Tudo o que não precisamos é de um corpo, como diz a canção, "estendido do chão". Isso é o que eles, urubus da democracia brasileira, esperam para os próximos dias. Este seria o subterfúgio para radicalizar e tumultuar a vontade popular. Cuidado, "o perigo mora na esquina", diz também a outra canção. Paradoxalmente, tememos o momento seguinte à desenhada vitória do presidente Lula, no dia 29 de outubro. Nesse Estado, o mais populoso do país, é bem possível que não seja razoável sair às ruas para comemorar, como se fez pacificamente há quatro anos atrás. Este desconforto é produto do quê? É o resultado do ódio e preconceito, disseminado ao longo dos últimos dois anos, em especial pela imprensa, comprometida com a candidatura tucana ao palácio do Planalto e, é claro, por ele mesmo, na sua ânsia doentia de chegar ao poder. Essa mesma imprensa terá responsabilidade histórica se, desde já, não se engajar naquilo que é fundamental para a saúde da democracia brasileira, qual seja, o respeito ao resultado das urnas. Se alguma tragédia ocorrer, as condições para que isso aconteça foram plantadas; não temos dúvida que a responsabilidade maior será dessa mesma imprensa, partidária, que não teve limites no seu engajamento. Torcemos, é claro, para que nenhuma tragédia aconteça, e que no dia seguinte, ao curar a ressaca eleitoral a vida do cidadão brasileiro possa retomar um ritmo menos hostil, como esse que vivemos agora. Que tudo pareça, sim, como um dia seguinte ao término de um campeonato de futebol. E por falar nisso, é bom lembrar o que se segue.
No dia 13 de maio de 1989, no primeiro comício como candidato oficial à presidente da República, Lula usava pela primeira vez a metáfora que o acompanha ao longo desses anos, comparando a labuta diária do povo brasileiro ao simbolismo de uma partida de futebol. Dizia ele "vamos ganhar o jogo no campo deles, com o juiz deles". Foi quase assim, ele acabou perdendo o jogo na prorrogação, com ao menos dois gols roubados. O seu adversário, atleta, não quis festa popular na Avenida Paulista, nem na Cinelândia, e em nenhuma praça pública desse Brasil. Tem início ali, com as sobras da campanha vencedora, muita festa prive, culminando com o povo nas ruas pedindo a destituição do malfadado presidente atleta. Mas, isso tudo se tornou história. Hoje, o que se desenha é um dilema ainda não diagnosticado, a saber: a voz das urnas será respeitada? Tudo indica que o aparato montado para inviabilizar a vitória triunfante de um governo, voltado para as aspirações populares, será usado para desmoralizar este feito. E se isso acontecer, estamos próximos de um confronto. É tudo o que não pretendemos. Os indícios dessa disposição já estão nas ruas, nos bares e padarias. Uma minoria mais atuante repete a cantilena difamatória, ouvida e lida na grande imprensa. Esbravejam coisas que nem mesmo conhecem. De qualquer forma, são os mesmos defensores para a pena de morte, os mesmos que propalam preconceitos contra nordestinos, negros e pobres, muitos deles também negros e pobres. Esta é a vida.
O debate quase artificial sobre ética roubou a chance de a maioria da população se manifestar e gozar, afinal, o que lhes pertence por direito - sonhar e sentir que quem decide é a maioria. Com a desmoralização, nem sempre justa, de três ex-presidentes do partido que dá sustentação ao candidato Lula, talvez falte nesse dia de vitória alguém que comande e coordene o que pode e deve ser feito. Quem sabe o próprio presidente, no seu primeiro discurso como reeleito, recomende que todos voltem para casa e, com amigos e familiares, celebrem a vitória silenciosamente. Vitória silenciosa daqueles que, lamentavelmente, não têm voz, emissora de tevê, jornal diário, nem mesmo um computador, como este que escreve essa ridícula crônica. Talvez, esse mesmo presidente recomende que, nesse próximo Natal, em cada canto do Brasil, as comunidades se reúnam para representar a penúltima cena do autor, também pernambucano, João Cabral de Mello Neto, do auto de Natal "Morte e Vida Severina". Cena esta que fala que o sangue novo que "infecciona a miséria, com vida nova e sadia", ou "como um caderno novo, quando a gente o principia".
São Paulo, 20 de Outubro de 2006
segunda-feira, 5 de maio de 2008
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