quinta-feira, 17 de abril de 2008

A METACRÍTICA

Nesta última terça-feira, 03 de junho, reuniram-se algumas pessoas, no Centro Cultural São Paulo, para ouvir explanações a respeito do teatro, sob o título "O coletivo como resistência: cultura e política", como parte do Seminário Teatro de Grupo 30 anos. Compondo a mesa de expositores, algumas figuras carimbadas do teatro paulista, dentre elas o próprio secretário de cultura, ali como depoente dos seus três (3) anos de trabalho na periferia de São Paulo, na década de 70. A considerar a exatidão dos 30 anos de teatro (paulista ou paulistano?), como resistência ao regime militar, esperava-se que, ao menos como referência, alguns acontecimentos importantes do período (1973 / 2003) viessem à tona. Isso não aconteceu. Cito, dentre eles, a prisão, em 73, pela polícia política, do diretor teatral Cezar Viera, presente na mesa, além da reativação do Serviço Nacional de Teatro, sob a égide e comando do regime militar, talvez o fato mais importante.

A dinheirama derrubada no teatro brasileiro, na primeira década do período analisado, possibilitou não só atingir os objetivos do regime, mas também criar seu próprio veneno. O regime militar e seu porta-voz civil, a rede de televisão que se equipava e se estruturava, com dinheiro do Fundo Nacional de Telecomunicações, queria criar e criou um plantel de mão-de-obra barata para produzir telenovelas, enfraquecendo os últimos focos de opositores, aninhados no teatro profissional. A oposição estética à ditadura folhetinesca televisiva formou-se pelos grupos de teatro profissional, oriundos dos mais diferentes matizes, e que se juntaram, a partir de 79, na Cooperativa Paulista de Teatro, em especial entre os anos de 79 e 85.

Alguém coloca em dúvida que as peças, a seguir, fazem parte dos dez (10) espetáculos mais importantes dos últimos 30 anos: Feliz Ano Velho, Ubu (direção de Cacá Rosset), Artaud Espírito do Teatro, Édipo o Rei e Na Carreira do Divino? Esta omissão dos organizadores do seminário não é involuntária, ela faz parte do jogo. É o reflexo da sociedade, divida em guetos, que vê o restante (sentido exato da palavra) como inimigos e não como parceiros ou parte do mesmo contexto social. Ao contrário de se discutir as vigas-mestra do teatro de resistência à ditadura militar, produções que, de fato, modificaram o comportamento social, os presentes foram "premiados" com relatos “generosos” a respeito de um tal grupo Galo de Briga, durante a reconstrução da UNE, em 79. Algum profissional de teatro tinha ouvido falar dessa experiência? Louve-se a sinceridade da depoente que compôs a mesa, ao concluir que o melhor a ser feito era determinar a autodissolução do grupo, criado no calor das discussões das tendências estudantis universitárias daquele ano. Lamentavelmente, nem todos os envolvidos naquela comédia universitária de então tiveram a mesma atitude, continuaram e continuam a soltar (o verbo, na verdade, é outro) regras, confundindo o atual panorama.

Um tal de “Zé Pereira” perguntou ao Secretário se o conjunto dos grupos e o sistema que organiza e fomenta essas produções não imita a mesma crueldade do regime militar que excluía, fisicamente, seus inimigos? O secretário disse que não. Disse que a dramaturgia produzida, hoje em dia, recupera a mesma generosidade humana do passado, pois ele mesmo tinha vivenciado, em seminário no seu próprio teatro, a prova dessa generosidade. É melhor conferir. A referência continua sendo a própria experiência, tal como nos saudosos tempos.

O secretário, na sua explanação, se confundiu ao citar Nacional Socialismo quando, na verdade, queria dizer Nacional Popular. Depois se desculpou e se justificou, dizendo que tanto um quanto outro têm um componente maniqueísta que precisa ser combatido. Eu, de minha parte, também concordo. Acho que o Nacional Socialismo (Nazismo) e o Nacional Popular devem ser combatidos, apesar de reconhecer que tanto um quanto outro ainda não morreram, agonizam nas mais diferentes estruturas de poder. Esta parece ser a principal questão a ser debatida e reproduzida no palco.

A raiz da discussão cultural no país é transformar a realidade. Fazer cultura é mudar a natureza. A arte tem o seu papel: mudar a natureza humana e, para tanto, precisa incluir no enredo todos os personagens, os "bons" e os "maus". Acertadamente, o dramaturgo Izaias Almada, presente na platéia, fez a seguinte consideração: "Não é de todo ruim o maniqueísmo (mais ou menos isso). A inserção recente dos EUA na guerra contra o Iraque nos dá uma dimensão do que pode ser considerado um grande inimigo". Com a lembrança de Izaias - vítima inconteste do maniqueísmo estatal - cai por terra a tese de que vivemos nos melhores dos mundos e que a ideologia não está com nada. Até porque ela continua presente, inclusive nos aparelhos de poder. Discutir como pensam os mandatários, também pode ser um norte a ser seguido.

É preciso registrar, também, que o depoimento de Cezar Vieira a respeito do trabalho do grupo União e Olho Vivo, como sempre, foi brilhante: "Vivemos o mesmo mundo de 30 anos atrás, só que pior". Foi dele também a colocação imperiosa de que devemos discutir um código de Comunicação para o Brasil e a hegemonia de certa rede de tevê. Digo eu: o resto é nada!

Jair Alves - Dramaturgo/SP

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