segunda-feira, 5 de maio de 2008

DOSSIÊ GARRUCHA

Prezado senhor Hamilton Pereira
(felizmente, não se trata de Lacerda),

Após o susto inicial de tê-lo confundido com um novo e transitório personagem da política nacional (H. Lacerda), li com atenção ao seu artigo a respeito do ex-presidente FHC, ex-professor universitário, ex-auto-exilado e ex-leitor contumaz de Max Weber. Posso afirmar, com segurança, que o uso de suas metáforas teatrais ilustra muito bem o momento em que estamos vivendo, mas não explica e muito menos resolve o terremoto que estamos por viver. Sendo assim, de minha parte é melhor falar com maior clareza o que se segue:
Ato Um - O senhor compara Fernando Henrique a Carlos Lacerda. A metáfora pode ser interessante como elemento cênico, mas, como disse, as circunstâncias históricas são diferentes. E como são!!! Com essa semelhança, inevitavelmente enveredamos para uma conclusão - Lula está sendo acuado e, num ato heróico, vai cometer suicídio, assim como fez Getúlio Vargas. Sei que sua intenção não é essa, pois poderia ser interpretada como uma chantagem. Tranquilize-se, Lula já evitou o suicídio, ao se candidatar novamente a mais um mandato. Ele, sim, sairia da vida (pública) para entrar na história. Seu gesto extremo poderia ser interpretado como o político que não aceitou sequer corrupção entre seus colaboradores e, por certo, seria canonizado, mas isso não resolve a questão do Brasil. Mas, Lula pensa diferente, Lula é diferente, por isso mesmo se candidatou. Essa é a questão;
Ato Dois - O senhor se equivoca com o (nosso) poder de organização e a certeza de que esse novo terremoto não vai derrubar a torre principal do comando das lutas populares. Lentamente, e na hora mais crucial, as forças estão sendo consumidas com um Deus nos Acuda, isso é mal. As lutas populares, os homens e mulheres de bem deste país estão angustiados e desorientados, quanto a que caminho seguir e a quem recorrer, nesse momento dramático que se avizinha;
Ato Três - Apesar do senhor presidir uma respeitada entidade (Fundação Perseu Abramo), justa homenagem a um brilhante jornalista, a organização partidária, provedora dessa fundação (o PT) nunca levou a sério a importância dos comunicadores e, em especial, dos jornalistas. Os sindicalistas que povoam a estrutura partidária odeiam jornalistas, a não ser quando esses produzem elogios nas páginas da Folha. Como nos regimes, jocosamente, considerados autoritários, os jornalistas, artistas e até os intelectuais são tidos como instrumentos, ao contrário de considerá-los indispensáveis no processo democrático. O resultado ai está - não há muito do que reclamar, quando não se investiu com seriedade e disciplina no desenvolvimento desses segmentos, nos últimos três anos;
Ato Quatro - Existe, sim, uma semelhança entre FHC e Carlos Lacerda, ao menos na sua submissão aos interesses de uma certa casa branca, plantada na Avenida Pensilvânia, em Washington DC. No entanto, os métodos utilizados para desestabilizar um governo democrático são outros e mais cruéis. A segurança demonstrada pela direção partidária, que dá sustentação ao presidente Lula, chega a irritar. Resultado da arrogância dessa nova classe que se formou, nos últimos anos, na direção do partido. Teremos, sim, "dias de tormenta", é só esperar;
Ato Final - Permita-me um depoimento pessoal. Em abril de 1964, meu avo, antigo militante camponês, desesperado, na longínqua Jaci, cidade do interior de São Paulo, após ouvir notícias amargas pelas ondas da Rádio Tupi de São Paulo, transitava pela casa com uma garrucha (como todos sabem, de apenas dois tiros), sem saber como resistir ou a quem resistir. Esbravejava e chorava, diante de todos nós, seus netos, de olhos arregalados. Minha avó, que mal sabia ler o nome, pela primeira vez abandonou sua condição submissa gritou: "larga mão de ser besta, homem. Fica quieto no seu canto, que a coisa vai piorar". Todos nós daquela família sobrevivemos aos anos difíceis, ele inclusive, mas acabou morrendo num hospital público, já nos primeiros anos da Nova República. Temo, sinceramente, que estejamos prestes a dar início a uma nova tragédia. Essa já está no fim.
Personagens:
Hamilton Pereira (presidente da Fundação Perseu Abramo);
Hamilton Lacerda (ex-coordenador de Comunicação da campanha de Mercadante e negociador de dossiê Serra&Sanguessugas);
Max Weber (filósofo alemão e ex-guru do ex-presidente FHC);
Carlos Lacerda (jornalista e conspirador que levou Getúlio ao suicídio);
FHC (todos já conhecem);
Getulio Vargas (por duas vezes, presidente do Brasil, hoje nome de avenida, no Rio de Janeiro);
Lula (candidato à reeleição no dia 1° de outubro);
Jair Alves (dramaturgo e autor do texto);
Joaquim Arruda (avô do autor do texto e dono da garrucha).

São Paulo, 24 de Setembro de 2006

Nenhum comentário: