sexta-feira, 18 de abril de 2008

COMUNICADO À IMPRENSA BRASILEIRA

Na madrugada do dia 11 para 12 de Maio de 1979, há vinte cinco anos (25), portanto, num pequeno teatro no Bairro da Bela Vista, na cidade de São Paulo, era criada a COOPERATIVA PAULISTA DE TEATRO (*). Esta data, no dia de hoje, tem singular importância, o que me inspira a essa manifestação que, a princípio, poderia parecer dispensável.

Há vinte cinco anos atrás (1979), não apenas o Brasil, mas o mundo, era sacudido por uma onda de transformações que enchia a humanidade de otimismo. A movimentação dos metalúrgicos do ABC paulista para o Brasil significava uma esperança de mudanças, que, afinal, ocorreu. Falávamos de liberdade e a moeda de troca era a solidariedade. Foi esse o gás que movimentou todas as transformações sociais, nos anos que se seguiram. Neste contexto, mais especificamente no primeiro semestre daquele 1979, permeado com greves, intervenções, Anistia, fui escolhido, naturalmente, por um segmento importante da comunidade artística paulista - os Grupos de Teatro - para liderar e conduzir, pelos próximos seis (6) anos seguintes, a organização acima citada.

É evidente que este trabalho não era pessoal. Sem a participação de alguns atores, diretores, dramaturgos, dentre eles alguns que já se foram, não seria possível essa trajetória vitoriosa. A contribuição definitiva às Artes Cênicas, de pelo menos cinco grandes espetáculos, será lembrada para sempre na história brasileira. O ponto em comum dessa produção e as movimentações sociais em curso seria a participação e a certeza de um Brasil justo. Uma palavra define o período - AGREGAR.

Os dias atuais apresentam, na sua forma mais acabada, o desagregar, a disputa sem propósitos claros. Era difícil para qualquer de nós, naquela época, imaginar que um dia iríamos viver e/ou presenciar cenas de barbárie, como as veiculadas diariamente nas tevês, o que têm tingido de sangue e vergonha a todos nós. Surpreende-me, se algum valor tem minha opinião, que esse mesmo teatro que ajudei a construir seja incapaz de reproduzir, em cena, a profundidade desse suicídio coletivo. Há que se gritar - ISSO NÃO ESTÁ CERTO!

Há dez anos tive longas conversas com o atual ministro da Casa Civil, José Dirceu, e, dessas conversas, ficou claro que o país, saído de movimentações populares, com a participação dos jovens nos casos do Impeachment do Collor e dos Anões do Congresso, teria a possibilidade de construir a democracia, tão desejada pela maioria. Alertei, na época, a respeito de importante questão, a guerra que seria travada pelo controle das comunicações e sua democratização. Este ponto deveria ser tratado como uma questão estratégica e as minhas preocupações não mereceram reparos, na oportunidade. Essa conversa, então, foi registrada no livro ESCUTA ZÉ DIRCEU.

Com o passar do tempo, porém, nenhuma providencia foi tomada. E, hoje, a atual equipe de governo que chegou ao poder graças à somatória de esperanças de mais de uma geração tem sido vítima de seguidas armações pela mídia, justamente o ponto nevrálgico alertado naquela oportunidade. Caso o teatro estivesse hoje próximo da realidade, como seria desejável, com toda certeza a população não estaria tão perdida e desinformada, mergulhando perigosamente na desesperança. A população brasileira, se retratada no palco, seria um personagem de transformação, ao contrário da contumaz apatia e desespero. Os espetáculos Feliz Ano Velho, UBU, Na Carrera do Divino, Artaud Espírito do Teatro, Édipo Rei, estrelado por Renato Borghi, tiveram uma relação direta com o que acontecia nas ruas. A partir do malogro das eleições diretas, em 1984, vivemos essa dissipação.

Para finalizar, registro que a atual Cooperativa, apesar de atuar diferentemente da concepção inicial, representa hoje, seguramente, o crescimento das Artes Cênicas brasileira. Como faço parte dessa história, melhor, fui seu propulsor durante seis anos, dos seus vinte cinco anos, me qualifico a fazer este registro. Lamentavelmente, este cenário atual hostil (contrariando nossas expectativas de um movimento social, iniciado no final da década de 70, na luta para derrubar a ditadura militar) está marginalizando centenas de artistas e, com eles, milhares e milhares de profissionais nas mais diferentes áreas, notadamente àqueles que trabalham nos meios de comunicação de massa.

Portanto, em algum ponto Zé Dirceu e seu partido errou. Escolhi como forma para registrar o meu protesto - o que considero uma atitude positiva - lembrar e dar vida aos feitos realizados por Plínio Marcos, Carlito Maia, Adilson Barros, Gabriel Mendes, Perseu Abramo, Cláudio Mamberti, Agenor Xará, Rodolpho Telarolli, Renato Russo, Celso Daniel, Zé Ketti e João do Vale, através de OS TREZE TRABALHOS DE ÉRCULES, utilizando como parábola os Doze Trabalhos de Hércules - o Herói Grego.


(*) Jair Alves - Ator e Dramaturgo
Fundador e ex-presidente da Cooperativa Paulista de Teatro (79/85)

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