(*) Por Jair Alves
Eu conheço um bufão de perto. Muitas pessoas, incluindo eu, devem a esse bufão a vida. O personagem de que falo foi presidente de um Centro Acadêmico, de um importante Campus Universitário, da USP, por volta de 72/73. Com sua personalidade dúbia, agia e sempre agiu ajudando pessoas a se esconderem da ditadura militar. Posteriormente, aderiu ao stablichment dos governos passados. O próprio Honestino Guimarães (**) teve alguns meses de sobrevida, devido ao ato corajoso desse bufão que ousou desafiar a repressão, escondendo um homem marcado para morrer. O meu caso é mais simples, contudo devo, sim, a ele ter sobrevivido àquele período da repressão. Ele também me escondeu e aqui estou para contar essa história.
Uma pessoa tão generosa, aqui tipificada como bufão, deverá apresentar alguns defeitos para não ser considerada hoje um bom caráter. E eles existem. Os motivos convergem para a sua compulsão à mentira. Torna-se impossível confiar numa pessoa com essas características. Apesar disso, ele também revelou uma extrema capacidade para detectar o que ocorre nos subterrâneos da política brasileira. Há dez anos não vejo o tal amigo bufão, melhor assim. Nesse nosso último encontro ele revelou um segredo, que por dever profissional não falarei a respeito. Esse segredo, porém, pode explicar o momento que estamos vivendo.
O bufão, meu amigo, me revelou o segredo como se capta quando alguma ação conspiratória está em curso. Vamos a ela. No início de fevereiro deste ano começou uma estranha movimentação, em especial em pequenas matérias, publicadas pela Folha de S.Paulo. A excitação dos jornalistas, da sucursal de Brasília, expressadas nas edições diárias, estavam incomodando. Por que, repentinamente, esse jornal deu para fazer marcação cerrada sobre o ministro da Casa Civil? Chegaram a publicar interpretações absolutamente fantasiosas, a respeito de divisões no próprio governo. Nem mesmo o desmentido, publicado num outro concorrente, O Estadão, foi suficiente para que essa equipe de Brasília colocasse a viola no saco e fosse cantar noutra freguesia. Por que continuaram com a descarada campanha de desestabilização do governo LULA? Eis os motivos:
1- A divisão do Ministério da Casa Civil que criou uma pasta específica para cuidar das articulações políticas do governo, assumida pelo deputado Aldo Rebelo, surpreendeu os opositores. Eles não contavam com isso;
2- Com o obscuro Waldomiro Diniz, deixando de assessorar diretamente José Dirceu, a oposição, leia-se parte do PSDB, se viu num mato sem cachorro. Quanto mais demorasse a trazer a público a trama, digna do mais reles folhetim, menor impacto teria a divulgação desse evento. Falo da negociata ocorrida entre Waldomiro e Cachoeira, em 2002, gravada em vídeo pelo segundo;
3- Começou ai uma corrida contra o tempo para saber quem ia dar a cara para bater, no escândalo pretendido. O que aconteceu nos bastidores começa, agora, a vir à tona, com todas as cores e sons. Não apenas um obscuro senador pelo Mato Grosso tinha conhecimento da gravação, mas como se sabe agora, subprocuradores, presidente de partido e outros senadores, escalados para bater e morder. Não é de se espantar que Antero Paes de Barros e Arthur Virgílio venham a público defender os subprocuradores, envolvidos no episódio da madrugada de oito para nove de fevereiro. Da mesma forma, não é de se espantar que segmentos importantes da oposição venham a defender a atual política econômica, praticada por Antonio Palocci Filho. A desestabilização não interessa, economicamente, para setores produtivos, representados pelo PSDB. Contradição vivida pelo PSDB, pois é preciso impedir, a qualquer custo, que o governo LULA governe. Daí os bufões Paes de Barros e Virgílio;
4- A gravação escandalosa era de conhecimento, já de há muito, da maioria dos personagens acima citados. Pode-se dizer que desde novembro último. A questão era como melhor utiliza-la para aniquilar o governo do PT. A data escolhida, a princípio, seria maio, quando muito junho, quando o governo não teria condições de reverter o bombardeio sobre seus quadros, impedindo um fiasco eleitoral. O golpe de mestre dado pelo Palácio do Planalto, tirando da linha de fogo o ministro Zé Dirceu, colocando-o na função que melhor exerce - articular a ação do governo (ARTICULAÇÃO) deu um nó na cabeça dos que fazem parte desse grupo de bufões. A partir daí a confusão, resultando na fita enviada ao Ministério Público, à revista Época e a complexa criação de uma rede de repercussão do escândalo, incluindo aí os repórteres da Folha de Brasília, além da greve dos Agentes Federais.
O meu amigo bufão foi lembrado, como personagem símbolo desses episódios, porque ele tem a extrema capacidade de continuar mentindo, mesmo que os fatos à luz de refletores e/ou documentos revelem o contrário de sua afirmação. Essa é a característica mais típica do bufão. Ele não se importa com o ridículo, continua obsessivamente mantendo sua mentiras, até que as mesmas provoquem, aí sim, um fato. Com isso, a discussão passa a girar em torno não das mentias ditas por ele, mas sim em torno das reações a essas mentiras. A insistência, na atual conjuntura, de exigir uma CPI para colocar no centro das discussões a atuação do ministro da Casa Civil, como já foi dito, é forçar um terceiro turno - um fato, não se importando com as conseqüências institucionais que isso possa provocar.
Outras gravações, em vídeo ou áudio, surgirão, dando a nítida sensação de que estamos vivendo um constante Big Bufões à Brasileira. A próxima será o depoimento do bicheiro Carlinhos Cachoeira, na segunda-feira, diante da CPI da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Mas, ele continua dando as cartas. Impôs testemunhar às três da madrugada, no prédio da subprocuradoria e, agora, no caso da CPI, depondo na cidade em que reside.
(*) A diferença entre o clown e o bufão é que o clown está sozinho, enquanto o bufão faz parte de um bando. Registre-se também que zombamos do clown, enquanto os bufões zombam de nós (definição de Jacques Lecoq).
(**) Último presidente da UNE, durante o regime militar. É um desaparecido político, morto pela repressão.
(*) Jair Alves - Dramaturgo/SP
(*) Jair Alves é Dramaturgo, Ator e Diretor. Participou, como ator, dos musicais JESUS CRISTO SUPERSTAR; MORTE E VIDA SEVERINA; MISSA DO VAQUEIRO; MAQUIAVÉLICO MAQUIAVEL (também como autor); QUALÉ MEU?; UBU REI; ARTAUD; entre outros. Na década de 80, criou e presidiu, durante 7 anos, a Cooperativa Paulista de Teatro. Como autor, foi premiado com os textos A MORTE DE DEUS e INTERROGAÇÃO, na década de 70, e, em 2000, com a peça 7 DIAS EM 2000, como MELHOR TEXTO DE TEATRO, no PRÊMIO VLADIMIR HERZOG DE ANISTIA E DIREITOS HUMANOS. É autor do livro e áudio, ESCUTA, ZÉ DIRCEU OS 13 TRABALHOS DE ÉRCULES (com E mesmo, segundo o autor), seu mais recente trabalho.
terça-feira, 29 de abril de 2008
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