com os métodos dos governantes essa ruptura pode ser repentina e inesperada. O estardalhaço e vale tudo, usado por aquilo que se convencionou chamar oposição e que, na verdade, convergiu parte da imprensa, parte do judiciário, parte dos intelectuais, poderá acelerar trágicos acontecimentos, ou não. Como não adepto do semear o medo para evitar a transformação, como fez tempos atrás minha companheira de profissão (Regina Duarte), sugiro, modestamente, ao senhor uma leitura da história recente, e verá que suas previsões são sombrias, descoladas da realidade. Ainda mais, vale perguntar - Desculpe, senhor presidente, ainda pensa falar em nome da Nação Brasileira?
sexta-feira, 18 de abril de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário