quinta-feira, 17 de abril de 2008

18 de junho de 2003

ou o enigmático 000.01.116735-1


Neste último 18 de junho, o teatro paulista teve uma grande vitória. Dependendo do ângulo que se olha o ocorrido, o feito ainda é maior, só o tempo dirá o tamanho dessa vitória. Num passado não tão distante, o teatro brasileiro se transformou na última trincheira, na luta contra a ditadura militar. Com o tempo, também se transformou numa referência para a reconstrução democrática do país. Depois disso, acomodou-se no desempenho de um papel decorativo e, no melhor estilo clientelista, passou a viver dos favores e meios caminhos que ligavam suas produções ao Rei Fernando. Mas, hoje é dia de comemorar o feito de 18 de junho, depois de um dia de trânsito caótico e véspera de feriado cristão.

Este 18 de junho revela, por outro lado, que, de fato, algo de novo começa a acontecer no Brasil. A disposição do cidadão comum em gastar algum tempo para meditar sobre as taxas de juros, significa que uma revolução cultural está em curso. Significa que o cidadão que apanhou ontem do trânsito pode, sim, pensar e fazer política, ainda que de forma indireta. Significa, enfim, que temos um governo e que ele espelha todas as nossas contradições, assustando os defensores do pensamento único. Este processo vale para todos, não tem coloração partidária. Os podres de quem esteve, ou dos que ainda estão no poder, haverão de aparecer, mais dia ou menos dia. Já não se aplica à máxima de Maquiavel, "é melhor ser amado ou ser temido?". Sobreviver e sonhar pode ser o novo mote. Para ilustrar este evento, evocamos o espetáculo teatral "Maquiavélico Maquiavel", que teve sua estréia no primeiro semestre de 1976, no teatro Ruth Escobar, em São Paulo, quando o país sangrava todas as feridas do regime de força. Nele, um gaiato ousava desafiar os militares, zombando da "infalibilidade" do regime. Tempos depois a atriz Dina Sfat, a Barbarela brasileira, dizia ao comandante do Terceiro Exercito, num programa de tevê: "comandante, eu estou com medo!". Hoje, a mesma sala de espetáculo tem o seu nome: Dina Sfat. Ela, morta, e nós aqui para dizer que estamos vivendo uma nova era, principalmente depois desse 18 de junho, tão importante para todos nós que adoramos uma boa briga, justa.

Teremos, sim, muito em breve, um Centro de Referência da Cultura e das Artes Nacionais. Estamos próximos, só que dessa vez não será a cultura da resistência ou coisa parecida, mas a manifestação livre de um pensamento livre e libertador, não de lamentos. Estamos falando do mesmo livro, escrevendo novas páginas nessa história nacional. Rompeu-se a Caixa de Cimento, parodiando outro dramaturgo - Mario Prata, ou, quem sabe, a Caixa de Pandorra.

Jair Alves - Dramaturgo
(da terra do Macaco Simão para o Brasil)

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