terça-feira, 29 de abril de 2008

PORQUE HOJE É DOMINGO 6

Porque hoje é domingo 6 coloco minha melhor roupa e decido os destinos da Nação Brasileira. Já me cansei de há muito. Em legítima defesa votarei no inimigo número 1 dos amigos do rei.

Porque hojé é domingo 6 vingarei a morte dos carajás, as doenças epidêmicas e o desemprego crônico. Com minha espada de São Jorge matarei de uma só vez o trabalho infantil e a safadeza dos mandões.
E como hoje é domingo 6, depois do sábado de Vinicius, vou a única e tão somente urna, como quem vai a missa acabar com todas as injustiças: assim penso, assim faço.

E tudo isso não bastasse, hoje é domingo 6, me sinto um homem feliz, tal como Mario de Andrade nesta Pauliceia que um dia inventou.

E como hoje é domingo 6, não vou dar chance ao azar, muito menos aos que nunca produziram chance aos quem vem debaixo.

E como hoje é domingo 6, vou poder escrever errado sobre todas as coisas erradas, que impedem o Brasil de ser assim todos os dias, brilhante e emocionado.

No largo de São Francisco votarei com o povo de Deus no homem e número de sorte, embora para muitos seja número de azar.

Como o voto é secreto nada mais direi, porque hoje é domingo 6. Só dizer suas iniciais Luis Ignácio.


Jair Alves - dramaturgo - São Paulo

06/10/2002

LOBISTA - VÁ PARA O INFERNO!!!

Existe algo mais desprezível do que o lobista? Existe, é claro! Temos o estuprador, o seqüestrador, o pedófilo, aquele safado que explora a prostituição infantil, e outros mais. Porém, no atual momento, nessa fase de transição pela qual passa a política brasileira, ele acabou ganhando destaque, mais uma vez. E, como sempre, usando da velha máxima: “crio dificuldades, para vender facilidades”.

Mal passaram os primeiros momentos da euforia que tomou conta da maioria da população brasileira, esse bando de engravatados delinqüentes, tomou de assalto nossas esperanças, semeando o escárnio, com a expectativa de que tudo continuaria como está. Ou seja, um livre trânsito para aqueles que nunca enxergaram além do umbigo e de seus privilégios.

Para sermos mais exatos, os lobistas entraram na briga, até mesmo antes do dia 27 de outubro, quando perceberam que a vaca do candidato derrotado tinha se atolado no brejo de sua pequenez. Foram a campo para salvar os dedos e, nas últimas semanas, como aquela mal interpretada Mata Hari jogaram dos dois lados, melhor dizendo, jogaram do lado de seus interesses. Começaram bombardeando a militância mais próxima dos cargos de direção petista, dizendo que essa moçada, “de pouca instrução”, já estava falando como quem já está escalada para trabalhar em Brasília. Claro que com isso sentiram sua “atividade profissional” ameaçada!

Houve mesmo, gente que fazia ironia dizendo que esse apoio irrestrito, da maioria da população, era para se atingir os três (3.000) mil cargos de confiança do novo governo federal. Santa ignorância, o Brasil precisa de ao menos três (3) milhões de profissionais, qualificados, para saldar essa dívida social, produzida nos 500 anos de arrogância e egoísmo, e não três (3) mil nomeados cargos de confiança. As únicas atividades profissionais que conheço, que dependem diretamente de cargos públicos, são os diplomatas e os acadêmicos que estudam administração pública, o resto é passageiro. Uma sociedade justa, precisa prover oportunidades para todas as demais profissões, do contrário essa sociedade não é justa. Contra essa injustiça é que votou a maioria esmagadora da população brasileira (mais de 50 milhões de votos). Vá para o inferno, você que é lobista!

Esse protesto tem como objetivo alertar a população que existem pessoas que andam semeando uma mentira nos bastidores, de que altos cargos estão sendo leiloados, como por exemplo, na Diretoria do Banco do Brasil, da Petrobrás e de outras empresas estatais. A população, feliz, está à cata de propostas de transformação, como a do dramaturgo Augusto Boal que propõe a todos que, no exato momento da posse de Lula esteja comendo, num ato simbólico de subversão. Vamos acabar com a fome, a começar pela fome que faz o estômago doer. Nessas atividades, estamos atolados até o pescoço. O resto é lixo, é o esperneio daqueles que fizeram a miséria moral e material do Brasil.

Se um engravatado se aproximar e prometer um emprego, em qualquer empresa estatal, não vacile – CHAME A POLÍCIA.

Jair Alves – Dramaturgo – São Paulo -

09/03/2003

UM SOL PARA CADA UM

UM SOL PARA CADA UM
ou
Brasiltv, o processo civilizatório
Alguém se lembra de José Mauro de Vasconcelos?
Pois bem, os puristas da década 70 esperneavam, com razão, para que seus livros - exemplo de subliteratura - não passassem a ocupar no currículo escolar o lugar de Machado de Assis, José de Alencar, entre outros. A luta era quase inglória, pois quem mandava e não pedia opinião era nada menos do que o temido regime militar. Na visão dos militares e seus aliados era preciso descontextualizar o ensino básico, e, portanto um menino falando com um pé de laranja-lima era muito interessante para a chamada reforma necessária. Graças ao esperneio desses professores o quadro não ficou pior. Hoje, analisando os textos do esquecido romancista, dono de uma empresa de ônibus que fazia a rota São Paulo-Nordeste, percebemos que em certo sentido a ditadura foi ingênua, pois não impediu que Machado de Assis e outros autores, também importantes, continuassem lidos e estudados. Os aliados do regime militar, porém não foram ingênuos, em especial aqueles que naquele momento montavam um verdadeiro império televisivo. Começava, a partir do governo Geisel, o crescimento vertiginoso da telenovela, como processo civilizatório.

O que tem a ver esse episódio com a recente ameaça de fechamento de uma escola de teatro (Escola Ewerton de Castro)? Tem a ver que, num determinado momento de nossa história, os mantenedores formais do poder da nação precisaram dos melhores profissionais das artes cênicas para construir a cultura de consumo que domina a vida da maioria dos brasileiros. E de que maneira? Na montagem de uma indústria de sonhos que, na maioria das vezes, não discutiu a realidade daqueles que alimentaram e alimentam essa máquina de fazer dinheiro. Para isso, o governo militar despejou uma dinheirama no teatro brasileiro, por mais de uma década, na expectativa correspondida de que novos e mais profissionais ficassem à disposição dessa indústria. Uma espécie de mão-de-obra reserva. A fonte secou quando os militares abandonaram o poder, em 1985. A partir daí vivemos de uma panacéia chamada Leis de Incentivo à Cultura.

Não é tarefa desse texto esgotar o assunto sobre as leis de incentivo, até porque não me proponho a isso, mas é preciso dizer com todas as letras que o poderoso Estado, hoje esvaziado, tem responsabilidade nesse descalabro. UMA ESCOLA NÃO SE FECHA porque não é um empório de periferia, engolido que foi pelas grandes redes de supermercados. Uma escola é um lugar aonde se formam pessoas para enfrentar o futuro. Uma escola séria de teatro como a de Ewerton de Castro é mais do que isso, é uma porta dos sonhos para muitos excluídos que sequer podem fazer parte desse universo de consumo que tornou nossa civilização.

O maior entrave nessa discussão tem sido a cultura de que existe “um sol para cada um”, o que verdadeiramente não é verdade. Os diretos interessados nessa questão estão perdidos nas disputas de espaço e centavos. Estão conversando com um pé de laranja-lima. Por livre e espontânea vontade não vão abandonar essa posição egoísta. O caminho que resta é esse: apelar para todos os segmentos que compõem a sociedade brasileira que se espelham na produção cultural deste país e que, por justiça, têm o direito de dizer “isso tem a ver comigo”.

O Estado gasta muito pouco com a formação de profissionais que cuidam do sonho dos demais brasileiros. O Estado brasileiro, nas suas diferentes esferas, precisa responder ao apelo do momento, expresso nas palavras do chefe da Nação. Equacionar, sim, as questões de ordem econômica, porém resguardando os interesses sociais emergentes. Essa é mais uma das centenas de questões que depois do voto, em 27 de outubro, precisa da participação de todos. O sol que temos é um só e pertence a todos nós.

Penso nos personagens que Ewerton de Castro interpretou no teatro, como "o cavalo", em Equus; o triste personagem do "Homem Elefante", "o palhaço", em Patética e, porque não, "Noel Rosas", em Poeta da Vila. Me pergunto se esses seres frágeis e sensíveis não representam a maioria dos nossos sonhos, sempre prestes a serem esmagados.

Torço que não.

Jair Alves – dramaturgo

09/03/2003

MINO CARTA NÃO PRESTA...

"promover e estimular a regionalização da produção cultural e artística brasileira, com valorização de recursos humanos e conteúdos locais; salvaguardar a sobrevivência e o florescimento dos modos de criar, fazer e viver da sociedade brasileira; priorizar o produto cultural originário do País" (*)

Por Jair Alves - Dramaturgo/SP

Mino Carta não presta muita atenção no que está acontecendo com a Cultura Brasileira. Pudera! Para editar, publicar e manter uma revista de circulação nacional (Carta Capital), com a responsabilidade que acabou involuntariamente assumindo, é razoável que não encontre tempo para refletir e escrever sobre outros temas tão cabeludos como este que se segue.
O Estado brasileiro vem 'bancando' produções, oriundas de North America, sendo o caso mais recente a superprodução Group Blue Man, cuja estréia aconteceu sexta-feira última (22/06), numa badalada casa de espetáculos de São Paulo. Um espetáculo que tem a chancela da mesma empresa que já levou, no ano passado, 10 milhões de reais para manter a temporada de Fantasma da Opera, agora briga para que o Estado brasileiro dê mais algumas dezenas de milhões de reais para outra "obra prima" do imperialismo cultural - Miss Saigon. Foi pedido para que o CNIC autorize captação, na iniciativa privada, de nada menos do que 27 milhões de reais. O negócio não tem nenhum segredo; o Estado autoriza a destinação do dinheiro do Imposto de Renda para uma produção, cujo ingresso chega a custar 320,00 reais, e quem "patrocina" são empresas que de brasileiras não têm nada, como o Banco Citicard S.A. e a Ericson Telecomunicações S.A.
Perfeito exemplo de operação casada. E ainda tem gente que se preocupa com o preço da vaca, criada em Alagoas. Hipocrisia pura. Tudo isso vem acontecendo debaixo dos olhos lagrimejantes de brasileiros 'bonzinhos' (como dizia a atriz francesa, Jaqueline Mirna, radicada no Brasil, na década de 60). O caso Group Blue Man é mais escandaloso porque a empresa, que só de sacanagem tem o mesmo nome da CIA, pronunciado em inglês, propõe que o Estado brasileiro banque 40 apresentações, por "apenas" R$ 8.767.411,45, ou seja, cada espetáculo custaria aos cofres do Ministério da Cultura, aproximadamente, R$ 219.185,28.
É exatamente neste momento que entra em cena Mino Carta, com todo seu exercito de Brancaleone. Carta Capital (revista especializada em política, economia e cultura) deveria ter a mesma oportunidade de entrar com um projeto, no Ministério da Cultura, pedindo autorização de igual valor. Caso fosse aprovado, a Revista poderia fornecer, por 10 meses, gratuitamente, 50 mil assinaturas para jovens estudantes, distribuídos por esse Brasil afora, além de velhinhas órfãs de Bingo (agora, na ilegalidade); operários semi-alfabetizados; e vagabundos em geral. Sinceramente acreditamos que ai, sim, haveria uma Revolução Cultural e, quem sabe (perdoem-nos a palavra), socialista.
De duas uma: ou estamos completamente bêbados, neutralizados pelo martelar diário e maçante dos demais veículos de comunicação impresso (**) ou, de fato, não estamos prestando atenção no andar da carruagem que John Ford e Wayne nos empurram goela abaixo.

(*) ítens do artigo primeiro da Lei de Incentivo à Cultura.
(**) Exceções, é claro, à Carta Maior, Caros Amigos, e outras publicações similares.
29/06/2007

A IMPRENSA É BURRA OU MAL INTENCIONADA?

Nenhuma coisa nem outra. Parte da imprensa diária reflete o desalento e o beco-sem-saída em que nos metemos nesses dias tumultuados. A pergunta sobre o grau de inteligência da imprensa surge como resposta a demonização de assassinos, menores de 18 anos, nas últimas semanas. Acaso estes infelizes atores de nossa miséria pertencem a uma sociedade alienígena? Acaso foram introduzidos clandestinamente no país para corromper nossa sociedade casta e cristã? O grau de cinismo chega ao extremo de um governador sair em caravana, rumo à Brasília, e à frente dos refletores apresentar uma proposta de aumento da penalidade para o menor infrator e, com isso, faturar politicamente. A inutilidade da medida é tão absurda que discuti-la é aumentar ainda mais o caldo da burrice que ainda perdura no país. Enquanto isso se avoluma as rebeliões como termômetro dos conflitos sociais não resolvidos, ao longo de décadas e mandatos recentes, tais como o do governador que foi a Brasília.

Sou insuspeito ao lembrar que em 92 por ocasião do movimento que provocou a renúncia de Collor, o diretor Zé Celso Martinez Correa, num programa de tevê, disse que Collor era a síntese de nós mesmos. Foi um Deus nos acuda e os presentes, conduzidos por Maria Lídia, só faltaram pedir a renúncia do Zé Celso ali mesmo. Todos, com exceção, é claro, do autor da bombástica frase, se revoltaram e a expressão mais amena foi "imaginem!!!". Mas, Zé Celso estava certo, apesar da antipatia recíproca que nutrimos um pelo outro, considero ele um gênio, apesar de seu temperamento.

Voltemos ao presente. O repetitivo show proporcionado pelos programas de tevê, ao cair da tarde, é um circo dos horrores. E nada tem de parecido com o antigo programa da Rádio Eldorado "Piano ao Cair da Tarde", muito menos da tradicional Ave Maria de Gounod ou Schubert que ouvíamos todos os dias, às 18 horas, no interior do Brasil. Vivemos hoje num país que se brutalizou, onde a falta de criatividade e a crescente necessidade de audiência forjam cenas mais terríveis do que a própria realidade. A imprensa em si não é burra, tão pouco os programas de tevê, e sim a misencéne que chegou ao seu ponto crítico.

Essa parte da imprensa que sobrevive graças à miséria humana não merece censura, precisa é de nojo. Ela é mais perigosa que o incesto e o estupro praticado pelos anônimos personagens. Acaso o crime praticado pelo menor de Juquitiba é maior do que aquele praticado pelos demais marmanjos? Esta semana um apresentador de tevê comentava, placidamente, a reação da multidão enfurecida, diante da reconstrução de outro crime cometido por não menores numa lavanderia. Com o cinismo costumeiro dizia que "a população revoltada pede justiça", omitindo, é claro, fazer comentário a respeito da insanidade daquela mesma população que pedia o linchamento dos acusados. O sorriso escondido no canto dos lábios denunciava sua covardia. Sabe esse apresentador, ou deveria saber, que o transeunte anônimo que pedia linchamento protestava contra a sua miséria particular, não necessariamente ligada à degola e ao estupro. Essa população, desprovida de qualquer direito, vem sofrendo há décadas humilhações e privações. Quando pode protestar, protesta. Na ausência de verbo, reproduz os conceitos e pré-conceitos produzidos paradoxalmente pelos causadores de sua miséria.

Por outro lado, vimos a mancada, protagonizada pelo ministro da previdência, que se gaba de ouvir música clássica, mas se esqueceu ou nunca soube do sofrimento que é ser pobre e velho neste país. Como se vê, nem aqueles que fazem parte da reserva moral da Nação estão isentos de cometer brutalidades. Este é o resultado de um Brasil que precisa de uma revolução...Pacífica, de preferência.

A falta de profissionalismo, por uma parte da imprensa, descambando para descalabros é o reflexo dessa sociedade que procura formas de se expressar e não obtém respostas adequadas nos instrumentos de comunicação de massas. Moral da parábola: nojo se paga com nojo.

Jair Alves - Dramaturgo/SP

22/11/2003

EM LEGITIMA DEFESA DE NOSSA ESCOLHA

Ao menos 67% da população votante fez uma escolha, neste outubro de 2002, e, essa escolha, a qualquer custo precisa ser e vai ser respeitada. Não se pode admitir a arrogância dos perdedores, querendo fazer valer uma retórica agressiva de que não há motivos para festa. Há, sim. A performance do ex-presidente do partido governista, ontem, discursando no Senado, faz lembrar aquela famosa frase do dramaturgo Durremath, “seria cômico senão fosse sério”. Com os seus costumeiros trejeitos nervosos, me fez pensar noutro dramaturgo, dessa vez, Artaud, que foi internado num hospital de loucos, por nove anos, pela sociedade que tinha produzido a noção de loucura. A mesma sociedade que tinha permitido a tomada do poder, pelos nazistas. Arthur Virgilio me fez pensar que devemos discutir, em profundidade, a respeito do conceito de equilíbrio mental e de pessoas que precisam ser retiradas do convívio coletivo. A arrogância chega às vezes no limite de patético, porém, isso é pouco. Esse é apenas um exemplo da fúria dos perdedores que começa mostrar suas garras.

A insistência do salário mínimo, com valor superior a R$ 214,00, que pautou grande parte dos noticiários de ontem e ainda hoje, ridicularizando, como não poderia deixar de ser, um deputado do PT que tem como bandeira um salário mínimo justo, deixou bem nítido o tipo de embate que vamos ter, a partir de agora. Não mais do que 72 horas se passaram da grande vitória da democracia, e os enviados do apocalipse vêm à frente das câmeras e lentes para mostrar o seu número. É uma ação orquestrada, desde aquele comentarista econômico que insiste em dizer que o projeto de combate à fome já estava em curso, nos oito anos do governo que agora finda. Ele não diz, porém, e nunca diria, que existe, sim, dinheiro para combater a fome.


15/08/2004

Stop Baby

Jair Alves - dramaturgo


Vamos parar com isso, você que assina Giulia Saldanha? Não preciso lembrar a você o ano em que vivemos, ou preciso? Essa coisa antiga de se esconder por trás de um pseudônimo é coisa do final do século XIX, sabia? O texto que você diz ser um “artigo”, com o título pouco elucidativo “Sabedoria da Igualdade”, é um pé no saco. Você conseguiu superar a si mesma (ou mesmo?). Nada contra escrever o que bem entende, mesmo cometendo esses erros crassos de ortografia e concordância. Você pode e deve continuar escrevendo o que bem entende, afinal a Internet tem alguns truques que podemos usar, tais como bloquear as porcarias que nos chegam pelo correio eletrônico e identificar de onde saem essas “preciosidades”, em especial quando a distinta pessoa pensa se esconder, através de um endereço criado no Hotmail. Portanto, isso não é uma censura, é uma sugestão: assuma as bobagens que você anda escrevendo porque, assim, fica mais fácil mostrar o tamanho da sua mediocridade.

O que é mais vil na sua manifestação? O fato de você citar pessoas, sem que elas possam se defender. Muitos dos nomes que aparecem nos seus “artigos” são meus amigos, outros nem tanto. Mesmo assim tomo como minhas suas dores, pois sei que é um ato covarde essa mania, sepultada pela história, do uso do pseudônimo. Já desde o seu primeiro texto enviado a mim eu perguntava, de onde vinha e o que fazia? Não era muita coisa, pedia somente uma referência para saber com quem estava falando. Em troca, veio o silêncio.

Quanto ao conteúdo de suas mensagens, melhor do que escrever você precisa ler um pouco mais, se é que lê alguma coisa. Tudo indica que é um daqueles que engrossa o coro dos que sentem o cheiro do pum e sai por ai dizendo “alguém peidou, alguém peidou”. Por falar nisso, seus textos não passam de um pum no elevador. Fora isso, reproduz a costumeira arrogância, disfarçando a ignorância. Já se deu ao cúmulo de comparar-se a Plínio Marcos e Nelson Rodrigues, agora só falta evocar Balzac e Rasputin. Talvez um dia venha a citar Paulo Francis. Não acho que não deva, porque assim fazendo talvez não cometesse tantos erros de ortografia e concordância. Adora citar Roberto Piva, talvez fosse o caso de ler melhor seus escritos. Piva não é um reacionário, é um anarquista (e um chato, às vezes). Poderia ler Artaud, esse então vai te demonstrar, já na primeira metade do século XX, todos os equívocos da esquerda que se meteu com as artes e a literatura. Porém, não se preocupe tanto em se manifestar sobre o que é esquerda e a não esquerda, você precisa superar outras questões antes disso. Ainda falando sobre sua arrogância e falta de conhecimento (imperdoável para quem se diz articulista), cumpre-me dizer que ao citar o seu novo guru, Arnaldo Jabor, involuntariamente demonstrou sua verdadeira vocação. Saiba você: a arrogância de Jabor é igualzinha àquela demonstrada por Stédile e por essa papa-hóstia que veio das Alagoas, confundir o cenário nacional. Um capitão aposentado do exército, um desses que colocava bombas em cartas para a OAB e promovia atos terroristas não faria pior do que esses dois “oficie-boys da revolução”, e você está agindo da mesma forma. Portanto, ainda continuo sugerindo que leia um pouco sobre a contemporaneidade e, assim, vai encontrar material suficiente para escrever melhor e, quem sabe, produzir coragem para colocar seu “nominho” na reta.

Acho que uma página é o suficiente para o nada que você representa (dispenso outros comentários), salvo, é claro, o perigo da generalização da calúnia.

(*) “Homem do Salto” era um fetichista que, na década de 60 e 70, escrevia cartas anônimas e eróticas para as atrizes dos elencos que estreava. Esse, ao menos, tinha um estilo, não é o caso de GS.
31/05/2004

BRASIL - O PAÍS DOS BUFÕES (*)

(*) Por Jair Alves


Eu conheço um bufão de perto. Muitas pessoas, incluindo eu, devem a esse bufão a vida. O personagem de que falo foi presidente de um Centro Acadêmico, de um importante Campus Universitário, da USP, por volta de 72/73. Com sua personalidade dúbia, agia e sempre agiu ajudando pessoas a se esconderem da ditadura militar. Posteriormente, aderiu ao stablichment dos governos passados. O próprio Honestino Guimarães (**) teve alguns meses de sobrevida, devido ao ato corajoso desse bufão que ousou desafiar a repressão, escondendo um homem marcado para morrer. O meu caso é mais simples, contudo devo, sim, a ele ter sobrevivido àquele período da repressão. Ele também me escondeu e aqui estou para contar essa história.

Uma pessoa tão generosa, aqui tipificada como bufão, deverá apresentar alguns defeitos para não ser considerada hoje um bom caráter. E eles existem. Os motivos convergem para a sua compulsão à mentira. Torna-se impossível confiar numa pessoa com essas características. Apesar disso, ele também revelou uma extrema capacidade para detectar o que ocorre nos subterrâneos da política brasileira. Há dez anos não vejo o tal amigo bufão, melhor assim. Nesse nosso último encontro ele revelou um segredo, que por dever profissional não falarei a respeito. Esse segredo, porém, pode explicar o momento que estamos vivendo.

O bufão, meu amigo, me revelou o segredo como se capta quando alguma ação conspiratória está em curso. Vamos a ela. No início de fevereiro deste ano começou uma estranha movimentação, em especial em pequenas matérias, publicadas pela Folha de S.Paulo. A excitação dos jornalistas, da sucursal de Brasília, expressadas nas edições diárias, estavam incomodando. Por que, repentinamente, esse jornal deu para fazer marcação cerrada sobre o ministro da Casa Civil? Chegaram a publicar interpretações absolutamente fantasiosas, a respeito de divisões no próprio governo. Nem mesmo o desmentido, publicado num outro concorrente, O Estadão, foi suficiente para que essa equipe de Brasília colocasse a viola no saco e fosse cantar noutra freguesia. Por que continuaram com a descarada campanha de desestabilização do governo LULA? Eis os motivos:

1- A divisão do Ministério da Casa Civil que criou uma pasta específica para cuidar das articulações políticas do governo, assumida pelo deputado Aldo Rebelo, surpreendeu os opositores. Eles não contavam com isso;

2- Com o obscuro Waldomiro Diniz, deixando de assessorar diretamente José Dirceu, a oposição, leia-se parte do PSDB, se viu num mato sem cachorro. Quanto mais demorasse a trazer a público a trama, digna do mais reles folhetim, menor impacto teria a divulgação desse evento. Falo da negociata ocorrida entre Waldomiro e Cachoeira, em 2002, gravada em vídeo pelo segundo;

3- Começou ai uma corrida contra o tempo para saber quem ia dar a cara para bater, no escândalo pretendido. O que aconteceu nos bastidores começa, agora, a vir à tona, com todas as cores e sons. Não apenas um obscuro senador pelo Mato Grosso tinha conhecimento da gravação, mas como se sabe agora, subprocuradores, presidente de partido e outros senadores, escalados para bater e morder. Não é de se espantar que Antero Paes de Barros e Arthur Virgílio venham a público defender os subprocuradores, envolvidos no episódio da madrugada de oito para nove de fevereiro. Da mesma forma, não é de se espantar que segmentos importantes da oposição venham a defender a atual política econômica, praticada por Antonio Palocci Filho. A desestabilização não interessa, economicamente, para setores produtivos, representados pelo PSDB. Contradição vivida pelo PSDB, pois é preciso impedir, a qualquer custo, que o governo LULA governe. Daí os bufões Paes de Barros e Virgílio;

4- A gravação escandalosa era de conhecimento, já de há muito, da maioria dos personagens acima citados. Pode-se dizer que desde novembro último. A questão era como melhor utiliza-la para aniquilar o governo do PT. A data escolhida, a princípio, seria maio, quando muito junho, quando o governo não teria condições de reverter o bombardeio sobre seus quadros, impedindo um fiasco eleitoral. O golpe de mestre dado pelo Palácio do Planalto, tirando da linha de fogo o ministro Zé Dirceu, colocando-o na função que melhor exerce - articular a ação do governo (ARTICULAÇÃO) deu um nó na cabeça dos que fazem parte desse grupo de bufões. A partir daí a confusão, resultando na fita enviada ao Ministério Público, à revista Época e a complexa criação de uma rede de repercussão do escândalo, incluindo aí os repórteres da Folha de Brasília, além da greve dos Agentes Federais.

O meu amigo bufão foi lembrado, como personagem símbolo desses episódios, porque ele tem a extrema capacidade de continuar mentindo, mesmo que os fatos à luz de refletores e/ou documentos revelem o contrário de sua afirmação. Essa é a característica mais típica do bufão. Ele não se importa com o ridículo, continua obsessivamente mantendo sua mentiras, até que as mesmas provoquem, aí sim, um fato. Com isso, a discussão passa a girar em torno não das mentias ditas por ele, mas sim em torno das reações a essas mentiras. A insistência, na atual conjuntura, de exigir uma CPI para colocar no centro das discussões a atuação do ministro da Casa Civil, como já foi dito, é forçar um terceiro turno - um fato, não se importando com as conseqüências institucionais que isso possa provocar.

Outras gravações, em vídeo ou áudio, surgirão, dando a nítida sensação de que estamos vivendo um constante Big Bufões à Brasileira. A próxima será o depoimento do bicheiro Carlinhos Cachoeira, na segunda-feira, diante da CPI da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Mas, ele continua dando as cartas. Impôs testemunhar às três da madrugada, no prédio da subprocuradoria e, agora, no caso da CPI, depondo na cidade em que reside.

(*) A diferença entre o clown e o bufão é que o clown está sozinho, enquanto o bufão faz parte de um bando. Registre-se também que zombamos do clown, enquanto os bufões zombam de nós (definição de Jacques Lecoq).

(**) Último presidente da UNE, durante o regime militar. É um desaparecido político, morto pela repressão.


(*) Jair Alves - Dramaturgo/SP

(*) Jair Alves é Dramaturgo, Ator e Diretor. Participou, como ator, dos musicais JESUS CRISTO SUPERSTAR; MORTE E VIDA SEVERINA; MISSA DO VAQUEIRO; MAQUIAVÉLICO MAQUIAVEL (também como autor); QUALÉ MEU?; UBU REI; ARTAUD; entre outros. Na década de 80, criou e presidiu, durante 7 anos, a Cooperativa Paulista de Teatro. Como autor, foi premiado com os textos A MORTE DE DEUS e INTERROGAÇÃO, na década de 70, e, em 2000, com a peça 7 DIAS EM 2000, como MELHOR TEXTO DE TEATRO, no PRÊMIO VLADIMIR HERZOG DE ANISTIA E DIREITOS HUMANOS. É autor do livro e áudio, ESCUTA, ZÉ DIRCEU OS 13 TRABALHOS DE ÉRCULES (com E mesmo, segundo o autor), seu mais recente trabalho.

CARTA A UMA ATRIZ DA TELEVISÃO, CINEMA E TEATRO BRASILEIRO

(*) Por Jair Alves

Prezada atriz Annamaria Dias (do Teatro, Cinema e Televisão),

Agradeço muitíssimo sua gentileza de ter me retransmitido mensagem, creditada a um Autor Anônimo, contrapondo o conteúdo de meu último texto enviado à imprensa, "CACHORRO TEM FANTAZIA SEXUAL?". Apesar de ser manifestação inteiramente descabida, considero-a da maior importância, pois revela o baixo nível de informação do autor, acompanhado de preconceitos, alimentados por instrumentos como esse de esconder a própria identidade. Nós artistas temos que dar a cara para bater, faz parte de nossa profissão. O mesmo deveria ocorrer com outras categorias, num momento tão importante vivido pela República Brasileira.

Vou abusar de sua generosidade e dos demais leitores, respondendo ponto por ponto a essas "denuncias", na expectativa de encontrarmos, juntos, uma rota feliz para o Brasil que queremos:

1º) "O País está com a economia engessada. Estamos sofrendo as mesmas incertezas do quando estávamos numa ditadura (na época de direita)...O PT está incompetente para governar. E o fechamento dos bingos foi uma "vendetta" da Iminência Parda José Dirceu! A maneira como foram invadidos e fechados, foi igual à forma troglodita que foram fechados teatros e invadidas Faculdades...Polícia assustando velhinhas indefesas (muitas conhecidas nossas, inclusive)..."

- O Autor Anônimo fala de ditadura, sem conhecer. No seu caso, Annamaria, é diferente. Você conhece. Na distante Araraquara, de Ignácio de Loyola Brandão, Zé Celso, em 1966, estava eu dentre os freqüentadores de uma quermesse, na Vila Ferroviária, quando fomos contemplados com uma caravana de artistas da extinta TV Tupi, dando explícito apoio à candidatura de Hélio Souto a deputado, pelo partido do governo militar. Nós, aguerridos estudantes interioranos, achávamos o uso do prestígio dos artistas nacionais, em favor de candidatos que consolidaria o regime militar, um insulto, porém não deixamos de nos sentir fascinados com a presença daqueles astros que só conhecíamos pela telinha, em branco e preto, alternados por chuviscos, dentre eles você. Não me recordo se Hélio Souto foi eleito deputado estadual, contudo deve concordar que o período subseqüente foi de terror. Parece que o Autor Anônimo ignora isso, pois ao considerar José Dirceu "uma iminência parda" manifesta ignorância, ou pior, má fé. Gostando ou não, Zé Dirceu, Vladimir Herzog, Franco Montoro, Mario Covas e o próprio LULA foram os responsáveis por esse direito à liberdade que se desfruta hoje de dizer o que se quer e, em muitos casos, ouvir o que não quer. No item acima, o Autor Anônimo fala que a polícia federal entrou "assustando velhinhas indefesas". Quanto a isso, duas questões se colocam: a) O que faziam essas velhinhas no Bingo?; b) Essa polícia federal é a mesma que no passado foi responsável pela censura de peças teatrais, filmes e televisão. Pior, essa mesma PF ajudou na repressão e morte aos opositores do regime. Nos dias atuais, não se pode dizer que a polícia federal esteja a serviço de uma ditadura de esquerda, conforme sugere o Autor Anônimo. No mínimo é chamar a todos nós de analfabetos, pois grande parte de seu efetivo causa grandes transtornos à Segurança Nacional (Agentes em greve), exigindo que o governo aumente o salário que recebem hoje, de R$ 4.500,00 (quatro mil e quinhentos reais) para R$ 8.000,00 (oito mil reais), equiparando-o aos demais funcionários de nível superior. A recente entrevista com o ex-diretor do FBI no Brasil, publicada pela revista Carta Capital dessa semana, explicitando que o governo dos EUA subornou parte dos Agentes da Policia Federal, além de incursões em áreas da nossa Segurança Nacional, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, revela que o caso é muito mais delicado. Não é apenas mais uma forma de se opor a um governo esmagadoramente eleito pela população, e sim algo parecido com conspiração. A proximidade do Senador Antero Paes de Barros (PSDB/Mato Grosso) com Agentes da Polícia Federal, com o tempo vai revelar que se trata de uma ação orquestrada. (vide link http://macunaim.sites.uol.com.br/macunaima41.htm)
2º) - "Somos cidadãos trabalhadores que pagamos nossos impostos, aliás, triplicados na gestão do PT, quase inviabilizando as atividades empresariais..."

- Sabemos que a carga tributária no Brasil, de fato, é alta e mesmo tendo oito (8) anos de mandato, FHC não conseguiu reduzi-la, porém não sei onde é que esses impostos, nos últimos quinze meses do governo LULA, triplicaram em valor. Seria melhor que o Autor Anônimo fosse mais explícito e parasse de usar uma velha forma de MENTIR para denegrir o seu opositor.

3º) "Se o Sr. Presidente Lula...compara os mesmos (empregados dos Bingos, com carteira assinada, férias, FGTs, etc, etc) às prostitutas de rua, que só estão nessa condição por falta de opção...é hora de dar razão à Regina Duarte sim. Temos medo de uma ditadura de esquerda, tão maléfica como qualquer outra..."

- O Autor Anônimo continua mentindo, pois LULA não fez essa comparação, o que disse foi que a PROSTITUIÇÃO INFANTIL e a VENDA DE DROGAS também criam oportunidades de emprego, porém, como os BINGOS no Brasil, são ATIVIDADES ILÍCITAS. Quanto à Regina Duarte, tenho certeza de que ela não está defendendo nenhuma dessas atividades, como forma de criação de emprego.

4º) "Foram gastos um bilhão de Reais em viagens. Nunca vimos tantos pedintes pelas ruas e tantos desempregados..."

- Do que está falando, afinal, o Autor Anônimo? Dos dois mandatos presidências anteriores?

5º) "Por que não resolver os problemas democraticamente expondo a verdade e não jogando-a por baixo do tapete? O povo votou com esperança e está desiludido. Sarney Presidente do Senado. ACM defendendo os devaneios do PT. Tasso Jereissati falando em defesa dos desmandos da atual Administração..."

- Reside aí a maior contradição do Autor Anônimo. Ele chama o Governo do PT de extrema esquerda, mas se revolta com a ajuda de políticos nada comprometidos com o ideário marxista. Tudo leva a crer que o objetivo não é fazer oposição, o que seria legítimo, saudável e necessário, mas sim tripudiar, engessar qualquer possibilidade de êxito do atual mandato. O insulto maior não é para com o PT ou LULA, e sim para com a esmagadora votação de 26 de outubro de 2002.

6º) "E no entanto estamos piores do que a Regina Duarte, o medo passou, mas ficou uma enorme perplexidade diante dos fatos..."

- O Autor Anônimo, a qualquer custo, tenta justificar a campanha terrorista iniciada com o depoimento da atriz, "Estou com Medo", entre o primeiro e segundo turno da eleição já citada. A campanha ora em curso pretende não apenas desestabilizar o governo que aí está, mas aniquilá-lo. Sem que isso pareça arrogância, em todos os meus textos anteriores frisei que não se tem DEMOCRACIA quando não se tem uma IMPRENSA SÉRIA. A segunda parte do conteúdo da entrevista, publicada na Carta Capital, me dá razão, pois enfatiza que o governo dos EUA mantém controle sobre a grande imprensa brasileira. Diria mais, por que essa entrevista, publicada num veículo tão respeitável e dirigido por um jornalista não menos respeitável, como é o caso de Mino Carta, não é discutida, desmentida nos veículos como a Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, Veja, Época, e Isto É?

Para finalizar, agradeço a oportunidade de poder me manifestar, sem meias palavras, e, quem sabe, deslanchar uma discussão a respeito das reais responsabilidades dos ARTISTAS, JORNALISTAS e APRESENTADORES DE TELEVISÃO, perante a sociedade. Todo esse trabalho profissional independe, sim, das predileções ideológicas e/ou partidárias, e, talvez, se configure como a verdadeira esperança do povo brasileiro. Digo isso tendo em mente imagens da longínqua Araraquara, de 1966, quando você foi uma das estrelas daquela quermesse.

Os nossos sonhos se transformam, não envelhecem, apesar do tempo. E hoje se não temos a mesma juventude não parece lícito frustrar os sonhos dessas gerações emergentes. EU NÃO TENHO MEDO E TÃO POUCO ESTOU PERPLEXO.

(*) Jair Alves - Dramaturgo/SP

OPERAÇÃO MAÇÃ DOURADA (*)

Quem afinal comeu a Maçã Dourada? Literalmente foi um inocente elefante do Zoológico de São Paulo, envenenado e morto, junto com outros inocentes animais. Segundo uma veterinária que participa das análises, bastava quantidade igual ou pouco maior do que a de uma cabeça de fósforo para mandar para o beleléu o musculoso quadrúpede, e é bem provável que o mesmo tenha ingerido uma maçã com o fulminante veneno. O mistério continua no Zôo paulistano e a polícia está na pista certa - procura as razões e os autores do crime. Já no atual quadro da política nacional o mesmo não ocorre. A imprensa não se pergunta, por exemplo, porque a maçã atirada assim, descompromissadamente, na gaiola do planalto vem atingindo tão e mortalmente tanta gente.

O que vem a ser Maçã Dourada? Na mitologia grega significa objeto da destruição: Teris a personificação da discórdia - a única deusa que não foi convidada para o casamento de Teseu, ressentida com os deuses, arremessou uma maçã dourada no corredor onde se realizava o banquete. Na fruta estavam gravadas as palavras "a mais bela". Essa maçã foi colhida por Paris e, por este motivo, subornado por três outras deusas para que ele escolhesse uma delas, a premiada, com o sugestivo mimo. Para encurtar a fábula, os acontecimentos teriam se desenvolvido e, como resultado, a operação Cavalo de Tróia, conhecida universalmente como ato de traição maior e outras interpretações menos trágicas.

Na história moderna brasileira, Maçã Dourada surgiu como agente policial infiltrada no movimento estudantil, na década de 60. Advinha para atrair quem? O ministro Zé Dirceu, na época líder dos estudantes paulistas. Dizem as más línguas que o verdadeiro nome de Maçã Dourada era Heloisa Helena (isso é fácil comprovar). Se o personagem alvo comeu a Maça Dourada, só ele pode dizer, sabe-se que literalmente não. O treizoitão enfiado na cintura da beldade teria provocado desconfianças e a farsa veio a público. Isso não impediu que a tragédia maior acontecesse. Maça Dourada era apenas um componente da monstruosa trama e traição. Os resultados daquelas operações "finge ser aquilo que não é" foram amplamente registrados em livros, filmes e minisséries da Globo. Vide Anos Dourados.

A pista, porém, para desvendar o presente vem daqueles que praticam ciências ocultas, o Discordianismo, cuja Maçã Dourada sempre foi o símbolo maior. Seus praticantes chegam a adotar inocente distribuição de plantinhas nos semáforos, disfarçados de defensores da natureza quando, na verdade, essas plantas são mudas de cannabis sativa (MACONHA). Na internet se encontra registro dessa barafunda ter ocorrido na cidade de Curitiba. Figurativamente, esse efeito da maçã dourada no quadro conjuntural é inequivocamente anárquico e apocalíptico. Nessa histeria em que vivemos não estamos longe de ver pela tevê cenas gravadas, no início da rampa do Planalto, apoplécticos espectros, anteriormente inconciliáveis, como um tal Virgilio, um tal Babá, uma tal Heloisa Helena, juntos, pedindo "JUSTIÇA". Poderemos ver também a mesma turba que ovacionou o presidente, no dia da fraternidade Universal de 2003, correndo ensandecida com a cabeça do Ministro espetada numa lança dos dragões da Independência. Tudo pode acontecer se a ira contagiante da discórdia não for atenuada com uma pequena de dose de razão, já que coerência é impossível pedir.

O tal Waldomiro encarnou a verdadeira face da maçã envenenada, anteriormente objeto do desejo. Quem não gostaria de receber, antes da Sexta-Feira 13, um e-mail do endereço eletrônico aquiwaldomiro@planalto.gov.br, marcando uma audiência? A esquerda mais radicalizada e a direita menos civilizada vibrariam com a generosa atenção. Com a quebra do encanto, aquele homem alto e fino virou aquilo que sempre foi - um instrumento, um Cavalo de Tróia.

Os homens que produzem cultura nesta Nação, ainda em formação, haverão de sugerir o caminho da concórdia e da harmonia, mesmo que no passado um outro Ministro e negro tenha escrito os seguintes versos: "a cultura e a civilização, elas que se danem ou não!". A operação Maçã Dourada será desmascarada, fora isso somente o caos. A barbárie é o que não queremos. Ao menos o autor deste modesto texto diz isso.
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(*) Jair Alves - Dramaturgo/SP

sexta-feira, 18 de abril de 2008

DESCULPE, SENHOR PRESIDENTE!!!

Era de se esperar muito mais de quem ficou por oito anos, no comando da Nação brasileira. Esperava-se uma proposta política mais concreta do que essa que foi apresentada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Senhor presidente, pessoas que se dedicaram à administração de entidades ou organizações públicas, por tempo às vezes menor, sete anos por exemplo, dizem que essa experiência mudou suas vidas. Falo da vida de presidente de clube de futebol, grupo de teatro e até de determinados síndicos. Imagine o que teria a dizer a pessoa responsável pelo destino de milhões de brasileiros!
Quanto ao senhor, parece que os oito anos em que usou a faixa presidencial, na verdade, serviram apenas para dar-lhe o privilégio de ser um expectador, com direito a opinar sobre este ou aquele assunto. De resto, não se lê nem se ouve nada a seu respeito, relacionado a temas político-econômico-administrativo ligados a esse período. E por falar nisso, desculpe-me senhor presidente, acha mesmo que a privatização do Estado brasileiro que aconteceu no seu governo serviu para impulsionar o Brasil ao desenvolvimento? Pelo visto, não. O que se desenvolveu, na verdade, foi a miséria, a violência, o crime organizado e as fortunas de algumas poucas famílias. Mas, como bem disse, tudo isso é passado. O que importa é olhar para frente e não olhar pelo espelho retrovisor, numa de suas preferidas metáforas, a respeito do atual governo.

Na sua análise dos anos que se avizinham, tudo parece gerar em torno dos postos de comando e dos cargos ocupados na administração pública, como se política se restringisse a vereadores, deputados, prefeitos. Talvez, isso explicasse o reclamo de seus pares ao dizer que seu partido não tem capilaridade social (e, por favor, isso não é nenhuma piada a respeito dos candidatos carecas). O desenvolvimento de setores humanos, como os meios de comunicação, ainda que controlados pela concessão governamental trouxe à tona várias contradições que ainda não foram suficientemente discutidas, mas o serão nos anos que virão. Por outro lado, é sabido, inclusive com sua valiosa contribuição no passado, quando era apenas um professor e sociólogo, que a democracia que os homens de bem do Brasil querem implica bem mais do que a democracia representativa, contida na sua ridícula proposta de voto distrital. De fato, o povo quer mais do que um policial em cada esquina e um vereador para votar a cada quatro anos. Essa população sofrida, com o desenvolvimento dos meios de comunicação, quer muito mais. Essa população quer tudo o que tem direito. Já não basta dizer que “o cobertor não vai dar para cobrir a todos”, como costuma fazer seus pares.
Na observação do artigo que subscreve neste site, chega a zombar da tese do “acordo entre as elites”, professada pelos intelectuais de esquerda, grupo esse que um dia o senhor teve cadeira cativa. Vale perguntar: E agora? E agora, José? Ou seria melhor indagar, “E agora José Dirceu? É impossível imaginar o cenário político futuro, sem a presença do PT e também do emblemático deputado José Dirceu. Impossível negar o papel desse partido e do ex-líder estudantil, ex-ministro e ex-deputado, na construção do atual estágio da democracia brasileira. No entanto, o senhor sabe que ele, José Dirceu, seria um candidato muito forte, com capilariade substancial à sucessão do atual governo. Na dúvida, seu partido tratou de promover sua degola, prematuramente, desencadeada por um obscuro senador de seu partido do Mato Grosso do Sul. Lembra-se do caso Waldomiro Diniz? Hoje, esse mesmo senador se vê encalacrado com denúncias de envolvimento, no escândalo dos sanguessugas. Coisas da política representativa e, como sabemos, não esgota a participação política da população.

A obsessão de seu partido, em eliminar o adversário, nada mais é do que uma vertente anunciada pelos intelectuais de esquerda, a respeito do conceito de Washington, do qual o senhor nunca conseguiu provar não ser um adepto. Por falar nisso, mais a esquerda ou mais a direita, o PT, como sigla partidária, vai sobreviver. Historicamente, o senhor bem sabe disso, temos antecedentes significativos, vide o velho PTB de seu respeitado pai, que sobreviveu, inclusive, à ditadura militar. O PT não será diferente. Quanto ao seu partido, não há dúvidas, ele caminha rapidamente para a direita - ou para ser mais preciso - caminha rumo à métodos perversos, utilizados pelos partidos conservadores. Quanto à convergência, preconizada entre PT e PSDB, e também por intelectuais de esquerda, talvez nem seja necessário que ocorra, nem desejável. A única esperança dos homens de bem, e sua consciência saberá dizer se ainda pertence a esse grupo, é que a Nação Brasileira não abandone o sonho de uma democracia política e econômica, é claro. Do contrário, estaremos mergulhados num longo período de obscuridade, e não faltarão dedos e bocas para acusá-lo de ser um dos causadores dessa tragédia. A história tem sido implacável, em se tratando de traidores, e o senhor, preventivamente, tem atacado seus adversários com o uso indiscriminado da palavra traição. Cuidado, Robespierre foi a maior vítima desse modelo, usou a guilhotina para eliminar adversários e companheiros de primeira hora e, depois, foi pateticamente conduzido ao cadafalso da mesma forma. O senhor fala de traição, mas o atual governante não pode ter traído suas expectativas, afinal, ele não era seu candidato. Assim como, com toda segurança, o senhor não pode falar mais, em nome da Nação Brasileira.

O ano que se avizinha (2007) será polarizado entre as lutas da sociedade civil, contra todos os desmandos do Estado, em todos os seus segmentos. Não se engane, o desengajamento de um grande número de intelectuais, ativistas que hoje ainda apóiam o atual governo, não significará vida fácil para a coalização centro-direita a que o senhor faz parte. Diz o dito popular, “o bicho agora vai pegar”. Ai, talvez, o senhor venha sentir falta desses tempos tão cordiais, dessa briga entre os primos petistas e psdbistas.

Quanto a nós artistas, cansados de subir em palanques, emprestar nossa transitória ou duradoura notoriedade para falar contra a ditadura, estamos seriamente engajados, a partir de agora, a falar a favor da cultura. E isso, pode ter certeza, terá grande repercussão em todas as classes sociais, principalmente se essa postura for acompanhada de uma produção artística que espelhe a realidade nacional, coisa que a muito tempo os políticos não fazem. Repercutindo o brilhante ator Renato Borghi, “o ministério da Cultura tem um orçamento zero vírgula qualquer coisa, por cento. Como podemos pensar na construção de uma Nação, dessa forma?”. Senhor presidente, sua participação, ou de seu ministro da Cultura, foi pífia na produção artística nacional. Foi pior do que esse atual governo.

A ruptura política, na maioria das vezes, é lenta, porém quando a população se decepciona com os métodos dos governantes essa ruptura pode ser repentina e inesperada. O estardalhaço e vale tudo, usado por aquilo que se convencionou chamar oposição e que, na verdade, convergiu parte da imprensa, parte do judiciário, parte dos intelectuais, poderá acelerar trágicos acontecimentos, ou não. Como não adepto do semear o medo para evitar a transformação, como fez tempos atrás minha companheira de profissão (Regina Duarte), sugiro, modestamente, ao senhor uma leitura da história recente, e verá que suas previsões são sombrias, descoladas da realidade. Ainda mais, vale perguntar - Desculpe, senhor presidente, ainda pensa falar em nome da Nação Brasileira?

OS ARTISTAS TÊM O SEU ATO INSTITUCIOAL N° 5

No dia 15 de dezembro de 2003, nem bem o governo Lula completara 12 meses de exercício, uma categoria, desgastada pelos descaminhos de seus dirigentes e pelo total desinteresse daqueles que um dia foram vanguarda da sociedade brasileira (os artistas, ao menos assim eles se auto-intitulavam), se reunia num teatro que nem mais existe hoje, no centro da capital paulista, para sacramentar um ato ilícito e também ilegal, dando legitimidade a uma diretoria de sindicato (prova em anexo). O erro foi crasso, porém propiciou o que se segue, que se assemelha aos velhos e temidos esquadrões da morte. Exagero? Veremos, a seguir, se o que aconteceu não é a morte da moralidade ou mais um ato administrativo legal. Analisemos juntos.
Pouca gente, em 15 de dezembro de 2003, conhecia, por exemplo, uma figura que se tornou pública, por nome Waldomiro Diniz; nem mesmo a avalanche de denúncias, orquestrada pelo PSDB/ PFL, para derrubar o Ministro da Casa Civil, José Dirceu; nem mesmo conhecíamos o termo Mensalão e Máfia das Ambulâncias; nem mesmo uma porção de coisas...
O telegrama, anexado a esta mensagem, foi recebido por um associado (*) que até aquela data, relacionava-se (ou acreditava) no uso de seus plenos direitos, sem contar que o mesmo tinha sido eleito, Diretor de Finanças, do mesmo Sindicato, com mandato até aquele fatídico dezembro de 2003, agravado pelo fato de ter sido inscrito como candidato às eleições daquele ano que, afinal, não se concretizou (assunto já tratado acima).
Temos em mãos, para que Deus, Árabes e Judeus possa analisar, toda a documentação, registrada em cartório pelo referido Sindicato, e dela não consta um documento sequer que fale da exclusão de qualquer associado, muito menos desse, citado no telegrama.
É, portanto, a manifestação explícita de um ato de força e desrespeito a todos àqueles que, apesar se equivocados, naquela triste noite, na cidade de São Paulo, deu um voto de confiança, em nome da unidade dos artistas, diante da sociedade. Segundo uma ex-presidente do Sindicato, inegável grande atriz, “era preciso preservar a imagem da entidade, diante da Sociedade” (sic). Nós não fazemos parte desse endosso, mas respeitamos o direito daquelas pessoas de terem errado, considerando-se o momento político em que vivíamos.
Pois bem, agora é a hora da volta do cipó. É a hora do troco dado por essa atual presidente (**) que, nos seus comunicados, abre sempre com uma citação da Constituição Federal. De nossa parte, sugerimos que todos os artistas profissionais, residentes no Estado de São Paulo, se quotizem para presenteá-la com uma edição do Código Penal, atualizado. Quem sabe, assim, ao tomar conhecimento de alguns ilícitos, ela nos venha poupar de tantos constrangimentos.
É terrível ler o uso de expressões, usadas com insistência por essa Diretoria, cunhadas pela extraordinária atriz, Lélia Abramo, como endosso a esses atos de explicita depredação de nossa memória. A família Abramo há de se manifestar contra esse descalabro, em especial o senhor Cláudio Weber Abramo, que ganhou notoriedade nos últimos anos, como diretor de uma organização independente, que fiscaliza atos governamentais e do Estado; os Sindicatos fazem parte do Estado. Na definição rigorosa da Lei um sindicato é uma entidade pública e não particular, portanto faz parte do Estado. É importante que o senhor Cláudio Weber Abramo seja tão rigoroso como tem sido, à frente da Transparência Brasil, na análise dos atos do governo federal, e não tolerante com atos que envolvam uma parcela menor, em especial um patrimônio cultural, como é a vida e obra da atriz Lélia Abramo, sua inesquecível tia.
Ainda sobre o Sindicato de Artistas e o Estado: não foi um punhado de desavisados que votou leis que determinam taxas e recolhimentos pecuniários, que engrossam o caixa da entidade em questão e que permite uma retirada mensal (vergonhosa), por parte da presidente citada acima. Não são os poucos reais que o telegrama insiste em devolver, e sim as tarifas votadas pelo Congresso Nacional, sancionadas pelo presidente da República, quando a Lei entrou em vigor. Portanto, isso diz respeito a todos nós.
É preciso dizer que a questão em si não responsabiliza diretamente o presidente da República, nem o ex-Ministro, nem o jornalista citado, contudo é um dever de todos cuidar para que não morramos de vergonha com mais esse episódio que pode passar impune.

