terça-feira, 6 de maio de 2008

MORRE O INIMIGO NÚMERO UM DA MEDIOCRIDADE!!!!

MORRE O INIMIGO NÚMERO UM DA MEDIOCRIDADE!!!

Não pretendia escrever nada, sobre o desaparecimento de Plínio Marcos, ocorrido ontem. Até porque, não me agrada nenhum pouco a possibilidade de me especializar em redigir notas, sobre aqueles que nos deixam. Melhor seria, que os amigos e irmãos nunca nos deixassem. Quem sabe, a melhor forma de homenagear a partida de um amigo, é perguntar, “quer que eu vá com você?” Tenho certeza que, no caso de Plínio, ele devolveria a pergunta, com uma carinhosa ‘grossura’: “Vai se f....”, ou coisa parecida. Ele era assim mesmo, não brincava em serviço, nem com coisas sérias. Jamais aceitou uma bajulação, tinha consciência de sua força e estimulava os fracos a se defender.

O meu projeto era não escrever nada, mas sim ficar triste, o tempo que me fosse permitido chorar bastante. Porém, nessa madrugada, o serviço de notícias da Revista Época me enviou uma nota, pela Internet, que, entre outras incorreções, disse: “Trabalhou, como ator, na novela, Beto Rockfeller. Nos seus últimos anos de vida, sem dinheiro, chegou a vender livros, nos bares de São Paulo”.
Quanta contradição, nessa pequena nota. Meu Deus! Com propriedade, poderíamos reproduzir a expressão de Caetano Veloso (em 68), no conturbado show do Tuca: "Vocês não entenderam nada!!!"
1- Plínio Marcos, fez da venda de seus livros uma opção de vida, foi o preço que pagou por dizer, não. Fazia isso, desde os tempos em que deixou de escrever para o jornal, ULTIMA HORA, em São Paulo, durante todo o conturbado período da ditadura militar;
2- Com esse expediente, ele conseguiu ajudar sua primeira mulher, a criar seus três filhos. Por inúmeras vezes, Plínio voltava de um evento (que nem sempre era convidado) e, religiosamente, repartia com a ex-companheira o resultado de seu trabalho. Fazia, de qualquer aglomerado, a possibilidade de vender o produto de seu trabalho, seus escritos, em forma de livro. Criava todas essas possibilidades, sempre com muita dignidade e convicção. Livros, esses, que qualquer cidadão, por curiosidade, solidariedade ou mesmo apreço, comprou, ao longo de todos esses anos;
3- Plínio Marcos, nunca deixou de lutar. Aliás, sua missão era ensinar os oprimidos a lutar. Inventou inúmeras formas de transformar sua ARTE, em mercadoria, e sua insatisfação, em repúdio a este mundo sem esperança;
4- A NOTA, já citada, acima, poderia ser publicada com o mesmo tom, em qualquer veículo de Comunicação. Isso porque é muito difícil para a grande imprensa, que nunca engoliu o gênio de Plínio, perceber o alcance do seu gesto, em vida. A venda de seus livros, de bar em bar, na expressão (preconceituosa) do redator da nota, nada mais era (na realidade), do que um gesto de sobrevivência, que se multiplicou em toda a sociedade brasileira, de uns anos para cá. Para ser mais exato, a partir de 1985. Atualmente (1999), médicos, engenheiros, advogados, psicólogos, dentistas, entre outros, usam desse mesmo expediente para sobreviver. Procuram vender, alguma coisa na porta de um colégio qualquer, de um estádio de futebol qualquer, ou nas calçadas do centro da cidade;
5- Não era nada fácil, ser amigo de Plínio Marcos. Ele era uma pessoa muito geniosa e, para agüentar o tranco, era preciso amá-lo, com o mesmo amor pela humanidade, que ele pregou (visceralmente), em sua obra e ao longo de toda sua vida;
6- Plínio era, insuportavelmente, cristão, solidário e radical. Essa mesma radicalidade, que, com toda certeza, nos vai fazer falta para enfrentar o que está por vir;
7- Plínio Marcos, só tinha um inimigo - a categoria dos medíocres. Se essa mesma Humanidade, um dia, pretender produzir um outro modelo de relacionamento entre os homens, poderá encontrar nos escritos desse fantástico ARTISTA, pistas de um relacionamento social. Por felicidade, esses escritos estão espalhados por esse mundo afora. É só procurar e ler.

Jair Alves - Dramaturgo/SP
(Novembro, de 1999). (revisado)

REGINA DUARTE TEM MEDO DO QUÊ?

Cara Regina,

Surpreendeu-me sua participação, hoje, no programa gratuito eleitoral do candidato Serra, pregando o medo. Sua tentativa em dividir o seu medo com a Nação brasileira chega a ser patético. O seu medo de que Lula venha a ganhar as eleições, no próximo dia 27, é cômico se não fosse sério, parodiando Dürremath. Cômico, na medida em que imagina que a vida da maioria dos brasileiros seja tal qual a sua. Lamentavelmente, não é. A notoriedade da qual você, por mérito, desfruta não é vivenciada pela maioria da população brasileira. O que tem sido um terror para você (a vitória do Lula) para muita gente, quem sabe, seja a salvação. 39 milhões de pessoas depositaram em Lula a esperança de dias melhores; e isso não é pouco.
Sério, porque há justo 27 anos, numa semana qualquer de outubro de 1975, você, com outros atores, participou de uma leitura de uma peça teatral, onde o que se via era acima de tudo coragem. Estou falando do Concerto nº 1 para Piano e Orquestra (teatro Paiol, segunda quinzena daquele outubro maldito). Numa sexta-feira à meia-noite, como uma nesga de esperança, atores como João José Pompeu, Madalena Nicol, Maria Ylma, entre outros, davam prova de que alternativa não havia, a não ser enfrentar com coragem a ditadura militar. Enfretamento que fazíamos com as únicas armas de que dispúnhamos, a nossa profissão, ainda que improvisados.
O texto, escrito por João Ribeiro Chaves, cunhado de Vladimir Herzog, sacudiu a todos e nos encheu de esperança, não de medo. Na semana seguinte, ou no dia seguinte (existe uma divergência entre este que escreve e Sergio Mamberti, também diretor daquela leitura), Vlado foi morto nas dependências do DOI-CODI. Vlado esteve naquela meia-noite de sexta-feira assistindo a segunda leitura que falava de esperança, embora debaixo de pancada. Você, demonstrando ainda maior coragem quando tomou a frente e meses depois veio a montar a mesma peça, comercialmente, mantendo grande parte daquele elenco. Surpreendo-me, sinceramente, que nesse momento você lance dúvidas a respeito da idoneidade e importância histórica do ex-metalúrgico e hoje político mais importante do Brasil. A notoriedade de Lula foi conseguida com trabalho e seriedade, a mesma seriedade com que você pacientemente construiu seu prestígio, ao longo dos anos de sua carreira.
Lula representa esperança e não retrocesso, o caos. Caos e medo é o que grande parte dos que nele votaram, dentre eles eu, têm vivido. Ele significa a mudança, a mesma mudança que um dia você ajudou a construir. Destaco você, ao lado de Lélia Abramo, Fernanda Montenegro, Camila Pitanga, Regina Case, Fernanda Abreu, Lilia Cabral, como um patrimônio cultural brasileiro que não pode ser destruído. Da mesma forma não é correto, com todo o respeito, que tente transformar uma pessoa como Lula, ao qual muitos de nós brasileiros devemos, num causador de caos maior. Até porque ele teve a coragem de enfrentar os militares, junto com seus companheiros metalúrgicos do ABC. Naquela época o combustível da vida era a busca da liberdade que hoje você desfruta e todos nós também desfrutamos. Hoje o combustível da vida é a luta pela igualdade de oportunidades que Lula também representa.
Você fala que ele mudou, que não é mais o homem que você conheceu. A qual Lula você se refere? Aquele que mobilizou seus companheiros para votar em FHC para senador, em 78? Ou o Lula que comandou as greves contra o regime militar, nos anos seguintes? Nota-se que você conhece tudo de teatro e pouco de política. Permita-me, ele é o mesmo homem generoso com seus companheiros e com o destino da Nação Brasileira. Lula não renega seu passado, muito menos o que escreveu, até porque tudo o que escreveu o fez com a própria vida.
Acho que apesar da tristeza que deverá cair sobre seu coração sensível - uma possível derrota de Serra no dia 27, você deve votar, sim, nele. É o seu direito. Acho mais, espero que nos próximos dias tenha a oportunidade de dizer o quanto ele, Serra, pode fazer pelo Brasil, como economista, por exemplo. Só lamento que nesses anos todos o seu partido do coração, governando o Brasil, não tenha usado seu candidato como economista. Sei que ele é muito competente como tal, porém, não foi capaz de evitar a situação que as notícias dos jornais diários não nos deixam esquecer. A crise econômica em que nos meteram.
Acho ainda, para finalizar, que você despreza a inteligência dos eleitores, apelando para o coração sofrido de quem, em situação outra, poderia embarcar no seu medo.
Regina, sua contribuição ao teatro, tevê, cinema e à cultura brasileira, enfim, não será esquecida. O seu gesto de hoje, eu espero que sim. Para o bem de todos nós!

Respeitosamente,

Jair Alves - Dramaturgo - São Paulo

OUTUBRO DE 2002

ARTES, LITERATURA E A CIVILIZAÇÃO: ELAS QUE SE DANEM! (*)

Poderia a arte e a literatura atuar positivamente na solução de questões nacionais? Poderia, mas por enquanto não. O entrave desse emboto é a predominância, na imprensa diária, de um embate político partidário que ela não consegue se livrar e que já encheu os picuás.

Em entrevista recente ao ex-deputado e ex-ministro, José Dirceu, um ex-líder estudantil e ex-parlamentar do PT, Vladimir Palmeira, surpreendeu a todos dizendo que, se vencedor, o Movimento Estudantil de 68 desembocaria numa extraordinária produção artístico-cultural. Se verdadeira a afirmativa, (acho que sim) esta seria mais uma prova da importância que a cultura tem na vida de cada cidadão. Surpreendente, também, que nos dias de hoje, com a liberdade de expressão que desfrutamos, não experimentemos essa explosão criativa.

Para inverter esta tendência, ou seja, a polarização citada acima para o retorno das artes e da literatura, na vida dos brasileiros, antes de tudo será preciso um esforço dos profissionais dos três setores (arte, literatura e imprensa), na busca de pautas ligadas à contemporaneidade. A vida do brasileiro não se resume ao parlamento e a sua relação com as redações dos maiores veículos de comunicação. O país pulsa e se desenvolve, através de um outro segmento, econômico, histórico e cultural, o que, seguramente, não está refletido nas páginas dos jornais, tão pouco nos palcos brasileiros. A literatura, talvez, seja a exceção, no entanto padece de um entrave gigantesco. A indústria editorial está atrelada a determinados pontos de distribuição e venda dessa produção O volume de títulos, anual, é muito grande, em relação ao mercado consumidor existente. Ele precisa se expandir, porém encontra aí seu maior obstáculo, a imprensa especializada que restringe esta venda a um universo muito estreito da população, aquela que tem renda familiar acima de 10 salários mínimos.

Um outro fator que contribui significativamente para emperrar uma pauta que discuta o nosso desenvolvimento e, principalmente, nosso subdesenvolvimento, é a omissão da realidade projetada nos dias atuais. Falo das décadas de 80 e 90. Este período não é levado em consideração. Curiosamente, quando se evoca a memória, busca-se o passado anterior à movimentação desse período. A própria expressão "década perdida", é uma forma de escamotear a realidade. Como perdida, se houve história, política e cultura? Reputo isso, a mesmice da qual padecemos.

Na virada da década de 70 para 80, surgiu um tipo de literatura que acabou contagiando as demais formas de expressão - a literatura confessional. No que consiste esta literatura? Consiste no relato da história pessoal, como reflexo do período em que viveu o personagem principal e o autor da obra. O caso mais expressivo, em número, é o do jornalista e militante, Fernando Gabeira (O que é isso companheiro) e, de importância, o hoje escritor consagrado, Marcelo Rubens Paiva (Feliz ano Velho). Por que se vendeu tanto livro, no período? Porque havia uma demanda reprimida, na maioria da população jovem, potencialmente apta a ler esses relatos. Era uma curiosidade muito grande saber como viviam os personagens clandestinos, ou fechados em suas pequenas tribos. A Censura criou essa expectativa, ao longo dos anos de chumbo. Portanto, esta literatura que influenciou o teatro (no caso de Paiva) e cinema (no caso de Gabeira), desenvolveu um mercado, mas não criou vínculos com a literatura mais elaborada. No vazio, as editoras foram obrigadas a dar toda força para a literatura de auto-ajuda. A situação não é tão simples assim, automática, mas apresenta algumas evidencias da falta de espaço para aqueles que se detiveram a desenvolver uma escrita contemporânea. Um dos exemplos se manifesta na demora das filmagens do livro de Gabeira - praticamente 15 anos depois. Esta demora transformou a película, num quase pastiche, o que motivou muitos e justos protestos. Em muitos festivais, o filme foi classificado como de ação, e não um filme político. Prova, ao meu ver, que a informação histórica trazida pelo autor do livro, por essa época, já tinha sido absorvida pela realidade e pelos debates que se seguiram, aí sim, pela imprensa.

Vejo, hoje, o "esquecimento" da década de 80, até o filme "Entreatos", de João Moreira Salles, que justamente documenta a chegada de Lula à presidência da República, como o fator principal do boicote a uma arte e literatura mais atuante, mais ousada. O grande trunfo das artes e da literatura é fazer pensar, o que pode ser mortal para o status quo. É preciso dar voz e vez àqueles que ousam sonhar o futuro, como fizeram, no passado, os grandes artistas da década de 60 e 70. No teatro e na literatura, é preciso resgatar a fábula, como faziam as montagens do Grupo Oficina, o movimento Tropicalista e a Bossa Nova. Inventar uma nova forma de expressão é inventar um mundo melhor. A minha referência é a prosopopéia Panamérica, de José Agripino de Paula, falecido no ano passado. Para muitos, é a poesia concretista dos irmãos Campos, enquanto para outros, o poeta Paulo Leminski ou a escritora Clarice Lispector. Todos nos levam ao Paraíso.

Ao ter meu início de noite, invadido por personagens, via tevê, que não teriam sequer espaço nos livros de Adelaide Carraro, nem mesmo no seu livro campeão de vendas - Eu e o Governador, me pergunto, que país é esse??? Quase sempre, me lembro de Renato Russo, Cazuza e Cássia Eller, artistas que se foram, sem ter o merecido reconhecimento. Reconhecimento, para mim, é imaginar o Maracanã ou Morumbi cheios, gritando pelos poros - Oh, Oh, Oh, Renato é nosso Rei. Uh, Uh, Uh, a Cássia é a nossa vez. Cazuza, idem!

Jair Alves - Dramaturgo - São Paulo/SP

(*) Título inspirado na composição de Gilberto Gil, "Cultura e Civilização".
A cultura e a civilização, elas que se danem, ou não!

14/04/2008

QUANDO SAIR, NÃO ESQUEÇA:

Deixe comida pro cachorro, senão ele acaba comendo o sofá


Engana-se, quem pensa que estamos vivendo, hoje, os melhores dias de nossas vidas. Estamos muito longe disso. O jornalista Luis Nassif tem chamado um determinado tipo de imprensa, de "jornalismo de esgoto". Se um jornalista como ele pode escrever "esgoto", e qualquer prefeitura, por esse Brasil afora, cria departamentos de "Água e Esgoto", por que não podemos falar expressamente sobre o mais sólido e principal componente do mesmo? Desafio, quem possa dar uma resposta satisfatória a essa questão. Como diz o próprio Nassif, "estou prestes a jogar a toalha", referindo-se ao jornalismo que se faz atualmente.
A verdade é que vivemos tempos hostis, prenuncio (espero não) de tempos sombrios. A imprensa, de fato, não é a mesma dos anos pré-68, nem pré Anistia. Recuando mais ainda, nos primeiros anos da República, lembramos que as forças políticas antagônicas se digladiavam pelas páginas diárias, porém a disputa restringia-se a defesa de um ideário, nada mais. A família Mesquita, por exemplo, defendia a República, enquanto a Couto Magalhães defendia a Monarquia. Na segunda metade do século XX, nas revoluções e golpes de estado, os jornais defendiam projetos políticos, até serem empastelados pelo governo. Não se envolviam diretamente nas disputas financeiras, hoje é diferente. Qualquer dirigente de corporação que esteja á frente de uma empresa de Comunicação, pode ficar bilhardário de um dia para outro. Sendo assim, qualquer forma de comunicação que se invente (orkut, blog, celular), antes de tudo, é a possibilidade de transformar um aventureiro, do dia para noite, num grande magnata. Por que tanta briga em torno das teles e a remoção de jornalistas "bocudos"?
Gastou-se muito tempo, nos últimos anos, discutindo-se se o jornal impresso estava morto, ou não. Esqueceram que existem outros veículos de comunicação, entre os humanos (???), muito mais antigos do que o jornal impresso - o teatro e o livro, por exemplo. Eles se renovaram, de acordo com o movimento social, econômico e político, apesar de sua morte ser anunciada algumas vezes.
Estamos diante do pior, quem sabe. Não vai haver imprensa, dentro em breve. Esta será substituída por departamentos de comunicação, nas corporações. Essas, por sua vez, também serão responsáveis, desde a produção de bens e equipamentos domésticos, até programas de entretenimento diário. A principal prova de que isso já vem ocorrendo, desde há algum tempo, é a supervalorização do Marketing, em detrimento ao jornalismo.

