domingo, 13 de abril de 2008

DRAMATURGO PROMISSOR - JORNALISMO PÉSSIMO

DRAMATURGO PROMISSOR - JORNALISTA MEDIOCRE

A pouco menos de um ano o mundo era sacudido com os preparativos para a invasão do Iraque, pelas forças do Pentágono. Como principal instrumento dessa estratégia macabra, a imprensa dos Estados Unidos da América era vendida aos interesses de quem comandava a ação militar. Ao ser concretizada a ação de tomada de Bagdá e todo o território iraquiano, pelas forças militares, ficou claro tratar-se de uma farsa as informações a respeito de armas químicas e outras mentiras. O que se seguiu, está registrado em papel e vídeo, nesses últimos meses. Só não vê quem não quer.
Com a propalada prisão de Saddam Hussein, noticiada neste domingo, encerra-se o filme de encomenda que vai apodrecer no esquecimento da história contemporânea. O enredo, divulgado nos prés-realeses, pouco importa se correspondia ao script ou não, o que se almejava foi conseguido (tomar o território iraquiano) e, a partir de agora, essa mesma imprensa (vendida) cumprirá o seu papel de levar para o limbo o ditador (Saddam), da mesma forma que num passado não muito remoto, o general Manuel Noriega (Panamá). Alguém se lembra dele? Este, também, foi um protegido de Bush (pai), e hoje cumpre prisão, dentro dos E.U.A.
No Brasil, como somos provincianos (parte da imprensa, ao menos), conforme veremos, atua, não a favor do governo atual, mas contra ele. Tanto num caso como no outro, este não seria o papel de uma imprensa, independente. Mas, no Brasil, tudo pode. Este veículo (que vamos dar nome mais à frente) age em favor de uma colcha de retalhos (interesses), por nome "oposição". Com isso, de forma leviana, faz campanha para desestabilizar o governo federal. É importante que a imprensa seja crítica, facciosa, jamais! Estou falando, explicitamente, da Folha de São Paulo que, muito recentemente, vem dedicando inúmeras páginas, numa campanha suja e desleal, tomando como foco principal, o caso Celso Daniel. Para quem conhece a gênese das questões políticas e sociais daquela região, sabe tratar-se de pautas inteiramente fora de contexto, cujo objetivo não é outro senão o de criminalizar todos aqueles que, por casualidade ou opção, tenham se enfileirado ao partido majoritário, que hoje dirige a Nação.
Na edição desse último domingo, nada menos do que quinze (15) títulos tratam do ocorrido, em Santo André. Que bom que o jornal esteja 'interessado' em desvendar este mistério, porém, quando a esmola é muita o santo desconfia. Chegou-se ao absurdo de, em edições anteriores, forjar uma ligação entre o cruel assassinato, com o caso do juiz que vendia sentenças judiciais. Não bastasse o cumprimento rigoroso de um programa de levantamento de pistas falsas, e suas hipotéticas ligações, político-partidário, na semana passada o promissor dramaturgo, Otavio Frias Filho (editor chefe do jornal), entrou de sola. Como o mesmo, é o dono do jornal e porque, também, mantém sua coluna semanal, com toda certeza virá outro libelo, sobre "o estrago que a administração petista está fazendo à Nação brasileira". Seria cômico, senão fosse sério, diria Durremath, e Frias (estudioso da dramaturgia universal), saberá disso. Se crime existisse, o castigo tem sido desproporcional.
Como este provincianismo está ligado aos interesses da matriz, voltemos a Washington. Com relação à campanha de Bush à reeleição, os jornais do mundo inteiro (ao menos aquela imprensa que não pode ser considerada, independente) seguem rigorosamente a pauta produzida, após a prisão de Saddam Hussein. É como se, de uma hora para a outra, a invasão do Iraque no início do ano passado fosse motivada apenas pela crueldade de um ditador, assassino e sanguinário. Nenhuma palavra a respeito das tais armas químicas. Para esta imprensa, não interessa as contradições, ou melhor, as suas próprias contradições, e a democracia, tão pouco. Placidamente, esses releases, que circulam mundo afora explicitam os feitos de Saddam, em início de carreira, com o apoio irrestrito dos Estados Unidos, a começar do massacre dos comunistas iraquianos. E, no entanto, isso não parece ser relevante, no contexto atual.
