quinta-feira, 17 de abril de 2008

BRASÍLIA, A CIA E O MURO DE BERLIM

A jornalista Suely Pinheiro acaba de editar uma série de entrevistas que fez, em 88 e 89, com Lula e a atriz Lélia Abramo, respectivamente. Este material já se encontra disponível para os interessados e ilustra a gravidade do momento em que estamos vivendo, decorridos 15 anos dessas entrevistas, cuja maior parte diz respeito à atriz, meses antes da queda do Muro de Berlim e do primeiro embate do então líder operário, rumo ao Palácio do Planalto. Para quem leva a sério este país e o papel que a imprensa pode exercer na garantia das conquistas democráticas, é um prato cheio. A queda do Muro de Berlim ocorrida há 15 anos não melhorou o mundo e naquela oportunidade Lélia já falava dos entraves que seriam colocados para Lula governar, caso viesse a ganhar o pleito daquele ano ou num futuro longínquo. NADA MUDOU.

O noticiário das últimas semanas, em especial a partir dessa sexta-feira 13, não está levando em consideração a enorme frustração de milhões de pessoas que depois de tantos anos de espera e lutas anônimas puderam enfim, por algum tempo, respirar a esperança de que essa Nação tinha um caminho feliz. Mas, como em tudo neste país, o que menos importa é o que pensa e sente a maioria da população. De qualquer forma, a monumental festa do início de 2003 e alguns bons lances dessa república Brasil alimentaram essas esperanças. Porém, ontem...

Parodiando o presidente Lula, um apaixonado por futebol, o que está acontecendo é muito parecido com aqueles momentos inacreditáveis, vividos quando da decisão Brasil x França, onde a maioria do povo brasileiro se sentiu impotente diante da cabeça dura do Zagalo, das pernas bambas do Ronaldinho e dos procuradores do atleta junto a Nike que, afinal, demonstraram não ser de confiança e, finalmente, foram presos pela Policia Federal. Para não avançarmos em comparações subjetivas, encerramos aqui o uso da metáfora. Lula não é Zagallo e Zé Dirceu não é Ronaldinho. Apesar de o futebol simbolizar aspirações e frustrações do povo brasileiro, a vida é muito mais séria, não é esporte.

Falamos em defesa de uma escolha, não em nome de um partido político. Desse projeto democrático, dessa escolha, participaram e participam pessoas de todos os credos. Lembrando o que foi dito acima, isso não tem tido a menor importância no frigir dos ovos. Há uma semana assinamos um texto colocando a questão da demonização do ministro da Casa Civil que, antes disso, foi um dos líderes de uma geração de brasileiros, além de principal articulador do partido que assumiu o governo da Nação brasileira. No entanto, este texto foi entendido como uma defesa partidária. Lamentamos que tenha sido lido assim. O que está em jogo não é se expressamos corretamente o que pensamos ou não, e sim qual tem sido o papel da imprensa, ou parte dela, no jogo jogado.

O que veio à tona ontem é a prova do uso político dos meios de comunicação. O espetáculo montado tem como objetivo a campanha denunciada no texto anterior. Ou seja, a desestabilização do governo Lula, não importando as conseqüências. Ao longo da semana, o programa Observatório da Imprensa, transmitido pela TV Cultura, e com escassa audiência, tratou da mesma questão com algum progresso. Do rápido debate tirou-se algumas conclusões, pois ali estavam presentes alguns jornalistas sérios, sendo o mais conseqüente deles José Márcio Mendonça, Diretor de Jornalismo da Rádio Eldorado. A intervenção mais relevante foi de que a atual imprensa permite ser usada pelos políticos. Em última análise, o jornalista deveria fazer jornalismo independente, se possível, não política. No episódio de ontem o setorista da Folha, citado no texto anterior, falava pelo site da UOL como verdadeiro membro da oposição política. Não só citava fatos, mas tirava conclusões em nome do leitor do jornal.

Vamos aos fatos. O que veio a público ontem é de extrema gravidade, isso é líquido e certo. Porém, não se aplica neste caso a máxima maquiavelesca, "não importam os meios". Importa sim, a imprensa se transforma nos olhos da população indefesa, em momentos de comoção, e não nos parece razoável que essa imprensa esteja a serviço de um grupo político. E o que aconteceu ontem (não o que revelou) é a prova dessa armação espúria. A pergunta que se faz é se este material que veio a público ontem foi editado em poucas horas? É evidente que não. Não se consegue a participação de um uma instituição como a UNICAMP (que analisou e legendou a fita) repentinamente. O que vale dizer que, antes de vir a público, cópias e conteúdo circularam entre os diretos interessados, dentre eles a cúpula do PSDB. Repetindo, o conteúdo vindo a público é gravíssimo e precisa ser esclarecido na sua integra.