Sinto dor na costela, quando vejo uma das emissoras de tevê (no Domingo Espetacular), fazendo inserções semanais de peças de teatro. Para meu desespero, vejo também que só são anunciadas peças, cujo elenco tenha um artista do cast das suas novelas (TV Record). A outra emissora, concorrente, logo mais vai fazer o mesmo (ou, talvez, já esteja fazendo). Ou seja, não discutimos, de fato, o dirigismo da informação. Isso subverte a democracia. Estamos a caminho do monopólio das pautas.
Talvez, seja por isso que eu tenha sido obrigado a substituir o título da novela, para BLX. Nego-me chamá-la de Esgoto Lavado. Quero chamá-la pelo nome de batismo. Essa minha teimosia tem uma explicação, a palavra que a imprensa me impediu de escrever, é a essência do esgoto do qual Nassif se refere. Portanto, na imprensa pode se encontrar corrupção, como já se provou existir no Legislativo, Executivo e Judiciário. A imprensa é e deve ser livre, menos para cometer crime. Um dos responsáveis pela difusão dessa impunidade, foi José Dirceu, provavelmente uma das suas maiores vítimas. Ele se cansou, dizendo que a imprensa vinha se comportando como partido político. Que podia se comportar assim, desde que deixasse isso claro. Bobagem, irrelevância. Isso é tão óbvio,
como chamar essa imprensa (como fazem certos militantes de esquerda) de "Imprensa Burguesa". Tudo bobagem. O fundamental seria abrir uma discussão com a sociedade, para que ela se manifestasse, sobre qual o tipo de imprensa ela acredita ser a ideal.

Jair Alves – dramaturgo
09/04/2008

Dramaturgo j.ALVES responde

ao Jornalista ph.AMORIM


O Dramaturgo entra na luta do Jornalista, pela melhoria do trânsito na cidade de São Paulo.
“Vejam só a Avenida Paulista, às seis da tarde. ASSIM NÃO DÁ!”.


Caríssimo Paulo Henrique

Certa feita, a jornalista Suely Pinheiro entrevistando outro jornalista (Heródoto Barbeiro) ouviu dele que "não existe imprensa independente", o que, de início, estou propenso a acreditar. Mas, faço algumas observações:

- Suely Pinheiro, o senhor me disse, ao telefone, não conhecer. Azar o seu. Deveria! Caso se desse ao trabalho de entrevistá-la, talvez pudesse contribuir para esclarecer um dos mais enigmáticos temas de nossa história contemporânea. Por exemplo, no seu último trabalho contratado (que a ela foi permitido realizar) organizou um curso de Jornalismo Econômico, do qual participaram, como professores, um secretário de Estado (também ex-ministro do Planejamento) e o atual Ministro da Educação. Depois disso, a sua companheira de profissão aumentou a lista dos excluídos por Deus (Mercado). Quanto a Heródoto, é normal que o conheça. Já trabalhou com ele, em duas empresas distintas;

- Já, falando em história, nos dias atuais o senhor tem sido, sim, personagem dos últimos capítulos, com algum destaque. Isso, eu afirmo! Porém, vamos colocar os pingos "nos devidos is". Normal que pense fazer um jornalismo independente, mas se equivoca. Ouso dizer que, querendo fazer puro, crítico, acaba criando uma modalidade inédita (até agora) na vida da República - o jornalismo dialético. Este, talvez, seja o ponto mais interessante de sua passagem pela história brasileira.

