terça-feira, 6 de maio de 2008

CAMPANHA PARA A LEGALIZAÇÃO DE BOSTA LAVADA

Ao ser submetido a julgamento pelo CNIC (Comissão Nacional de Incentivo à Cultura), órgão do Ministério da Cultura, em novembro último, o Livro "Bosta Lavada", de autoria do dramaturgo J.Alves, foi classificado pelos técnicos responsáveis, como "Conteúdo de Cunho Cientifico". Impedido, portanto, de receber Recursos da Lei Federal de Incentivo à Cultura ou Lei Rouanet. Em função disso, a editora responsável pela publicação impetrou recurso, que vai ser julgado na próxima semana, entre os dias 18 e 20 de fevereiro.
A decisão da Editora em recorrer a tal decisão, se deve ao fato de a mesma não aceitar a definição dada ao livro. O livro, Bosta Lavada, nada tem de científico. Pelo menos não pretende se colocar como tal. Foi escrito como literatura política, em forma de novela epopéica. É literatura pura, afirma o autor. Apesar de reproduzir informações que revelam conhecimento, o livro não pretende defender nenhuma tese a respeito dos dejetos humanos. Fala de direitos humanos. O objetivo do livro (e do autor) foi construir uma parábola, com começo, meio e fim, de uma trajetória do processo colonizador e civilizatório do Brasil contemporâneo. Em sua estrutura, Bosta Lavada revela aquilo que já foi provado por dezenas de trabalhos acadêmicos, que adormecem nas prateleiras das Universidades. A maioria deles, sequer publicada, por falta de uma política editorial adequada para o momento social e cultural em que vivemos. Culpa, portanto, do Ministério da Cultura e não de nós, artistas.
Tudo leva a crer que, tanto autor como a editora em questão, entraram de gaiatos numa disputa interna do governo Federal. De um lado, o Ministério do Meio Ambiente, com Marina Silva e, de outro, o Ministro-Chefe da Secretaria de Planejamento de Longo Prazo da Presidência da República, com status de Ministério, tendo à frente o enigmático advogado Roberto Unger Mangabeira. Ambos os Ministérios defendem posições antagônicas, a respeito da Região Amazônica. A ministra insiste na defesa da Amazônia, como um santuário, e não se cansa de afirmar sua frase de efeito: "já fizemos o dever de casa". A defesa submissa de uma agenda internacional de combate ao aquecimento global, além dessa postura religiosa demonstram, ao mesmo tempo, atitude anticientificista e pentecostal. Já Unger Mangabeira, ex-advogado do empresário Daniel Dantas, envolvido no Brasil, ainda, em questões sérias nas disputas pelas telecomunicações, defende o oposto, ou seja, para ele a solução para a Amazônia virá através de um novo estatuto jurídico (ver link). Ele faz uma proposta, como uma panacéia para todos os males, sociais e econômicos. Na verdade, é mais uma cortina de fumaça que, se vingar, criará condições para a instalação, na Amazônia Legal, de indústrias de ponta, com capital estrangeiro. Estas, não permitidas, hoje, pela legislação brasileira.
Por ora, o instrumento conhecido de Unger Mangabeira é apenas um manifesto (PROJETO AMAZÔNIA-ESBOÇO DE UMA PROPOSTA), que contou com a imediata adesão do atual ministro da Cultura, Gilberto Gil. Este, envolvido involuntariamente e indiretamente nessa disputa. O mais curioso desse episódio recente, é que o único ministro do atual governo a assumir uma posição, a favor do Ministro-Chefe, foi o compositor e cantor. Uma contradição se levar em conta que o mesmo é o mais importante quadro do Partido Verde e, esta tese contra o desmatamento é muito cara a esse partido.
Para os proponentes de Bosta Lavada, o caso revela uma ação do MINC (ou parte dele), querendo ser mais realista do que o rei. Dizem os proponentes, que o maior problema do Brasil não é a Amazônia, e sim o caos social vivido nos grandes centros, para os quais nenhum dos dois ministérios aponta uma saída. Lentamente, pelos meios de comunicação, tomamos consciência de que habitamos apenas 25% por centro do território nacional, incluso aí as áreas de extrema pobreza como o nordeste e o semi-árido. O resto é Região Amazônica. Bosta Lavada expressa, de um lado aquilo em que se transformou a política brasileira, um Vale da M, de outro a luta desesperada de uma população faminta, que corre atrás de melhores condições de vida e sobrevivência.
Talvez, o episódio da ilegalidade de Bosta Lavada tenha relevado que tenhamos nos acostumado a tratar somente dos escândalos, sem dar espaço para o aprofundamento e discussão das causas que resultam nesses escândalos. Se assim o fizéssemos, chegaríamos ao conteúdo dos mesmos e, conseqüentemente, construiríamos futuras soluções.
15/02/2008

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