segunda-feira, 5 de maio de 2008

VERDE, AMARELO, AZUL E BRANCO

Os colonizadores nos obrigaram a seguir a cartilha da obediência, mais precisamente o catecismo. Desde o momento em que aqui desceram os jesuítas, desembarcando nas Américas, predominou-se obediência cega aos princípios da Pátria, Família e Propriedade. No centro das atenções, como juiz de nossos atos, sempre esteve Deus - Pai abstrato e poderoso. Foi assim com os portugueses, e o mesmo ocorreu com espanhóis, no processo de colonização. Nós, colonizados, orientamos nossa vida pela história e cultura de nossos senhores. Essa submissão não ocorreu pelo convencimento pacífico, pelo contrário, foi o resultado de muito cárcere e degola. Dos nativos, é claro.

Porém, os tempos são outros. A vida oferece contradições que os filósofos nos ensinam chamá-las de dialéticas. É a partir dessa dialética que a vida se desenvolve e, com ela, a história. No momento é importante revelar por que nos sentimos satisfeitos pelo fato de a Argentina ter derrotado o México, para em seguida enfrentar a Alemanha na Copa do Mundo de Futebol. Essa é a questão.

Talvez seja oportuno observar a letra dos hinos nacionais, pela primeira vez traduzidos nas rápidas aberturas dos jogos. A grande maioria desses hinos fala de guerra, mais grave, louva o espírito guerreiro como uma virtude humana. Existe um hino europeu que chega a exaltar a vingança contra a degola de crianças. Nada mais patético. Sem contar com a exaltação da guerra permanente no hino norte-americano. Nada mais óbvio para se ler a origem dos conflitos mundiais da atualidade. Por que diante de tanta exposição de força e capacidade de destruição devemos alimentar o sentimento de ódio contra uma Nação, cujo tema é a liberdade? Prestem atenção na próxima abertura de um jogo da Argentina, um país colonizado, para ler quantas vezes a palavra Liberdade é repetida, enquanto se canta. Ao contrário, observem o teor pragmático do hino nacional da Alemanha, por exemplo. As letras retratam um sonho de conquista, contrariando o desejo de libertação dos povos colonizados. A maioria dessas letras reporta um período onde a comunicação impressa tinha no máximo a gravura como elemento gráfico, nem fotografia existia. Hoje tudo é feito quase que em tempo real, com extrema sofisticação e, no entanto, continuamos a pensar o mundo como se vivêssemos no tempo de senhores e escravos. Essa comunicação multiplicou as contradições do mundo moderno. Interessante essa Copa de 2006, ela colocou de um lado Portugal, de outro Angola. França de um lado, Togo de outro, e ninguém morreu durante, nem depois do embate. Sinais dos tempos.

Ainda a pergunta - por que tenho que odiar tanto os Argentinos? Por que tememos tanto um confronto final com os hermanos do sul? Não seria mais esportivo e simbólico pelear contra uma Nação que passou e passa pelo mesmo estágio de desenvolvimento humano? Não basta a manifestação de vandalismo demonstrada, por parte dos torcedores europeus (ingleses e alemães)? Por outro lado, a dialética pode nos ensinar que a habilidade, desenvolvida por brasileiros e argentinos nos campos de futebol, pode ser um sinal de que uma outra cultura esteja desde a muito em curso, em substituição à guerra que degola, explode e asfixia crianças (servias, iraquianas ou coreanas do norte). Pode ser que esteja próximo o maior espetáculo da terra, mas a ansiedade nos mete medo e nos impede de sonhar o imponderável. Afinal, é só uma partida de futebol, onde o maior dano pode ser perder para a Argentina (Deus nos Livre!!!). Antes disso, é preciso vencer todos os nossos colonizadores - Portugal, Espanha, Alemanha, Inglaterra e, porque não, a França. Isso é muito real.

Que venham os hermanos argentinos.

Nossa bandeira tem as cores verde, amarelo, azul e branco.

Jair Alves – dramaturgo – São Paulo

26/06/2006

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