No plano doméstico, ainda nesta segunda-feira, a mesma Folha volta à carga com um artigo, assinado por Vinicius Torres Freire, onde levanta dúvidas a respeito da privatização dos meios de transportes, em Santo André. O texto induz (ou tenta induzir) o leitor, incauto, a associar o nome do prefeito, assassinado, à corrupção. Isso é tão primário (ainda lembrando, Durremath), que seria o mesmo que associar os assassinatos de sindicalistas, dos meios de transporte da cidade de São Paulo, a Paulo Maluf, só porque ele promoveu a privatização, no município. Pior, seria como se (no caso, Celso), assassino e vítima fossem a mesma pessoa. Como imaginação dramatúrgica, isso é interessante - e Otávio Frias foi bem, mas sob o ponto de vista jornalístico, é uma infâmia. Eu desafio à Folha de São Paulo a demonstrar que o jornal publicou meia lauda que seja, nos últimos anos, informando sobre o movimento sindicalista, político e social, da região de Santo André.
No período de 89-92, o noticiário da Folha de todo o ABC era realizado por um mal pago jornalista, em início de carreira, sem uma linha telefônica, sequer, para comunicar-se com a sua editoria (na época, ainda não tínhamos o celular). Desafio à Folha a formar juízo a respeito do prefeito, Celso Daniel, nesse período. Desafio à Folha (também), a rastrear as razões pelas quais adormece, ainda, no ABC, sinais de uma ultradireita, sempre disposta ao confronto e a ações estremadas. Desafio à Folha a fazer uma REPORTAGEM, sobre tudo o que aconteceu, em Santo André, desde o ressurgimento do movimento operário, no final da década de 70, e seus reflexos, hoje, e se existe relação entre todos esses acontecimentos e o assassinato do sindicalista, ligado aos meios de transportes, nesta sexta-feira última. Poderá até não haver (tanto melhor), mas jornalismo é jornalismo, e não um posto avançado de interesses político-partidário.
Como resposta ao artigo de hoje, basta lembrar que não apenas Celso Daniel optou pela privatização, mas também Antonio Palocci Filho, em Ribeirão Preto, com a Companhia Telefônica do município. E, longe de significar uma traição aos princípios do partido que, programaticamente, é contra as privatizações, a decisão em fazê-la deve-se a uma questão estratégica. No governo municipal, o PT da cidade de São Paulo (Marta Suplicy) não se aventurou, na reestatização dos meios de transportes. Um dia, quem sabe. O mesmo pode-se dizer das privatizações das companhias aéreas, o governo federal não está e não deve assumir seu controle acionário, o que seria uma lógica primária.
Para defender Celso Daniel, precisamos de um fórum privilegiado, não a praça do bate-boca e a reunião de pauta da FOLHA, viciada, cujo objetivo não é outro, senão vender jornal ou engrossar os interesses dos americanos do norte. Essas matérias fomentam a onda de boatos, absurdos e inverossímeis, dentre eles que o prefeito, assassinado, estava recolhendo fundos para sua campanha a senador (sic). Celso Daniel seria (com toda certeza) o terceiro homem forte, do atual governo. Seu projeto político nunca foi pessoal, e sim institucional, para a Nação brasileira. Inútil, contudo, continuar a pregar no deserto.
E, para não isentar o Partido dos Trabalhadores de responsabilidade, nessa campanha (xenofóbica), digo que este partido, vítima dessa recente campanha, age com a costumeira falta de profissionalismo. Via de regra, o militante, graduado, tem mais voz nessas questões do que o jornalista experimentado. A inexistência de uma Política De Comunicação, criada pelos profissionais do setor, com a devida concordância da direção do partido, seria a solução. Idem, quando se fala sobre Cultura. Os tais militantes, graduados, têm mais voz e vez do que os trinta e tantos anos, desse ou daquele artista e/ou escritor. Mas, esta ainda é uma outra batalha, que terá que ser ganha pelos artistas, jornalistas, dentro e fora de todos os partidos políticos. Será, com certeza, a primeira etapa da superação do nosso provincianismo suicida.

Jair Alves-Dramaturgo/SP
15/12/2003 (revisado)


(*) Jair Alves é Dramaturgo, Ator e Diretor. Participou, como ator, dos musicais JESUS CRISTO SUPERSTAR; MORTE E VIDA SEVERINA; MISSA DO VAQUEIRO; MAQUIAVÉLICO MAQUIAVEL (também como autor); QUALÉ MEU?; UBU REI; ARTAUD; entre outros. Como autor, foi premiado com os textos A MORTE DE DEUS e INTERROGAÇÃO, na década de 70, e, em 2000, com a peça 7 DIAS EM 2000, como MELHOR TEXTO DE TEATRO, no PRÊMIO VLADIMIR HERZOG DE ANISTIA E DIREITOS HUMANOS. Autor do livro ESCUTA, ZÉ DIRCEU.229

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