segunda-feira, 5 de maio de 2008

Alckmim gosta de Garotinhos

Alckmim gosta de Garotinhos



Toda campanha do primeiro turno deste ano foi marcada pela insistência de um segmento importante da imprensa brasileira, em desqualificar o debate político, voltado às transformações ocorridas no país nesse mandato prestes a terminar. Por quê esse debate não ocorreu? A questão nos parece moral, muito mais do que econômica. Por quê moral? E por quê amoral, ao mesmo tempo?

O primeiro acontecimento político, na largada do segundo turno, foi o acolhimento por Alckmim
do casal Garotinho e sua garotona, de camiseta, com a inscrição no peito, Fora Lula. O tiro pode ter saído pela culatra, apesar dos bombeiros correrem atrás, dizendo que situação análoga teria acontecido com Collor, em favor da candidatura Lula. A desculpa não colou, pois essa fotografia (Collor e Lula) não saiu na Folha, no Jornal do Brasil, no Estadão, e não sairá, no final de semana, em nenhuma revista. O episódio de ontem não passou de uma cena ensaiada, como aquela do mesmo candidato, quando foi fotografado com as pernas abertas, tentando jogar alguma coisa parecida com futsal. Isso também saiu nos jornais, no início da campanha. O tiro poderá te saído pela culatra, pois o apoio amoral do casal de Garotinhos ajudaria em quê? Aumentar os votos em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais? Disso, sabemos que não. Problema, naturalmente, da coligação PSDB-PFL.

O grande problema dos eleitores brasileiros, sem dúvida, é saber se o Brasil melhorou, se pode melhorar mais ou, por acidente de percurso, venha a retornar à sua progressiva submissão aos interesses de forças internacionais. Nesse primeiro turno, essa imprensa citada em prosa e versos descaracterizou o debate. Em nenhum momento a libertação do FMI foi pautada, como importante ou não. A privatização de organismos nacionais, como a Vale do Rio Doce, as Hidrelétricas e as Teles não foram discutidas, na sua profundidade, para saber se houve ou não melhoria das condições de vida da população brasileira. Se o aumento do salário mínimo fomentou ou não a economia, ou mesmo se esse aumento é ou não pífio, diante da miséria social centenária em que vive a maioria da população. Muito menos se discutiu os métodos para o controle da inflação, bandeira, afinal, do governo anterior. Na versão do PSDB, esse controle era mantido com a dilapidação do tesouro nacional; no governo atual, é conseguido no controle do consumo. Qual é o papel que a imprensa exerceu para aprofundar esse debate? Nenhum. Escolheu o que os opositores do governo atual chamam de ética. Então, discutamos a ética.

Contrapõe-se ao episódio Alckmim com os Garotinhos o que aconteceu no calor e tensão da apuração do último domingo. Depois de assistir a uma briga de vaidades das novas estrelas da política brasileira, batizadas pela discutível alcunha de "meninas do Jô", a tela da Globo News foi invadida com um obscuro senhor, professor da UNB, que justificou o papel da imprensa brasileira no capítulo que estava prestes a terminar (o primeiro turno). Dizia ele que a imprensa brasileira (e na sua visão, os honrosos periódicos que procuraram manter a imparcialidade não faz parte da mesma) não tinha interesse no desfecho do processo eleitoral no primeiro turno. Alegou, em resumo, que o prosseguimento do processo eleitoral ajudaria a população a escolher melhor, e que o debate postergado favorecia a imprensa (argumento do tipo "ela também precisa viver"ou "precisa vender jornais"). A coragem do obscuro professor da UNB, dizendo esse insulto à inteligência, não quer dizer que os proprietários dos meios de comunicação sejam tão irresponsáveis, como ele sugeriu, e que tenham fraudado propositalmente a vontade popular, mas nós os acusamos de incompetentes e irresponsavelmente partidários na disputa eleitoral. Em 1998, o mundo vivia uma crise cambial sem precedentes, e essa mesma imprensa simplesmente sonegou seus reflexos na economia brasileira e as verdadeiras razões do arrocho no câmbio e nos salários e, como se diz, "liquidou a fatura no primeiro turno". Sonegou a discussão da conveniência do instituto da reeleição, aprovada durante o primeiro mandato FHC que terminava, gestado e concluído nesse mesmo período. Essa articulação aconteceu a partir do primeiro dia, após a proclamação dos resultados, em 1994.

Na atualidade, não foram os candidatos à presidência os grandes personagens desse primeiro turno, tão pouco os irresponsáveis que armaram e não executaram a compra de dossiê. Muito menos àqueles que diziam "querer vender", e muito menos os nomes que participaram do episódio que justificaria ser considerado material comprobatório de crimes. O grande personagem desse primeiro turno foi a imprensa que, historicamente, tem sido veículo, progressista ou conservador, para a construção da identidade nacional. Nesse caso não, ela funcionou como um atraso, num processo irreversível. É próprio da natureza humana buscar a evolução. No momento, essa grande imprensa, citada pelo obscuro professor da UNB, não passou de um produtor cinematográfico que se vendeu ao mercado pornográfico que, afinal, tem seus dias contatos. Quanto a Alckmim, nem importa se ele gosta ou não de Garotinho1, Garotinho2, ou mesmo da garotona que vestia a camiseta, com a inscrição "Fora Lula". A ele faltou o apoio moral da pose ontem montada. É fácil perceber a pisada, quando hoje seus aliados mais conservadores caíram no constrangimento. Muitos deles, dentre os quais o presidente do PFL disse, "vamos procurar um caminho", o que quer dizer, "que excremento!!!"

Jair Alves - Dramaturgo/SP

06/10/2006

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