No dia de ontem (01 de abril) o senhor fez ilações a respeito de espetacular chantagem, promovida por conhecido personagem de nosso sistema financeiro, contra membros do governo federal e o partido que lhe dá sustentação, ameaçando-os com uma lista de propinas (aplicativo Excel). Essa planilha seria colocada, provavelmente, sob a porta das principais redações dos jornais que o senhor, sutilmente, nomeou PIG. Mais, como argumento maior, justifica dizendo ser esta manobra, pra lá de sensacional, colada à sua estada em NY, aonde teria presenciado in loco medidas judiciais de um tal banco, sediado em W.D.C. O senhor finaliza, concluindo que o tal acordo nos faz lembrar o expediente que faz parte de nossa cultura - acerto que agrada a todos os que mandam, de fato, no dinheiro que, como diz o poeta baiano, constrói e destrói coisas belas. Mas, eu discordo de um ponto: em primeiro lugar, sugiro trocar o nome desse Acórdão para “Sexta-feira Espetacular”. Ecoa como mais um escândalo, produzido pelas páginas do PIG que, como se sabe, vive toda sexta feira abalando a República, colonizada por Pinheiros, Barbeiros e Amorins. Mais ainda, lembro a passagem traumática no Brasil, do regime monarquista para republicano, o que fez com que a classe dominante se dividisse, através das páginas dos jornais antagônicos da época. O feito acabou registrando um rico material do período.

Fez parte dessa contenda, o Estadão e o Diário de S.Paulo, hoje parte das Organizações Globo. Nos dias de hoje, PHA não dividiu a classe dominante, pelo contrário, por conta de seus últimos textos acabou unindo gregos e troianos; árabes e judeus. Com efeito, vem produzindo um material inestimável da atualidade brasileira. Espero sobreviver para vê-lo premiado, pela excelência de seu trabalho. Quanto a Heródoto, continuo acreditando que, de fato, não existe um jornalismo independente, o que não esperava era que fosse legitimado o tal jornalismo corrupto. O que o senhor, tão bem, tem ajudado a desvendar.

Abraços sinceros

(*) Jair Alves - dramaturgo

(*) - Prêmio Vladimir Herzog, pela peça 7 Dias em 2000;
- Tempo de Raul e Guarnica (estréia em junho próximo, na cidade de São Paulo)


02/04/2008

PAULO HENRIQUE AMORIM -

REVOLUCIONÁRIO OU AGENTE PROVADOR? (*)
Provavelmente, nenhuma coisa nem outra. O que parece difícil é ignorá-lo nas suas últimas incursões. Neste sábado, passados os dez primeiros dias de sua demissão sumária do Portal IG, postou, de NY ou do avião, um texto avassalador. Sob o título LULA TIRA DANTAS DA FORCA E FAZ “EL GRAN ACUERDO” COM FHC coloca no mesmo saco, Horacios, Curiacius, Árabes e Judeus. Ou seja, sugere que a metáfora do Vale da M (**) se transformou num brinquedo de criança, perto das acusações cifradas que o texto parece esconder. Este é o erro de Paulo Henrique, que talvez nem ele saiba o tamanho do custo que poderá pagar. Convidamos o leitor a uma reflexão conjunta, sobre esses últimos dez dias, que podem produzir uma outra expressão mais abrangente: "Os Dez Dias que abalaram a República".
Depois de algumas horas de grande expectativa pós-guilhotina, executada pelo oficial de serviço por nome Caio Túlio Costa, Paulo Henrique, já em outro endereço na Internet, despeja vários documentos e informações, por ele guardado ao longo dos últimos cinco anos. O que se deduz é que se vivêssemos numa democracia de copa, sala e cozinha, ao menos uma centena de personagens deveria estar na cadeia, dentro em breve. Não é o que se coloca, no entanto. As informações, já a disposição de qualquer cidadão alfabetizado, não repercutiram na imprensa que, sagazmente, PHA chama de PIG porque esta imprensa faz parte do conluio. O teor de suas mensagens e interpretações (de PHA), mais do que provar que ela é GOLPISTA, demonstra, também, que é CORRUPTA. Ao menos uma dezena de personagens que dela fazem parte, ou não? Pois então, o leitor desconfiado deve ler um a um o que está postado no novo endereço do jornalista, em pauta nesta mensagem.
Além do que já está postado, nesta manhã, PHA sugere que também outros personagens, tais como Palocci, Zé Dirceu e o próprio Lula, estão envolvidos no desmonte da República Brasileira. Nem HH (com perdão da expressão) e nem o mais radical ‘porra-louca’, militante do PSTU seriam tão ousados como foi o jornalista Paulo Henrique Amorim. Só faltou mostrar o pau (não o seu, mas aquele que promete matar a cobra).
Que Daniel Dantas (ao lado de Unger Mangabeira) é um perigo para a Democracia Brasileira, ele (Paulo Henrique) não precisa provar mais nada. Tão pouco precisa sugerir que o IPEA, muito em breve, vai se transformar num departamento do "Ministério do Futuro" (ou seria do pesadelo?). Isso, todos nós já sabemos, até porque outros jornalistas nos ajudaram a compor um painel crítico a respeito. Paulo Henrique só precisa mostrar onde o governo Federal entra como co-autor desse esculacho, ou então provar que Presidente não passa de um paspalhão.
Jair Alves – dramaturgo - SP
(*) Publicado originalmente no http://blogdomacunaima.blogspot.com/
(**) Vale fictício (localizado no centro do Estado de São Paulo) para onde seria deslocado todo o esgoto produzido pelas maiores cidades brasileiras.
29/03/2008

