Enquanto milhões de pessoas se movimentam pelo planeta afora, em busca de alternativas para evitar o bombardeio do Iraque pelas forças militares norte-americanas, é de se perguntar se não chegou o momento de tomar medidas para orientar a geração que sucederá ao conflito, na esperança de que esta possa reconstruir o mundo em outros termos.
Recebo uma convocação generosa do jornalista Audálio Dantas para comparecer a uma nova passeata, marcada para dia 15 de março, sábado, às 15 horas, mesmo local e trajeto da anterior, contra a eminente guerra. Audálio ainda demonstra o mesmo vigor juvenil de 27 anos atrás, quando subiu numa sepultura do Cemitério dos Israelitas para gritar, a plenos pulmões, os versos de Navio Negreiros: “Deus, ò Deus onde estás que não respondes”. Exorcizou o diabo e conclamou os anjos, diante do caixão de Vladimir Herzog que, menino, havia fugido para o Brasil da perseguição nazista, mas acabara como vítima símbolo daquele terror aqui instalado. Era o início do fim de um dos períodos mais cruéis de nossa história. Ainda que regada com o sangue do jornalista Vlado, era o fim da ditadura militar. Essa mesma geração que devemos preparar para reconstruir o mundo não imagina a força dos versos de Castro Alves e o tamanho da dor que sentíamos. A dor, não apenas por Vladimir, mas de uma geração inteira do pós-guerra (39-45) que estava massacrada, impiedosamente.
O grito surdo de Audálio, trepado naquela sepultura anônima, provavelmente de um sobrevivente dos campos de concentração, foi o ponto de partida da nossa salvação. Quantas vidas foram poupadas com aquela manifestação, em especial a de jornalistas presos durante aquele período? Era o grito coletivo, na voz daquele ator que o momento e a história escolheu. Portanto, é exemplar a relação entre esses dois momentos.
Essa nova guerra começou quando os EUA se dividiu em dois blocos, um contra e outro a favor de Clinton, nas eleições presidenciais (no plural porque são duas, na verdade). Não foi propriamente uma escolha entre republicanos e democratas, muito menos dos nomes colocados para a disputa, e sim os votos contra Clinton e os votos contra o filho do Bush, pai. Para muitos, inclusive, a guerra começou quando uma certa secretária entrou no salão oval para praticar sexo oral. Sob essa ótica, o presidente dos EUA tem o prazer e quem paga a conta somos nós. Repete-se aqui a mesma e infernal parábola imortalizada pelo poeta, “você que inventou o pecado, esqueceu-se de inventar o perdão”. Somos reféns dos conflitos internos e morais de uma Nação. Eles inventaram a guerra e somos nós que pagaremos a conta. Ao escolher o filho do Bush, reabilitaram os antigos interesses financeiros que alimentam a guerra e, com isso, os norte-americanos passaram a poupar mais e comprar menos e nossa situação, a exemplo de situações anteriores piorou. Este é o sintoma de que para nós a guerra já começou.
De volta ao MASP, símbolo da ousadia industrial modernista, percorreremos o mesmo trajeto de semanas atrás, não para evitar a guerra, mas nos defender de seus efeitos avassaladores. Para muitos a primeira manifestação, em fevereiro, foi apenas um exercício de vaidades de algumas lideranças que insistem em tirar proveito de situações externas para se firmar nos postos de comando. Acreditando-se ou não que isso tenha sido verdade, agora, com certeza, não é o caso - a situação, de fato, é muito séria. É hora de pensar que modelo de vida e sonho queremos. A pesquisa de opinião pública que ora dá 55% de aprovação às loucuras do filho do Bush, em seu país de origem, é o resultado da mesma ação controladora dessa mesma opinião pública, patrocinada pelos interesses dos fabricantes de armas que investem grandes somas anuais nesses conglomerados, através de empresas das mesmas corporações. A ação de calar a imprensa produziu, ao mesmo tempo, uma espécie de letargia na maioria da população brasileira quanto ao conflito. Os mísseis apontados para a milenar Bagdá poderão se virar contra nós, após o término do conflito. A economia dos EUA não estará em piores condições que a nossa, ao contrário, estará sedenta de novos e maiores mercados. Os custos com a reconstrução do mundo serão rateados entre, como dizia outro poeta, “nós que nada temos a ver com isso”.
O reaparecimento do jornalista Audálio, como um dos organizadores da marcha contra o massacre do Iraque pelos EUA, é simbólico e profético para nós que estamos cansados de todas as guerras. Se não bastasse os efeitos nefastos desse tipo de conflito, por trás de todos esses interesses se manifesta uma vez mais a importância dos meios de comunicação. Os congressistas e também o atual governo - os grandes personagens que pautam o noticiário nacional - não dizem uma linha sequer a respeito do perigo das grandes corporações que controlam as comunicações no planeta. Por conseqüência, a imprensa local nada diz.
É tempo de rever o documentário CORAÇÕES E MENTES, sobre a guerra do Vietnã, produzido, por mais paradoxal que pareça, por uma dessas corporações jornalísticas, sediadas em Washington. Anos mais tarde, esse conglomerado jornalístico foi responsável pela punição exemplar do presidente Nixon. Quem acredita que esse presidente republicano foi forçado a renunciar por conta do Watergate engana-se porque quer. Ele, na verdade, foi punido pelas próprias famílias norte-americanas que perderam seus filhos, durante a guerra. Responsável por essa punição - um jornalismo independente que hoje quase não existe. Daí a importância de um profissional símbolo:
VIVA AUDALIO DANTAS, VIVA O POVO BRASILEIRO !
Jair Alves - Dramaturgo
13/03/2003
sábado, 3 de maio de 2008
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