domingo, 13 de abril de 2008

EU NÃO ACREDITO EM DEUS E NA POLÍTICA

“Eu não acredito em Deus e na Política. Eu acredito é nessa miséria que vejo na rua e também acredito que a Cultura seja o único remédio para isso”. Assim disse Sergio Brito, ontem, no programa Roda Viva, na TV Cultura, frente a uma banca de entrevistadores, composta de profissionais ligados ao teatro. Talvez, a frase acima tenha sido o mais relevante de tudo que se falou ali. Relevante, mesmo com alguns reparos que a afirmação carece, a começar da palavra Cultura. É bem possível que o entrevistado tenha pensado em manifestação artística e, assim, generalizado para indicar o que considera solução para a tal miséria humana.



É inegável que Sergio Brito faz parte da extensa lista de profissionais que deram os primeiros passos do moderno teatro brasileiro, mas, é também inegável que existe uma distância incalculável entre o que aquela bancada de entrevistadores pensa a respeito do Brasil de hoje e o que verdadeiramente está acontecendo no país, agora. O entrevistado falou com muita desenvoltura; cometeu gafes; teve coragem de dizer coisas que a maioria não ousa dizer; demonstrou conhecimento da história artística brasileira; mas também cometeu erros crassos, demonstrando, também, algum desconhecimento. Foi um show, enfim. Mesmo quando tropeçou nas palavras, quando se referiu ao Secretário de Comunicação Social, do governo federal, tanto com relação ao seu nome como à sua função e ninguém, absolutamente ninguém replicou. Ao menos para reforçar o preconceito do entrevistado. Faltou brilho na bancada e sobrou para o personagem central.



O que resultou desse espetáculo alternativo dessa segunda-feira, além da brilhante demonstração de despojamento do ator e diretor Sergio Brito, foi um cocô no meio do salão de baile. Todo mundo sabe que fede e suja, mas ninguém quer reconhecer que alguém deixou ali seu testemunho solitário. Existe, sim, um abismo entre o que se fala e o que realmente está acontecendo, agora sim, acertadamente, na cultura nacional. O aparelho de Estado está sucateado, em sua estrutura, para organizar e promover as Artes e a Cultura e os profissionais de todos os setores insistem em promover o seu pequeno mundo familiar, como alternativa ao caos social em que vivemos hoje.



Escolho a participação do diretor italiano, Gianni Ratto, também com inegável meio século de serviços prestados ao teatro brasileiro, como exemplo dessa impotência. Ele não conseguiu sequer lembrar o nome de um grupo de teatro organizado, na atualidade. Por diversas vezes se referiu a um jornal, porta-voz de um punhado de grupos, patrocinados pela Secretaria do Município de São Paulo, como sendo um grupo de teatro. Sua expressão nervosa clamava por uma ajuda dos demais, o que não aconteceu. O entrevistado, Sergio Brito, teve dificuldades em se lembrar de um diretor jovem (nem tanto), Cacá Rosset, como expressão do moderno teatro brasileiro, mas que lamentavelmente sumiu de cena. As razões, enfim, dessa baixa produção ou má avaliação dessa produção artística não veio à cena, apesar do brilho do ator Sergio Brito.



Vi por outro lado, por muitos segundos, na tela da tevê Cultura, a expressão cansada de um velho amigo e crítico de teatro, sem saber o que perguntar, e do otimismo fora de hora de um outro amigo, ator, além da costumeira "rasgação de seda" de uns outros, que testemunham que estiveram presentes aqui e ali, nos momentos que compõem o museu do teatro nacional. Todos à procura de uma pergunta inteligente, o que também não aconteceu. As intervenções, por e-mail e telefonemas, tão disputadas em programas anteriores, na noite de ontem foram resumidas à correção de um nome aqui outro ali, ditos pelo entrevistado ou pelos entrevistadores, e pela assessoria do entrevistado, informando o telefone de contato para apresentações de sua peça, como se tudo o que foi discutido não tivesse o menor interesse. Lamentavelmente, tudo tem a ver com a nossa realidade, ainda que às avessas.



Fica a expressão inicial, “EU NÃO ACREDITO EM DEUS E NA POLÍTICA”, dita a certa altura por Sergio Brito, como uma pá de cal naquela cena do antigo cinema neo-realista, que foi essa entrevista do Roda Viva e um grande vazio nos corações dos jovens.



Jair Alves - Dramaturgo/SP - 24/06/2003

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