O principal personagem dessa sórdida trama, segundo a Revista Época, teria sido comunicado sobre a publicação na quinta-feira à tarde, inclusive contribuído com outras informações, como a de que ele teria entregado pessoalmente um cheque para a campanha do PT do distrito Federal. Alguém já se perguntou se diante de tamanho impacto que essa reportagem traria, este personagem precisaria esperar a sexta-feira pela manhã para tomar providências, entre elas pedir sua exoneração? Isso não me parece fidelidade e conluio com o Planalto, conforme faz sugerir repórteres e membros da cúpula do PSDB. Isso parece traição com quem o nomeou, ou pior, envolvimento desse personagem numa trama que envolve interesses financeiros não revelados (ainda). Não é absolutamente inédito que um acusado não só confirme o conteúdo da acusação, mas ainda ofereça material mais comprometedor de sua ação criminosa? Via de regra, os acusados preferem se manifestar somente diante de um juiz. Estaria o lobista, Waldomiro Diniz, inaugurando uma nova forma de acusação - a auto-acusação?

A inverossimilhança de pedir 1% a título de comissão pelo ato criminoso não convenceu sequer ao bicheiro que pediu confirmação. "Um por cento?", perguntou ele. Qualquer jornalista sério sabe quanto ganha um lobista (ao menos deveria saber). Para finalizar, um aperto de mão tão falso como aquele ator canastrão que assovia para disfarçar estar à vontade. A investigação sobre essa encenação que estamos vendo vai revelar o grau do envolvimento do personagem, não com o Planalto de hoje, mas com outros interesses. Repetindo, o conteúdo vindo a público é gravíssimo e precisa ser esclarecido na sua integra.

A programação do "furo de reportagem", coincidindo com o 24º aniversário da criação do PT não seria parte desse show? A entrega de cópia a um obscuro senador do PSDB/MT, não seria parte dessa montagem? A pressa do presidente do partido, José Serra, em dizer que tudo deve ser investigado sem procurar um bode expiatório, não é antecipação de uma autodefesa? Não seria sintomático estar o presidente desse partido no Estado de Mato Grosso (origem do senador denunciante) no dia da divulgação? Repetindo, o conteúdo vindo a público é gravíssimo e precisa ser esclarecido na sua integra.

E aqui vai uma informação: a convivência promíscua do PSDB com setores da imprensa tem rendido muitos empregos e muitas ações pouco esclarecidas. Durante a campanha eleitoral de 1996 foi produzido um jornal apócrifo, denominado JORNAL DOS JORNAIS, que felizmente foi apreendido pelo polícia federal antes de sua circulação. Este tablóide era uma colagem de "denúncias" scaneadas, ao longo de todo o governo Erundina à frente da prefeitura de São Paulo. A maioria dessas "reportagens" tinha sido plantada na grande imprensa e não confirmada sua veracidade. O objetivo, porém, era claro, tripudiar a então candidata do PT. A conclusão era óbvia, quem tinha mandado imprimir este jornal era o Maluf, padrinho de Pitta, em primeiro lugar nas pesquisas. Verdade? NÃO! Nem sempre a impressão confirma os fatos. O jornal apócrifo foi rodado a mando da campanha de José Serra que se encontrava em terceiro lugar nas pesquisas. O impacto na campanha de Erundina provocaria uma queda nas pesquisas, "credenciando" José Serra como candidato viável no segundo turno. O estratagema não funcionou, pois a polícia prendeu toda edição. Nas eleições presidências de 2002 o mesmo procedimento foi usado, dessa vez com relativo sucesso. Em primeiro lugar para atacar Ciro Gomes, depois Garotinho, garantindo assim sua ida ao segundo turno. Mas, o tiro saiu pela culatra. Repetindo, o conteúdo vindo a público é gravíssimo e precisa ser esclarecido na sua integra.

O que veio à tona ontem, tanto em conteúdo como em forma precisa ser esclarecido e o PT, partido para onde ainda converge as maiores esperanças do povo brasileiro precisa dar respostas menos evasivas. O PT pode até ser depositário dessa esperança, mas não proprietário. Ainda no PT, como prefeita da cidade de São Paulo, Luiza Erundina colocou uma questão relevante que não foi aprofundada até esta data. "Para se governar é preciso quadros". Dizemos nós, quadros profissionalizados, além de identificados com o programa de governo.

Pode se acusar de tudo este partido, menos que não tenha quadros e simpatizantes honestos, nas mais diferentes áreas. Pelo exposto ontem, Waldomiro Diniz, como a maioria dos lobistas, categoria que deveria ser colocada na ilegalidade, assim como os bicheiros o estão, em nada se parece com os chamados "quadros". Impressionante que o lobista, hoje no foco dos refletores, tenha prosperado tanto nessa República. Com a palavra, o Ministro José Dirceu. Só ele pode dizer o quanto conhecia do "auto-acusado". Ainda mais, se ele, Waldomiro Diniz, tem alguma credencial para exercer cargo público, em nome da esperança do povo brasileiro sofrido do qual falou Lélia Abramo, em 1989.

Nenhum comentário: