terça-feira, 6 de maio de 2008

MORRE O INIMIGO NÚMERO UM DA MEDIOCRIDADE!!!!

MORRE O INIMIGO NÚMERO UM DA MEDIOCRIDADE!!!

Não pretendia escrever nada, sobre o desaparecimento de Plínio Marcos, ocorrido ontem. Até porque, não me agrada nenhum pouco a possibilidade de me especializar em redigir notas, sobre aqueles que nos deixam. Melhor seria, que os amigos e irmãos nunca nos deixassem. Quem sabe, a melhor forma de homenagear a partida de um amigo, é perguntar, “quer que eu vá com você?” Tenho certeza que, no caso de Plínio, ele devolveria a pergunta, com uma carinhosa ‘grossura’: “Vai se f....”, ou coisa parecida. Ele era assim mesmo, não brincava em serviço, nem com coisas sérias. Jamais aceitou uma bajulação, tinha consciência de sua força e estimulava os fracos a se defender.

O meu projeto era não escrever nada, mas sim ficar triste, o tempo que me fosse permitido chorar bastante. Porém, nessa madrugada, o serviço de notícias da Revista Época me enviou uma nota, pela Internet, que, entre outras incorreções, disse: “Trabalhou, como ator, na novela, Beto Rockfeller. Nos seus últimos anos de vida, sem dinheiro, chegou a vender livros, nos bares de São Paulo”.
Quanta contradição, nessa pequena nota. Meu Deus! Com propriedade, poderíamos reproduzir a expressão de Caetano Veloso (em 68), no conturbado show do Tuca: "Vocês não entenderam nada!!!"
1- Plínio Marcos, fez da venda de seus livros uma opção de vida, foi o preço que pagou por dizer, não. Fazia isso, desde os tempos em que deixou de escrever para o jornal, ULTIMA HORA, em São Paulo, durante todo o conturbado período da ditadura militar;
2- Com esse expediente, ele conseguiu ajudar sua primeira mulher, a criar seus três filhos. Por inúmeras vezes, Plínio voltava de um evento (que nem sempre era convidado) e, religiosamente, repartia com a ex-companheira o resultado de seu trabalho. Fazia, de qualquer aglomerado, a possibilidade de vender o produto de seu trabalho, seus escritos, em forma de livro. Criava todas essas possibilidades, sempre com muita dignidade e convicção. Livros, esses, que qualquer cidadão, por curiosidade, solidariedade ou mesmo apreço, comprou, ao longo de todos esses anos;
3- Plínio Marcos, nunca deixou de lutar. Aliás, sua missão era ensinar os oprimidos a lutar. Inventou inúmeras formas de transformar sua ARTE, em mercadoria, e sua insatisfação, em repúdio a este mundo sem esperança;
4- A NOTA, já citada, acima, poderia ser publicada com o mesmo tom, em qualquer veículo de Comunicação. Isso porque é muito difícil para a grande imprensa, que nunca engoliu o gênio de Plínio, perceber o alcance do seu gesto, em vida. A venda de seus livros, de bar em bar, na expressão (preconceituosa) do redator da nota, nada mais era (na realidade), do que um gesto de sobrevivência, que se multiplicou em toda a sociedade brasileira, de uns anos para cá. Para ser mais exato, a partir de 1985. Atualmente (1999), médicos, engenheiros, advogados, psicólogos, dentistas, entre outros, usam desse mesmo expediente para sobreviver. Procuram vender, alguma coisa na porta de um colégio qualquer, de um estádio de futebol qualquer, ou nas calçadas do centro da cidade;
5- Não era nada fácil, ser amigo de Plínio Marcos. Ele era uma pessoa muito geniosa e, para agüentar o tranco, era preciso amá-lo, com o mesmo amor pela humanidade, que ele pregou (visceralmente), em sua obra e ao longo de toda sua vida;
6- Plínio era, insuportavelmente, cristão, solidário e radical. Essa mesma radicalidade, que, com toda certeza, nos vai fazer falta para enfrentar o que está por vir;
7- Plínio Marcos, só tinha um inimigo - a categoria dos medíocres. Se essa mesma Humanidade, um dia, pretender produzir um outro modelo de relacionamento entre os homens, poderá encontrar nos escritos desse fantástico ARTISTA, pistas de um relacionamento social. Por felicidade, esses escritos estão espalhados por esse mundo afora. É só procurar e ler.

Jair Alves - Dramaturgo/SP
(Novembro, de 1999). (revisado)

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