Não nos interessa saber as razões de ordem pessoal, religiosa, moral ou financeira que levou o rabino Henri Sobel, intempestivamente, aderir à insana campanha pela redução da idade penal e a pena de morte. A todos nós que levamos a sério a história do país em que vivemos e pretendemos livre, interessa-nos saber os reais motivos dessa histeria momentânea. Aonde, afinal, querem chegar.
Curiosamente, grande parte dos diretos interessados nesse discurso moralista e radical está ligada a mais cruel violência política e policial de nosso país. A população indefesa e mais direta vítima dessa violência continua sujeita a toda forma de manipulação.
Ao rabino Sobel, até pouco antes da infeliz declaração, reservado estava um papel na história contemporânea quando, ao lado de Don Paulo Evaristo Arns e o já falecido Reverendo Jaime Wright comandou um ato contra a truculência e justamente contra a violência do Estado que agora incita. Estamos falando do Ato Ecumênico, em memória do jornalista Vladimir Herzog, em outubro de 1975. Não consta registro que, ao longo desses anos, o rabino tenha pedido pena de morte aos militares que torturam e mataram Vlado. Ao contrário, todas as ações em favor da preservação da vida e da justiça nos permitiram viver esses momentos tão ricos de liberdade de expressão e política.
Por outro lado, há menos de dois anos, num caso ainda não esclarecido, um prefeito eleito democraticamente pelo voto da população foi seqüestrado e em pouco mais de 24 horas, morto, segundo consta, por um "menor de idade". Alguém leu em algum lugar alguma linha pedindo a redução da idade penal, em razão dessa execução? Não se pode medir o sofrimento e martírio das vítimas, chamem elas Liana ou Celso Daniel, ou mesmo, num passado não muito remoto, Vladimir Herzog.
Nesta noite de quinta-feira, dia 27 de novembro, a televisão e o jornalismo brasileiro viveram um momento especial quando, sem retoques e com os cuidados profissionais, usando as legendas "simulação", encenou a saga da família Angel no Brasil (Programa Linha Direta). A emblemática Tevê Globo, acusada de ter sido conivente com o regime militar escancarou a crueldade do Estado autoritário. O jovem Stuart Angel e sua mãe, Zuzu Angel, serviram como modelos numa trajetória sublime, onde colocaram a própria vida a serviço de um mundo melhor. Apesar de emocionados com os fatos relatados e representados nesta noite, não nos é permitido perder a razão e, com isso, pedir pena de morte para os torturadores implacáveis - continuamos, ainda, tendo como meta a justiça, não a morte e a truculência.
Aos oportunistas de plantão, um esquecimento porque a eles não pertence a história.
Jair Alves (*)
(*) Jair Alves é Dramaturgo, Ator e Diretor. Participou, como ator, dos musicais JESUS CRISTO SUPERSTAR; MORTE E VIDA SEVERINA; MISSA DO VAQUEIRO; MAQUIAVÉLICO MAQUIAVEL (também como autor); QUALÉ MEU?; UBU REI; ARTAUD; entre outros. Como autor, foi premiado com os textos A MORTE DE DEUS e INTERROGAÇÃO, na década de 70, e, em 2000, com a peça 7 DIAS EM 2000, como MELHOR TEXTO DE TEATRO, no PRÊMIO VLADIMIR HERZOG DE ANISTIA E DIREITOS HUMANOS. Autor do livro ESCUTA, ZÉ DIRCEU.
domingo, 13 de abril de 2008
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