Jair Alves -Dramaturgo/SP



(*) Ex-diretor, Tércio Marinho do Nascimento Filho, foi diretor do sindicato na gestão anterior e hoje faz parte de uma centena de profissionais que protesta contra esses atos ilícitos.

(**) Presidente do Sindicato, há vinte anos no cargo tem por nome -Ligia de Paula Souza.

OLHOS ESBUGALHADOS

ou
A Revolta Bandida

O que ela quer nos dizer com esses olhos esbugalhados, nos intervalos comerciais da Rede Globo? Ela está com medo? Medo de quê? Estamos falando da atriz Regina Duarte que, num passado não muito recente, dizia estar com medo. Pelo visto, agora ela está em pânico. É a metáfora do presente. Regina Duarte está em pânico.

Enquanto isso, atônita, boquiaberta, a população mais letrada assiste pela tevê os novos lances da guerra urbana, desenvolvida ao longo de décadas entre mocinhos e bandidos. Um lado perde feio nesse embate (nem mocinhos nem bandidos). È o lado onde ficam os (desculpem-nos) trabalhadores que tomam ônibus porque têm empregos no centro da cidade. Pior ainda, são esses trabalhadores que sempre têm um membro da família trabalhando como soldado raso, carcereiro ou escrivão, quem sabe até um filho ou um namorado. Ninguém está livre desse martírio. Já não é a violência que a classe média tem a ilusão de se proteger com vidros à prova de balas. É o terror que nos assalta em qualquer canto, nos cinemas, bares, supermercados e igrejas (esperem para ver).

Quando começou? Ontem? Essa violência vem de há muito. As causas sociais vêm de algumas décadas, plantadas pelos governos militares, sacramentadas ao longo de dois governos do PSDB. As causas carcerárias no Estado de São Paulo vêm desde 1995. O ponto de partida é o estopim do massacre do Carandiru (1992), quando ainda havia um pouco de compaixão, distribuída entre os corações que habitam este rico e agitado Estado. Pouco tempo depois, quebrando uma seqüência de governos PMDBistas, o PSDB aproveitou-se da euforia da população que pacificamente se revoltou contra os desmandos federal e estadual - Collor e Fleury. Em parceria com o irmão PFL, o PSDB sentou na cadeira do poder. Nos dias de hoje, esse mesmo governo larga os comandos da Capital e do Estado nas mãos de seu irmão mais truculento. Quando assumiu o comando do Estado de São Paulo apresentou como solução para as prisões superlotadas a velha máxima aristocrática de que os bandidos devem ser afastados do alcance da sociedade. Comporta-se como se a escória nada tivesse a ver com o que eles comeram. Comporta-se em relação aos encarcerados como se eles fossem fezes, e de fato o são, aos olhos dessa aristocracia tardia. Reproduzem o degredo, assim como fizeram os almirantes com os revoltosos da Chibata. A escória da sociedade deve ficar reclusa em locais como a Ilha das Cobras, Alcatraz. Mas, o Estado de São Paulo não tem Ilha disponível, dessa forma: “vamos distribuir esses malandros por todo o interior. Quem sabe, assim, eles ficam bem longe dos grandes veículos de comunicação e lá hão de apodrecer”.

O tiro sem dúvida saiu pela culatra. As famílias dos encarcerados também se mudaram para esse pacato interior, para cidades como Mirandópolis, Hortolândia, Pontal, Santa Bárbara do Oeste, ajudando assim a socializar também a miséria. Os novos aristocratas não contavam que o surgimento do celular, um produto dos privilegiados, passasse a ser um instrumento de libertação e revolta dos criminosos. Ai então a coisa degringolou de vez. Despirocou, como costuma dizer o secretário de segurança, que mais parece um personagem recém saído de um episódio do Agente 86.

Lembrando João Cabral de Mello Neto: “Não se defende só com palavras a vida. Há que se mudar o rumo dos rios”. No entanto, os modernos bufões continuam numa bravata só, dizendo o que não fizeram. Nem precisam dizer que nada fizeram. Os resultados de oito anos de arrocho na economia e a propagação de uma política perversa atingiram não só os condenados por crimes contra a vida humana ou contra o patrimônio, mas também seus aliados - pequenos comerciantes, gente conservadora mais honesta. Todos foram enfiados numa vala comum. Quanto a eles, os homens de cabelos grisalhos nas laterais da cabeça, sim, porque a maioria pouco pelo tem na região central do crânio, bem como pouco juízo. Entre seus comparsas reclamam que não têm capilaridade social, é verdade. Da mesma forma como não têm capilaridade no centro do crânio. Os resultados de oito anos estão dando seus frutos agora. Na contabilidade macabra do dia-a-dia destacam os jornais: “189 pontos de ataques, 37 ônibus queimados, 16 mortos”. Essa imprensa retrata o que vem ocorrendo, com a mesma frieza que Galvão Bueno comenta os chutes a gol, o percentual de posse de bola de cada equipe. É o fim, não do jogo, e sim da picada.

Tempos atrás o governador atendeu a um chamado de um bandido, encurralado na casa do apresentador Silvio Santos, para negociar a sua rendição. O mais incrível é que ele (o governador) foi, como quem estava indo à inauguração de uma ponte. Foi participar de uma cena da tragédia humana, mas para ele apenas mais um evento, a oportunidade de aparecer na mídia. Parece brincadeira, mas ele foi. O marginal que parecia também não ter muito juízo andou prometendo falar muita coisa (só na frente do juiz).O tempo passou e num final de semana, já dentro da prisão, começou a sentir dores estranhas, e acabou como a maioria dos detentos - morto antes do tempo, envenenado.
Parece brincadeira mesmo, mas ele, o governador, continuou fazendo outras coisas e nós da classe mais equilibrada, dessa que mora no centro ou nos jardins, não falamos nada. E se falamos algum gaiato haverá de protestar, dizendo que estamos quebrando alguma norma eleitoral. Mas nós não podemos esquecer o que se passou na tela da tevê, com igual audiência de um último dia de Big Brother Brasil. Um fugitivo da Lei pediu a presença do governador, hoje candidato à presidente do Brasil, e ele foi. Mesmo tendo um secretário que sonhava ser prefeito da capital, já usando seu terninho de personagem do Agente 86.

Agora entendemos o medo da atriz Regina Duarte. Na sua verve premonitória ela dizia, há quatros anos atrás, que estava com medo. Ela estava com medo que isso tudo poderia não dar certo, e não deu. E ela que sempre se orgulhou ao dizer que seu líder político era um homem vitorioso, hoje, por ironia do destino, interpreta uma mulher que de cara perde o marido, assim na moral. Estrela uma novela, cuja idade média dos personagens está na casa dos 60 anos, em mais uma ação social da tevê Globo - a primeira novela feita para e pela terceira idade. O marido da estrela se chama Gregório. Existe nome mais aristocrata cafeeiro? Qual é o
Latifundiário que não teve um avô, um tio por nome Gregório? Freud explica.

Tudo está ruindo, e mais uma vez quem paga a conta somos nós que nada temos nada a ver com isso. Que diabo é esse?


Jair Alves - Dramaturgo/SP

BUSSUNDA E O JORNALISMO SÉRIO DOS CASSETAS

Talvez seja essa a melhor oportunidade para homenagear um dos poucos a praticar um jornalismo sério hoje no Brasil - a produção das piadas do Casseta & Planeta. No melhor estilo, tal como naquela manhã de sábado fatídico (morte prematura de Cássia Eller), acordamos com a pior piada que um humorista pode nos contar - a sua própria morte. Foi assim e ponto. E nós que já nos acostumávamos com o desaparecimento de Golias, vendo todos os dias o Parreira planando pelas imagens da Globo, com sua cara redonda e sorriso enigmático, estamos a partir desse momento à procura de um substituto para as canastrices de Bussunda.

A primeira piada que lembramos de Bussunda, ainda que de mau gosto, reporta os tempos da Revista Casseta Popular, impressa, sem ainda a parceria com o pessoal do Planeta Diário. Era um anúncio para quem estivesse interessado em perder uns quilinhos, em poucos minutos. Primeira foto, um sujeito gordo dizendo que tinha a fórmula para perder 40 quilos num segundo, bastando para isso comprar o manual. Segunda foto, o mesmo sujeito gordo (Busssunda), sorridente, com as pernas sobre os trilhos da Central do Brasil, decepadas pelo trem do subúrbio carioca. Esse mau gosto de linguagem abriu as portas para um humorismo sério que classificamos como o melhor jornalismo contemporâneo, em oposição ao jornalismo partidário (disfarçado de sério) que se pratica na grande imprensa nos dias atuais. A turma dos Cassetas nunca se importou com os chavões de, em certas situações, serem comparados às piadistas pouco éticas. Não se importaram de fazer piadas sobre negros, português, mas ninguém como eles estiveram ao lado dos pobres, negros e oprimidos. Nunca se preocuparam em esconder sua predileção política partidária, por outra, nunca deixaram de praticar a profissão escolhida (humorismo), com independência, sem poupar ninguém.

Bussunda sacaneou a todos, a ele inclusive, nesta manhã de sábado. Por alguns minutos chegamos a pensar tratar-se de uma baita de uma farsa, tal como aquela do Orson Welles, quando por algumas horas apavorou grande parte dos EUA transmitindo pelo rádio uma invasão de marcianos. Lamentavelmente, não se trata de uma piada, nem de mau gosto.

O que resta dessa brincadeira séria é que depois de terminar seu mandato (ou seria mandatos), Lula e, depois de pendurar as chuteiras, Ronaldo possam se candidatar a assumir o lugar de Bussunda, nos Cassetas. Seria a maior sacanagem que seus companheiros de profissão escolhida poderiam reservar ao gordinho charmoso.

Vai com Deus Bussunda e pára de sacanear.


Jair Alves – dramaturgo – São Paulo

NO ALTAS HORAS, ALTOS PAPOS, ALTOS FUROS!!!!

Neste último sábado, no programa Altas Horas, seu diretor e apresentador SG pautou como tema a violência da invasão na Câmara Federal, durante a semana. Convidados para debater e vender o próprio peixe, o Grupo Rapa (representado por Falcão, seu líder e vocalista); o compositor Nando Reis e, por último, um casal de jovens atores da Tevê Globo (desculpem-nos, não conseguimos gravar seus nomes).

Comecemos por Falcão: depois de condenar timidamente a violência da invasão, disse tratar-se de uma situação corriqueira, onde as instituições vigentes não conseguem atender a demanda social. Falcão está errado, ouviu essa frase de efeito em algum canto e não compreendeu a complexidade do que estamos vivendo no Brasil hoje. Em seguida, se diz decepcionado com Lula, de quem gosta tanto, mas que não consegue ver como o atual presidente possa ajudar. Falcão continua errado, outra frase de efeito e acaba fazendo coro a uma campanha reacionária que têm objetivos explícitos - derrubar e desacreditar o atual Governo. Em seguida, falou Nando Reis que, na condição de astro nacional, arriscou dizer que tudo está de fato muito ruim, “um desrespeito geral, por parte dos políticos...”. Outra frase de efeito, mas prometeu uma reação em outubro. O que ele quer dizer? Está legitimando o pleito no segundo semestre? Quer dizer que elegeremos representantes mais honestos e competentes? Faltou dizer onde estão e quem são esses novos representantes do povo!!!

Para finalizar, falou o jovem casal de atores que, pelo visto, sabe bem menos do que aquela platéia jovem e sedenta de informação. Não usaram nenhuma frase de efeito, mas não conseguiram dizer coisa alguma. Não há como ligar esse casal de atores à mesma categoria que eu e meus companheiros artistas pertencemos. De fato, eles habitam um universo e anseios que nada tem a ver com a maioria dos artistas brasileiros. Não vejo neles nenhuma má fé, mas por outro lado também não vejo neles outra intenção que não seja a própria realização pessoal. Sendo assim, seria melhor que ficassem calados, pois a confusão pode aumentar ainda mais.

Não é a primeira nem será a última vez que o bordão se repete - disseminando o caos, a desesperança, para implantar o embuste. Nesta tarde de domingo, o candidato da oposição ao Governo Federal, que em São Paulo é governo, diz que se ganhar a eleição, em outubro, vai fazer uma devassa. Mas, em São Paulo ele é governo, portanto não distante dos reclamos da população em pânico. Ele prega também uma devassa no Governo Estadual? Essa afirmação, mais uma, produzida pelos seus assessores, nada mais é que uma frase de efeito e a senha para compreender a farsa montada. Nenhum dos opositores ao governo federal, nem os governadores de Estado, como o Rio de Janeiro, Minas, Rio Grande de Sul e São Paulo apresentaram alternativas que, de fato, possam resolver os grandes problemas da Nação brasileira. Ninguém falou de redistribuição de renda, justiça social ou coisa parecida. Esse é um tema proibido para o status quo. Além de exigir perda de privilégios, reivindicar distribuição de renda e justiça social deixaria descoberto o que de há muito se procura encobrir. Os temas como corrupção e malversação do dinheiro público é tão vago como incentivar a juventude a sair às ruas para protestar, sem causa. Um governo reacionário não pode e não encontrará na juventude do auditório do SG e do JS eco para seus acenos. Talvez, por isso mesmo esses jovens - Falcão, Nando Reis e o casal de atores da Globo não tenham o que propor, a não ser ‘que devemos nos unir’. Em torno de quem, meus amigos???

SÃO PAULO, O MAPA DO CRIME

Nas últimas 72 horas o crime organizado começou a mostrar suas garras e, com ele, um outro tipo de crime da mesma natureza - o crime da consciência. O cidadão mediano, com todo direito à informação, está atordoado com a incompetência e má fé do jornalismo diário, em alguns casos, que a essa altura do ano já poderia ter sugerido pautas de discussão com a população que poderiam preencher páginas e edições inteiras, propondo soluções para os graves problemas que o país atravessa hoje, dentre eles a violência organizada do crime. Com toda certeza, os veículos de comunicação, mais precisamente os jornais impressos e as tevês, seriam importantes fóruns para a população manifestar suas preocupações. Ao contrário disso, o que assistimos ao longo de quase um ano foi uma sucessão de mentiras e denúncias, coladas a objetivos partidários claros. Daí veio a hecatombe desse final de semana e, junto com ele, a ferida aberta. Melhor ir aos fatos:

1- Na noite desse domingo o jornalista Pedro Bial, respeitado pela sua imparcialidade e competência, comandou um show melodramático no programa Fantástico, exibido pela tevê Globo, onde não faltou criança de cinco anos, chorando pela morte do pai, um policial morto. Somos irrestritamente solidários à família desse soldado e também àqueles que nada têm a ver com o conflito, mas que estavam na linha de fogo, porém esse melodrama não resolve, só prega uma sensação de impotência, nada mais. Tudo bem que Pedro Bial seja apenas um apresentador e que a decisão sobre pautas e enfoque são daqueles que estão atrás das câmeras, mas ele continua sendo uma referência para a população, daí a preocupação;

2- Nessa mesma noite, o Governo Estadual, através de sua Secretaria de Segurança, com sua costumeira arrogância, diz que “a situação está sob controle e que a polícia do Estado virou o jogo”. Ficamos imaginando, aqui com nossos botões, o quê mais precisa acontecer para que esses senhores tenham a humildade de reconhecer que falharam, ou que não conseguiram controlar o crime e suas manifestações mais nefastas. Nenhuma pista, ainda, do que realmente estava acontecendo;

3- Chega a segunda-feira, vem o que mais ou menos se esperava, ou seja, a responsabilização do Governo Federal pelo ocorrido, por parte de uma parcela da imprensa. Um dos bloguistas da Folha de São Paulo, atuante crítico do governo federal, é claro, publica a seguinte matéria, cujo título é, “GOVERNO FEDERAL DIMINUI A VERBA PARA A SEGURANÇA EM 2005”. Na opinião do jornalista, foi encontrado um culpado pelos motins e caos instalados, na cidade de São Paulo, desde a última sexta-feira. O mesmo havia acontecido, por ocasião da crise financeira da Varig, do gás da Bolívia e, agora, da segurança no Estado de São Paulo. Ao ler a notícia, o desavisado leitor encontrou num dos itens dessa matéria, o informe de que o dinheiro reduzido era destinado para projetos especiais, só isso. Mas, o jornalista responsável pela matéria, não dá pistas para o leitor entender que essa diminuição de verba nada tem a ver com os tumultos, ainda em pleno andamento. Ele não explica, por desconhecimento ou má fé, que a verba citada trata-se de um Fundo e não de uma dotação Orçamentária, portanto o seu fluxo de caixa não depende de restrição anual, e sim de programação e execução. Este fundo não serve, por exemplo, para pagar melhores salários, pois os mesmos são pagos com Orçamentos dos Estados. Por outra, o jornalista nada fala sobre o que está acontecendo em São Paulo, como resultado de uma política carcerária criticada, inclusive, pelos seus parceiros de governo (Chefe do Combate ao Crime Organizado). Não diz, também, que a falta de controle do que acontece dentro das prisões não é necessariamente falta de verbas. Sem contar que o corte, ou redução dessas verbas do orçamento anual, em última análise, é votado pelo Congresso Nacional, que todos sabemos está abaixo do rabo de cachorro, se depender da opinião da população. Mas não é só isso. A coisa começa a feder na matéria-manifesto, quando se vê que essas informações foram capturadas por outro jornalista bloguista, do mesmo jornal, que pescou as mesmas num site de uma ONG, denominada CONTAS ABERTAS. Começa aí o crime contra nossas consciências.


“GATO ESCALDADO TEM MEDO DE ÁGUA FRIA” e, portanto, o melhor a fazer é checar as informações. Ao procurar na Internet, logo encontramos o site da referida ONG, CONTAS ABERTAS, com sede em Brasília, Estatuto votado em setembro de 2005 e objetivos da mesma, os mais genéricos. Já informações sobre seu corpo diretivo, nenhuma. Ai foi só ter um pouco mais de paciência para descobrir, na própria Internet, numa dessas notícias plantadas para promover seus criadores, o nome do seu presidente, Augusto Carvalho. Sendo um nome tão comum poderíamos encontrar centenas de Augustos Carvalhos, mas mesmo assim arriscamos, só que dessa vez colocando o nome do Presidente da ONG, CONTAS ABERTAS e, BINGO! Trata-se, pasmem, do Deputado Federal, Augusto Carvalho, pelo PPS, ou seja, ONG criada para sentar o pau no governo brasileiro e dar suporte à campanha do mesmo, em 2006. Esta é a é imprensa eficaz e moderna que se faz hoje em dia.

O noticiário diário está salpicado de eventos como esses. ONGs, criadas do dia para a noite, entrando e saindo do noticiário nacional e, o que é pior, deixando um rastro de problemas que absorvem somas financeiras consideráveis da administração pública. Pouco se fala a respeito, mas esses organismos híbridos exigem que o Estado aumente de tamanho para a sua regularização e fiscalização. São milhares de ONGs criadas anualmente, geralmente com tributação zero. São leis que favorecem o surgimento de mecanismos anônimos que, ao final, não responsabilizam ninguém pelos seus feitos. No caso da ONG Contas Abertas, quem são seus diretores, além do deputado já citado acima? Há um ano ela nem existia, no entanto passa a ser a única fonte para que a Folha conclua que “o culpado pelos distúrbios na capital paulista é o governo federal”. Mas, esses mesmos jornalistas, especializados em blogues, não contextualizam os tumultos desse final de semana no cenário internacional, nem os interesses de países como os EUA e outros que se sentem ameaçados pela crescente independência da econômica brasileira. Com o costumeiro provincianismo e ufanismo, reproduzem capas dos jornais internacionais, sobre esses eventos escandalosos. Nenhuma linha sobre o que mantém o tráfico de drogas, que sustentam as organizações criminosas.

Para finalizar, na tarde dessa segunda-feira, esse mesmo jornal publica a seguinte manchete, sobre a reunião do Presidente da República com seu conselho político: “LULA DESCARTA INTERVENÇÃO EM SÃO PAULO”. O presidente não descarta nada, ele, constitucionalmente não determina que forças federais venham a assumir o controle do policiamento em São Paulo, como também em nenhum outro Estado, a não ser que o governador o peça. Para o governo de São Paulo pedir ajuda federal significaria assumir a incompetência para governar, demonstrada desde de há muito. Na paródia, podemos perguntar, o presidente Lula tem outra saída? Quem sabe rasgar a constituição, imitando Bush que invadiu o Iraque, sem autorização do Conselho de Segurança da ONU. Mas aí é discutir geopolítica internacional, e isso está muito longe do alcance dos jornalistas, bloguistas, da Folha, Estadão, Veja, Isto É, etc.

Mas nem tudo está perdido. No final do jornal Nacional dessa segunda-feira fatídica o jornalista Willian Boner, transmitindo da rua, em São Paulo, entrevistou o atual governador do Estado, Cláudio Lembo, direto e ao vivo do Palácio dos Bandeirantes. Sem ser grosseiro, este jornalista encostou o dirigente máximo paulista na parede, com três perguntas que, ao final, ficaram sem respostas convincentes:

a) Se a rebelião era do conhecimento do governo paulista, por que não foram tomadas medidas para impedir a tragédia que aconteceu?
b) Por que o governo paulista recusou a ajuda federal para diminuir o tamanho dessa tragédia? Pior, por que o governo continua a se negar a receber ajuda, quando já se conhece a conseqüência de uma nova e possível rebelião?
c) O Governo de São Paulo negociou o fim da rebelião com os presos?

As respostas não convenceram, ou melhor, a quem convenceram?

Cai o pano!

FRAUDE À VISTA

A pergunta é simples e direta: quem são esses candidatos que disputarão as eleições à presidência da Republica este ano? Em tese, alguns nomeados pela imprensa diária. De fato e direito, apenas um ou dois, dos chamados partidos pequenos - PPS e Psol são verdadeiramente candidatos. Nenhum deles, no entanto, concorrendo oficialmente, ainda. O atual presidente Lula continua relutando lançar sua candidatura, antes do prazo limite a que tem direito.
O partido que tem sido o fiel da balança, o PMDB, está literalmente dividido nesse momento, não sabe ainda se terá candidato próprio. O dito candidato da oposição, apesar de postular-se como tal, ainda corre o risco de desocupar a moita, caso sua aventura não decole, como é dito dentro de seu partido. Nessa semana, um malfadado bloguista, de um dos maiores jornais sediados na capital de são Paulo, acabou dando a pista do que vem ocorrendo nos bastidores - o candidato do eixo PFL/PSDB pode não ser o ex-governador de São Paulo. E aí, como ficamos?
Tomando a liberdade de falar em nome da maioria do povo brasileiro, afinal, que mal há nisso, se virou moda parlamentares ‘indignados’ vir à tevê e aos jornais, falando em nome da dignidade do povo brasileiro, ofendido com as mazelas cometidas pelo atual governo federal?! Como não nos sentimos aviltados com as mesmas coisas, tomamos a liberdade de falar àquilo que, em nossa modesta opinião, é uma pouca vergonha, uma ilegalidade.
A rede formada por parlamentares do PSDB, PFL e setores significativos da imprensa diária bombardeou o governo Lula, desde os seus primeiros dias, mas não teve como explicitar qual seria o seu programa de governo. A que virão, afinal? Nem ao menos foram capazes de reformar o Palácio Alvorada, em oito anos de reinado; se nem ao menos conseguiram substituir o avião presidencial, em frangalhos!!! O que poderiam oferecer, agora, para o povo brasileiro? Segurança? Não parece mais factível essa promessa, pois uma delegada carioca, cuja missão diária é investigar e perseguir traficantes, veio à tevê e disse: “não adianta matar bandidos e colocar os chefões na cadeia, estamos fazendo isso, nas ultimas duas décadas, e não acabamos com o crime organizado, ele prosperou! Precisamos impedir que os bandidos continuem nascendo e prosperando!” E disse, ainda: “não se acaba com o tráfico, quando a classe média e principalmente as mais favorecidas alimentam, direta e indiretamente o tráfico, consumindo drogas”. Como se vê, o buraco é bem mais em baixo e a discussão muito mais profunda.
A dita oposição tem dificuldades em apresentar um programa de governo, porque não o tem. Seu projeto não contempla a maioria da população, e sim seus próprios interesses. Reside aí a mágica que não convence. É difícil porque, ao explicitar, o tiro atingiria o próprio pé. O amordaçamento da imprensa livre já é um fato, ou alguém duvida? Mas, onde iríamos explicitar isso, a não ser na própria imprensa? Enfrentamos aí o primeiro paradoxo. O Partido dos Trabalhadores também tem sua parte de culpa por essa situação chegar a esse limite. Seus dois ex-presidentes, José Dirceu e José Genoino, por exemplo. As primeiras degolas dessa crise aconteceram justamente contra eles, que desprezaram esse componente conspiratório. Deu no que deu! O PT sempre achou que não deveria abrir fogo, contra os abusos de segmentos da imprensa diária, deu no que deu! O governo Marta Suplicy chegou a confessar, nos bastidores, que tinha um acordo com a Folha de S. Paulo, deu no que deu!
Quando setores significativos do PSDB ainda apostam na candidatura Serra, que não honrou sequer seu compromisso com a população da cidade de São Paulo, quer dizer que o projeto não é outro, senão o de recuperar as vantagens de ser poder e, agora, aniquilar de vez os movimentos que representam efetivamente a sociedade civil. Não importa, para esse segmento do PSDB, seus aliados - o PFL, e grande parte de proprietários dos meios de comunicação se serão utilizadas expedientes, condenadas pela moderna civilização, tais como, prisões ilegais, processos forjados, torturas, se necessário. Alguém duvida que uma enxurrada de processos criminais será instalada contra culpados e, principalmente, contra inocentes, na eventualidade de um governo PSDB/PFL? A demonstração da truculência, nos últimos meses, não foi suficiente para sugerir o que pode vir pela frente? Faltou, é claro, uma discussão profunda e profissional, através da imprensa, sobre tudo, absolutamente tudo o que ocorreu...Bem, mas aí voltamos a questão inicial - não existe imprensa livre, as exceções estão aí para confirmar a regra.
Era de se esperar que, num clima de tamanha liberdade individual (?) o teatro, os jornais, o cinema, estivessem fervilhando com discussões sobre tudo isso, absolutamente tudo. Paradoxalmente, é comum nos dias de hoje o chamado “repercutir”. É comum ver uma apresentadora, diariamente na tevê, jogar sobre sua mesa, jornais e revistas, e comentá-los, durante todo o programa. Existe uma doença contagiosa, chamada “pauta única”. Todos os veículos discutem os mesmos assuntos, as exceções confirmam a regra. Esse é preço que a democracia paga pelo subdesenvolvimento da imprensa (parte dela, é claro). Existe uma distância entre a Lei e o que essa parte significativa da imprensa interpreta como sendo essa lei. O ex-ministro do Superior Tribunal, Nelson Jobim, cansou de dizer isso.
Alguns combatentes (não importando o lado em que estejam) têm se referido sobre o momento presente, como um clima de guerra. É verdade, nessa versão caseira de guerra total, eixo do mal é representado pelo PSDB/PFL e segmentos expressivos dos meios de comunicação. Uma cópia mal inspirada do que foi a tragédia Berlim-Roma-Tóquio, no passado. Se verdade que a tragédia se repete como farsa, estamos vivendo uma perfeita representação de bufões.
Mas, o povo não quer guerra -o povo quer pão, trabalho e liberdade.

Jair Alves – dramaturgo – São Paulo

LULA, O EXCOMUNGADO!!! LULA, O EXCOMUNGADO!!!

ou "O festival de aspas"


1801. Cân. 1 - Se alguém negar que há um só Deus verdadeiro,
Criador e Senhor das coisas visíveis e invisíveis - seja excomungado [cf. nº 1782]

Está na ordem do dia a excomunhão. Pois, então, "excomunguemos Lula, antes que ele vire santo. Virar santo pode, mas só depois de morto. Morto não governa, não nomeia ministros (da fazenda, da cultura, da justiça), nem presidente de Estatais, tão-pouco pode ser votado, nas próximas eleições".

Entre mandar matá-lo, assim como sugeriu um líder religioso, há poucos dias, nos EUA, referindo-se a Hugo Chavez, e excomungá-lo, assim como pensa seus opositores, "excomunguemo-lo", diria Jânio (o Quadros, não o de Freitas, da Folha). Para isso, é preciso criar um pecado. ISSO É FÁCIL. Demora algumas semanas, "mas vamos conseguir".

A excomunhão, segundo canones católicos, tem duas vertentes e duas formas que justificam sua aplicação: latae sententiae, de aplicação imediata, a partir de um delito já descrito como pecado, e ferendae sententiae, neste caso, sendo necessário um juiz ou um Superior para aplicá-lo. No mesmo código católico, define-se o "dolo", em matéria penal, como a vontade manifesta de violar a lei. Isso vem quando o delituoso demonstra não mais vontade de pecar. Aí, cessa a pena.

Por exemplo, em abril último, antes do inferno astral vivido pela família de São Bernardo, o arcebispo D. Eusébio Scheid, do Rio de Janeiro, tentou enquadrá-lo na excomunhão, por latae sententiae. Motivo: Lula era comunista, logo, um condenado pelo decreto contra o comunismo de Pio XI, a excomunhão. Mas, Lula sempre foi anticomunista!!! (não praticante, é verdade). Como conseqüência, a coisa não prosperou. Naquela oportunidade, petismo ainda não era um pecado mortal, nem por decreto, nem moralmente. Hoje é diferente, trabalha-se para colocar o partido do presidente na proscrição. Bastou uma câmera na mão (ou na bolsa) e três mil reais, em macinhos de cinqüenta para tudo se transformar em crime, na seqüência dos fatos e nas edições das entrevistas semanais. Elevou-se o fato de ser petista, num ato tão condenável como ser comunista no passado. Mas, Lula ainda continua dizendo ser petista (e como muito orgulho, disse ele ontem!!!).

"E se não der certo essa estória de excomungá-lo, teremos que mandar matá-lo, assim como previa a atriz Lélia Abramo, em 89?".

Mas ela, Lélia, morreu antes da tragédia acontecer.

Não, não, não é uma boa idéia. Vamos insistir nessa estória do latae sententiae. Diz o código dos homens que você não pode ignorar a Lei, só que o código dos homens tem essa estória que todo cidadão é inocente, até prova em contrário. Temos que encontrar um crime, o que não se pode permitir é que ele se candidate novamente".

E se for formulado uma acusação que leve a um julgamento público, com direito a defesa e tudo o mais?

"Isso, pelo amor de Deus, isso não pode acontecer. Além de Santo vivo, ele pode mostrar que teremos que mandar matar muita gente que pensa exatamente como ele, e aí a coisa fica feia. Mas, quantos serão? Não sabemos, se a moda pega, já pensou?".

E se ele for julgado por um crime que não cometeu?
"Isso é suicídio, e ele disse, 'suicídio não é comigo', então, não vamos embarcar nessa furada".
Enquanto isso, no dia-a-dia da imprensa, vão surgindo candidatos a Carlos Lacerda que, afinal, foi o grande inimigo do presidente suicida. Isso é um fato. Nessa semana, um funcionário da Folha de São Paulo foi ao programa do Jô, uma espécie de revista Cruzeiro da era Vargas, e chama o presidente do Brasil de "esse sujeito". Ontem, após o pronunciamento de LULA, uma cientista política lamenta, "Dá uma tristeza. Se o presidente tivesse estudado um pouco mais, não? Se tivesse feito um curso secundário bem feito... por que ele faz uma confusão...Getúlio Vargas não se matou por causa da crise. Ele se matou porque era um político frio e porque o suicídio sempre esteve dentro do cálculo político dele".

Logo, o Lula, além de excomungado precisa voltar para a escola?

"Não foi para escola porque não quis, não é? Por que ele não vai pra escola, cursa uma universidade e depois vira cientista político? Como a profissão de cientista político está difícil, você arruma um emprego de jornalista, no Estadão, na Uol e, de vez em quando, participa do quadro do Jô Soares, 'as meninas do Jô?".

Mesmo que a cientista e também jornalista venha cometer erros crassos, como dizer que Nixon recebeu impeachment pelo voto secreto, e não por voto aberto? Jornalista pode errar, promotor pode errar? Logo, Vargas se matou porque era um maníaco depressivo, não porque estava sendo vítima de uma conspiração. É melhor estudar e ser mais realista com a história. O suicídio de Vargas não teria postergado o golpe militar por 10 anos?

"Sem contar que suicídio é pecado e, de qualquer forma, é melhor estudar, coisa que Lula não fez porque não quis".

A parceira da cientista política, na UOL, também apresentadora de uma televisão de menor audiência, edita o pronunciamento de Lula, dizendo que ele "tentou resgatar fatos históricos, citando presidentes anteriores". Por que a inclusão da palavra 'tentou'? Existe um padrão para se referir a fatos históricos? Ele mentiu ao citar os ex-presidentes? Se mentiu, a manchete deveria ser, "Lula mentiu ao resgatar fatos históricos". Mas, não foi o que aconteceu. A apresentadora criminalizou mais essa manifestação do presidente eleito e no exercício do poder. E veja que o que mais se pediu nas últimas semanas foi para que ele falasse a respeito da crise. Mas, o que querem que ele fale, afinal?

"Queremos que ele confesse que cometeu um ato sabidamente delituoso, e prometa nunca mais fazer isso. Assim, ele estaria desexcomungado. Santo, de jeito nenhum".


Jair Alves - Dramaturgo/SP

QUEM É ESSE ROGÉRIO BURATTI?

A resposta, no momento em que vive o Brasil, com toda certeza, não virá sem antes destruir a própria ordem democrática, em nome da qual a ferida foi exposta, nesta última sexta-feira (19/08). Sabe-se que ele foi secretário de governo do agora Ministro da Fazenda, Antonio Palocci, durante os dois primeiros anos, dos seis em que este governou a prefeitura de Ribeirão Preto. Esta é a versão que fica para a grande maioria da população brasileira - NADA MAIS.
A histeria para a qual fomos jogados, nesses meses que antecede a eleição presidencial impede que um cidadão brasileiro use de instrumento legítimo da democracia, que é a desmoralização do acusador, quando seu ataque merece reservas ou, no melhor das hipóteses, averiguação. É o caso que se apresenta. Dessa forma, de nada adianta lembrar a cada eleitor que Rogério é suspeito de ser um contraventor, um criminoso. Tanto é verdade, que foi preso e, agora, recebe como prêmio a liberdade, não pela sua boa conduta ou inexistência de provas, mas por ter sido um delator. Ou seja, em nome da "ordem democrática", se joga na latrina a confiança de milhões de brasileiros, norte-americanos, sul-coreanos e japoneses e, porque não, toda estabilidade econômica vivida até sexta-feira pelo Brasil. Moral da estória: a acusação tem mais valor, nos dias de hoje, do que a esperança e todos os passos dados, rumo à recuperação econômica e à própria dignidade de quem as fez.
Mas, quem é Rogério Buratti, afinal??? Estamos impossibilitados de saber porque a Lei (alguns, diriam, "a Lei, ora a Lei!!!") não está preocupada em descobrir como se forma um delinqüente e/ou criar mecanismos de prevenção contra essa delinqüência, pelo contrário. Podemos contribuir com algumas informações para se conhecer um pouco do que foi Rogério Buratti e por que, num momento tão delicado da história da Nação, ele vem à luz dos refletores. Vamos lá.
Conheci Rogério Buratti, certa tarde, em 1986, quando fui até o comitê de campanha do candidato à Constituinte, o jornalista Jorge Batista (já falecido), a pedido do então candidato a deputado estadual, José Dirceu. Foi José Dirceu quem me apresentou Jorge e não o contrário. Nesse local, fiz uma apresentação teatral, naquele final de semana. Rogério me recebeu, abrindo o portão da casa, alugada para aquela finalidade, com as mãos sujas de tinta de uma máquina off set que teimava em não funcionar, ao imprimir panfletos para a campanha do jornalista. Sua camisa azul era um misto de cores escuras e gotas de tinta vermelha. Naquele gesto humilde de quem não quer provocar constrangimento ofereceu o antebraço para me cumprimentar. Essa foi a primeira imagem do Rogério. Ao me aproximar da grande legião de jornalistas, intelectuais, artistas que apoiavam a candidatura do ex-editor da revista Isto É, percebi que ele, Rogério, não inspirava grande simpatia da maioria do grupo de "apoiadores", mas ele estava ali mais disponível do que os demais. Todos tinham uma profissão a exercer, ele não, estava trabalhando tempo integral. Vinha de Osasco, base popular e operária do ex-preso político, Jorge Batista. Segundo a mulher de Jorge, Ana, "nem ela ousava se meter".
A tragédia acompanha par e passo cada lance da trajetória desse partido que, agora, passa pela sua maior e talvez derradeira crise. Após sua derrota na eleição para deputado federal, à véspera do Natal daquele ano, Jorge, sua mulher, Ana, e seu filho mais novo morrem em terrível acidente rodoviário, apenas seu filho, Manoel, sobrevive. Início de janeiro de 1987, igreja de Perdizes, eu lia os textos junto com José Dirceu, na missa em homenagem ao jornalista morto. Lá estava Rogério, falando em nome da militância operária de Osasco. Na sua limitação vocabular repetia palavras para expressar o que sentia, tal como ontem, sexta-feira, frente às câmeras de tevê. "O Jorge morreu, o Jorge morreu", repetia, como quem não está entendendo o que está vivendo. O mesmo de ontem.
Mas, quem foi Rogério Buratti? Ele foi um daqueles que, na miséria social em que vivemos, se aproveita de uma brecha aqui acolá e vai crescendo, até que um dia, por um fato grave, é expulso da história. Não tenho dúvidas de que ele faria o mesmo em qualquer partido, de direita ou de esquerda. Nunca vi nele um gesto que pudesse identificá-lo como um apaixonado pela causa, equivocado que fosse. Sempre que era chamado a falar repetia jargões partidários e análise sintética de quem defende a posição partidária de seu grupo, nada mais. Nunca fez uma análise própria de qualquer situação, dificuldade que demonstrou ontem frente às câmeras de tevê. É normal que se sinta abandonado, mas por quem? Rogério estaria fazendo referência aos doze anos que se dedicou ao partido, do qual foi "convidado a sair" há mais de 10 anos? Ao se referir a um dos homens mais importantes da política atual (palavras dele), não demonstrou publicamente sua decepção por algo que sequer entende? Se entendesse veria facilmente que um contraventor não recebe solidariedade de homens públicos, tão pouco de ex-patrões com grande inserção nos negócios de recursos estatais. As regras do jogo político-partidário não oferecem espaço para generosidades. Mas ele, Rogério, não entende assim, mesmo que a imprensa insista em chamá-lo de advogado, sem, contudo, ter exercido efetivamente a profissão. Alguns redatores arriscam chamá-lo de lobista, e essa profissão propicia alguns riscos ainda maiores que ele ainda não se deu conta, muito menos o Ministério Público que ontem deu a ele o direito de seguir o seu rumo.
Mas, ainda assim, quem foi Rogério Buratti? Em pouco tempo, por essas particularidades que só partido político oferece, Rogério foi trabalhar na Secretaria de Organização Estadual, como braço direito de outro personagem, também de Osasco, hoje figura nacional, o senhor Silvio Pereira. Outro que, também, tropeçando nas palavras e nas concordâncias se transformou num alto mandatário, até que 'involuntariamente' recebeu um veículo importado, como presente. Rogério, na Secretaria de Organização teve rápida ascensão e, em pouco tempo, lá estava Buratti coordenando a campanha para prefeito de Ribeirão Preto, no primeiro mandato, do agora ministro, Antonio Palocci. Após a eleição, tornou-se Secretário de Governo.
Ao ser flagrado em operação ilegal e inconseqüente (gravou reuniões com empreiteiros) foi exonerado, após pouco mais de dois anos de pleno poder na prefeitura de Ribeirão. De lá, em pouco tempo passou para o lado oposto, ou seja, foi vender sua agenda de influência, seu livre trânsito, como gostava de dizer. Seu envolvimento com atividade criminosa está para ser desvendada, mas não parece ser um real interesse de quem está investigando. Em pouco mais de dois anos o patrimônio de Rogério Buratti subiu de um carro na garagem e um pequeno apartamento para somas inimagináveis, mas isso parece não importar para quem investiga. Da mesma forma, como a segurança pessoal do acusado (de lavagem de dinheiro) parece não se importar. Isso é inevitável. A trajetória trágica do partido que ainda governa a Nação poderá se transformar na tragédia nacional. E aí é só juntar mais um caso enigmático aos casos não esclarecidos na história recente da República. A visível ilegalidade das tratativas para tomar o depoimento do acusado, em troca da delação e sua imediata divulgação, cujo objetivo não pode ser outro a não ser tumultuar a ordem democrática, não deixa dúvidas quanto ao que pode acontecer. Afinal, um promotor tem por obrigação se tornar um repórter obcecado pelos furos jornalísticos? Ou, na sua subjetividade, observar a conveniência de trazer a público uma acusação mais consistente e sem prejuízos irreparáveis, quando se trata da ordem institucional?
Sou apenas um artista, logo de opinião que pouco importa à Lei, à Ordem, a não ser quando essa opinião contraria os interesses do Estado e, como conseqüência, reprimida. No caso, humildemente defendo a legalidade. E termino fazendo uma singela pergunta: e se nada for provado contra quem foi bombasticamente acusado, nessa sexta-feira, como ficamos?
Na entrevista coletiva do Ministro da Fazenda neste domingo, Antonio Palocci Filho respondeu a todas as questões, inclusive sobre a afirmativa estapafúrdia feita por uma jornalista de que ele deveria provar ser inocente. Diante do exposto, só nos resta pedir serenidade de todos e que, há seu tempo, tudo seja investigado e punido, quando crime houver. Melhor seria também que o ex-Ministro José Dirceu, quando envolvido nas acusações, hoje motivo de CPI, tivesse tido a mesma coragem de se explicar para a Nação, no início dos tremores. É possível que a democracia não estivesse tão abalada.


Jair Alves - Dramaturgo

VERDE QUE TE QUERO VERDE E AMARELO!!!

Nas últimas semanas, por conta da execução do projeto Teatro, Cultura e Sociedade, temos convivido com depoimentos de expoentes da cultura brasileira, especificamente de pessoas ligadas à história do teatro brasileiro, dentre elas Etty Fraser, Marika Gidali e Renato Borghi. Impossível não relacionar a sinceridade dessa exposição pública, feita através de gravações e debates, com o caos a que fomos metidos de uma hora para outra. Enquanto de um lado pode-se ter acesso a um período de um Brasil jovem (pós-guerra), imperfeito, porém vibrante, de outro (na atualidade) tudo nos leva à desesperança e à sensação amarga que outro final não teremos, senão a submissão a interesses externos, alheios, portanto, à nossa vontade.

Para que o generoso leitor não fique ainda mais desnorteado, convém esclarecer que Teatro, Cultura e Sociedade é um projeto cultural, onde se pretende levar até aos estudantes universitários, informações a respeito da história do teatro brasileiro e a sua relação com a formação da cultura brasileira contemporânea. Tanto quanto possível procuramos descobrir em que momentos esse teatro não só foi testemunha da história, como também a própria história brasileira. Para tanto, foram convidados expoentes desse mesmo teatro e que disponham de tempo e vontade para contar e analisar sua contribuição com os avanços da sociedade civil brasileira. Desses depoimentos estão sendo produzidos documentos, que já se encontram à disposição de interessados no assunto, bastando procurar o que já foi publicado (*). Nosso enfoque neste texto - esperando contar com a boa vontade dos senhores - é vincular esse trabalho em curso à crise institucional a vista. Não é possível que os valores da sociedade brasileira caminhem rapidamente para o deboche, como se fossemos todos irresponsáveis e falastrões, impedindo o cidadão honesto de se rebelar contra aquilo que lhe parece mais gritante. O que se vê, em grande parte da imprensa escrita, é uma violência e um insulto à inteligência média de cada brasileiro. A denúncia vazia, sem a menor prova, na boca de um conhecido deputado corrupto, representante de um dos piores momentos da cena política brasileira, se transforma num feito capaz de sepultar os sonhos de milhões de brasileiros, sem a menor chance de defesa. As mentiras e acusações que esconde (ou não se importa em esconder) as próprias mazelas têm o mesmo peso de uma eleição presidencial. Por outra, a pregação diária na produção artificial de factóides, por parte dessa mesma imprensa, lançando pesquisas do tipo “você acha que o partido x acabou?” ou, “como funcionava a propina?”, mesmo sabendo que ainda nada foi provado e que tudo o que foi investigado ainda não veio a público. A certeza da impunidade desses predadores da imprensa brasileira leva-os a ignorar regras básicas da decência. Esse é o ponto que nos faz tão diferentes daqueles que, num passado não tão longínquo, construíram uma história republicana brasileira que, mais à frente, pretendemos reverenciar.

Neste final de semana, em um programa de televisão veiculado nacionalmente - o Canal Livre - o ministro da articulação política do governo foi entrevistado, em horário diferenciado. Comumente estas entrevistas acontecem ao vivo, porém o ministro estaria e esteve, no horário da veiculação, discutindo justamente os rumos da atual crise, com o chefe da Nação. Essa ‘cortesia’ da emissora aconteceu no sábado, uma vez que ele não poderia estar presente de corpo e alma, no show montado para o domingo à noite. Nem precisava, a presença física do ministro era só uma formalidade, e o mais importante nesse caso era montar um palanque para as figuras carimbadas da oposição desfilar. Não faltaram depoimentos de governadores, jornalistas, em sua maioria, engajados na sucessão presidencial. Um jornalista, da Folha de São Paulo, chamado a depor, chegou a sacramentar que esta crise se iguala ao depoimento do irmão do ex-presidente Collor. Após a entrevista serena do ministro Aldo Rabelo, o programa, aí sim ao vivo e sem a chance do expectador protestar, desfilou o que eles chamam “repercussão”. Curioso esse procedimento, pois a entrevista acabara de ser veiculada. Não se importaram muito com o conteúdo das respostas dadas pelo principal entrevistado da noite. Mais curioso ainda é a repetição de um bom mocismo, que chega a irritar. A generosidade expressa pela oposição representa a posição de que o presidente da república nada tem a ver com essa confusão, salvo ter demorado muito para agir na adesão de uma CPI. Mesmo o ministro repetindo que a prerrogativa das CPI’s é dos parlamentares e não do governo, o editor chefe do Canal Livre, atropelando muitas vezes o entrevistado, insistia não estar convencido. Diante do ministro sereno e pouco discursivo, o editor chefe repetiu apopléctico o seu ponto de vista. Mas, ele não estava ali entrevistando um convidado? Por que insistia tanto em dar sua opinião?

Nesta segunda-feira gorda, simultaneamente ao show interpretado pelo deputado assumidamente corrupto e contraventor da Lei Eleitoral vigente, foi armado um “furo de reportagem”, veiculado por uma agência internacional, para dar credibilidade. A notícia era que o ministro da Casa Civil, José Dirceu, por livre e espontânea iniciativa se demitiria, para, então, se defender das acusações e armar um contra-ataque do governo, na Câmara Federal. Nos diversos cantos do país, por alguns minutos, velhos companheiros e admiradores do ministro ficaram confusos, porém duvidaram que ele, ministro, fosse tão estúpido de cair nessa armadilha. O ministro não é demissionário e não pauta seus atos pelo que é noticiado na imprensa. Aí entram os nossos reais e bons atores do passado, daí a reverência a Etty Fraser, Marika Gidali, Renato Borghi e tantos outros.

Num passado, hoje longínquo para muitos, esses atores representavam a esperança de um Brasil em construção, uma República em construção, uma democracia em construção. Quando veio a truculência dos sucessivos golpes militares, esses artistas desprezaram o conforto de uma vida pessoal abastada e de sucesso para enfileirar-se, ao lado das principais vítimas dessa truculência, os jovens, os trabalhadores e o próprio país adolescente. Muitos usando apenas o instrumento de que dispunham, sua arte, alimentaram sonhos e eis aqui, afinal, o que vivemos hoje, uma democracia, se não social e econômica, como sempre sonhamos, ao menos representativa. Tanto é verdade que, apesar da desconfiança que um parlamentar provoca no cidadão comum, ainda hoje a maioria desesperadamente, a cada eleição, vê sua expectativa renovada. Uma parcela, lamentavelmente, ao longo dos anos, vem aderindo à violência como instrumento de sobrevivência, mesmo que isso a leve a morte prematura, mas aí são outros quinhentos. Na contramão, caminhando no sentido inverso de nossos grandes artistas de todos os tempos (esses serão imortais, afinal) alguns canastrões, bufões da vida nacional, são capazes de criar uma atmosfera de fantasia, a ponto de se fazer parecer real. Com isso, destroem não apenas sonhos, mas também instituições, a democracia e, por fim, o próprio Brasil. Dessa encenação, que por certo não terão como coadjuvantes os artistas citados acima, participa o ator deputado, o ator jornalista, o ator governador, num mesmo enredo. Ou seja, não nascemos como Nação, estamos definitivamente condenados a ser uma colônia, pior, escravos de uma outra civilização e interesses que vêm de fora. Uma esperança ainda nos resta, como diz o verso do cantor popular, ‘antes que um aventureiro lance mão’, teremos de novo os artistas a representar a alma nacional.

Jair Alves - Dramaturgo