VEJAM AS DIFICULDADES IMPOSTAS

Jair Alves (*)

Não acredito que a expressão BL (clique nas duas letras coloridas para ter acesso ao seu significado) seja a causa de tamanha resistência, na discussão do seu conteúdo. Recentemente, uma jornalista pouco conhecida, foi conduzida à condição de celebridade, da noite para o dia quando popularizou uma medíocre 'baladinha', onde ela mandava a todos tomar no... A imprensa escrita não ignorou, pelo contrario, competiu com a Internet nesse exercício de inutilidade pública. Portanto não se trata de uma expressão “feira”, é outra coisa. A questão que se coloca em BL é que o seu conteúdo faz parte das coisas ditas "proibidas". Se não há preconceito em relação ao conteúdo, por que não discuti-lo?

Diz a Dra. Vanete Thomaz-Soccol (**), uma das responsáveis pelo estudo "Tratamento Anaeróbio de Esgoto e sua eficiência na redução da viabilidade de ovos de helmintos", que a atividade diária do homem gera vários resíduos, dentre eles o esgoto doméstico. Este é coletado e tratado, tendo como produtos resultantes o efluente e o sedimento denominado biossólido. Este efluente volta aos rios, porém o sedimento gera um problema ligado ao seu destino final. Em virtude das dificuldades de se dar um destino adequado ao sedimento resultante, vários países têm estudado possibilidades de sua disposição final, como: incineração, aterros sanitários, disposição oceânica, produção de tijolos, recuperação de solos, alem do seu uso em reciclagem agrícola. Ao explicar o destino do esgoto e o seu retorno à natureza, ela observa ainda: "Pouco se conhece sobre a fauna helmíntica presente no esgoto e no biossólido, resultante desses tratamentos. Além disso, o lodo acumulado nas estações, em leito de secagem, tem sido motivo de preocupação, pois caso apresente agentes patogênicos poderão contaminar o solo e os rios, bem como ser fonte de infecção para pessoas e animais que tenham contato com o mesmo".

Na mensagem anterior, dizíamos que a detecção de elementos químicos na água, em dez (10) das mais populosas cidades norte-americanas, era um sinal de que o mesmo poderia estar ocorrendo também no Brasil, uma vez que o tratamento conhecido e aplicado até hoje em grande escala elimina apenas as bactérias, bacilos, e microorganismos. Imaginemos, agora, se levarmos em consideração as observações contidas no estudo citado acima e outros que, como dissemos, "adormecem nas prateleiras das universidades", o quão grave é a situação da saúde pública em que vivemos. Não se enganem, senhores da imprensa e dos organismos governamentais, o escândalo da dengue na cidade do Rio de Janeiro, além de ter sido um erro político sem precedentes é um crime contra a saúde pública e contra vida daqueles que foram vítimas. Outros virão, se não for colocado na pauta de discussão nacional o saneamento básico e as responsabilidades que os diversos segmentos têm a respeito. O livro BL projeta uma proposta visionária para o futuro, mas, ao mesmo tempo, fotografa o presente.

(*) - Dramaturgo e autor do livro BL


(**) Centro politécnico da Universidade Federal do Paraná.

27/03/2008

PROGRAMA DE TEVÊ DESMASCARA O MERCADO,

MAS ASSSUSTA O EXPECTADOR QUE ACREDITA EM DEUS
BL, U.S. Environmental Protection Agency e os Antidepressivos

Nesta segunda-feira, o jornalista Rodrigo Viana trouxe para o "Entrevista Record News Mundo" o economista Márcio Pochmann que falou sobre o momento econômico mundial e, como não poderia deixar de ser, como diretor do IPEA (organismo veiculado ao Ministério do Planejamento), falar dos estudos deste Instituto quanto ao futuro do Brasil e da economia mundial. Em que pese o confronto pouco explicado de Pochmann à política do Palácio do Planalto, fruto provavelmente da "liberalidade" brasileira que, como disse João Cabral de Mello Neto, "que não se liberou chamais", o economista alinhavou informações alarmantes e que passam ao largo da discussão e análises da atualidade.
A principal delas diz respeito à indicação de que a economia mundial será dominada, num curto prazo, por quinhentas empresas multinacionais, dentre as quais cento e cinqüenta delas serão chinesas. China que, neste momento, dá provas do tipo de democracia que pretende praticar. Não é difícil prever que se esse cataclismo de fato se confirmar, o Estado nacional terá importância relativa ou nula no futuro. O curioso é que nesse mesmo programa de tevê o próprio Pochmann afirma que o caos econômico preste a ser vivido nos EUA será resolvido pelo Estado. Com isso, ele coloca por terra a principal tese dos Liberais (que hoje, no Brasil, passaram a se autodenominar democratas). Sua afirmação simula que a tese de Estado mínimo caiu, como as Torres Gêmeas. E mais: Pochmann confirmou que somente no final do século XIX o mercado foi capaz de resolver grandes impasses econômicos. Fora disso, diante de todas as crises, a começar pela de 29, o Estado nacional foi o grande salvador dessas economias que levariam a ruína toda à população. É de se esperar que venhamos a discutir muito sobre o que se coloca como futuro do Brasil e do mundo, nos próximos anos, começando por aquilo que nos é apresentado agora como pauta.
Mas que diabo isso tudo tem a ver a ver com a entrevista do economista rebelde, à frente de uma Instituição Governamental, e a repercussão da notícia que liga o escândalo da água contaminada com elementos químicos, provenientes de antidepressivos, anticonvulsivos e antiinflamatórios, ao livro BL recém aprovado pelo Ministério da Cultura?
O livro em questão não despreza as conquistas no campo do conhecimento, mas que por razões de Estado são subtraídas da população. Ao mesmo tempo, aponta na direção mais nevrálgica que a ela atinge - a sua saúde. Não é difícil compreender por que a saúde pública se tornou um dos mais rentáveis negócios, nas últimas décadas. O sonho de uma medicina gratuita ficou sepultado nos romances dos escritores visionários do final do século XIX, justamente quando o mercado ainda conseguia resolver seus próprios problemas. BL também remete a uma literatura dos tempos em que o Estado ainda não existia, onde o poder emanava dos pequenos feudos. E foi de lá que o autor extraiu a parábola que dá origem à novela escrita. Na fábula original, um rei guardou por três décadas os dejetos de animais, provocando terrível fedentina. Na atualidade, o fedor existe desde há muito, no entanto sua origem é guardada a sete chaves pelas autoridades governamentais, como fonte de lucro fácil.
Resta a pergunta, ainda não respondida: como é possível combater a contaminação da água e, mesmo assim, ainda permanecer nela, componentes indesejáveis como as partículas descobertas pelo U.S. Environmental Protection Agency?
a) Parte da água captada para tratamento e que, posteriormente, entra em nossos lares como produto final a ser consumido tem origem do esgoto;
b)O tratamento recebido, quando eficaz, elimina os agentes vivos, tais como coliformes fecais e outras bactérias menos resistentes ao cloro que, nessa água é aplicado. Não elimina, no entanto, as partículas dos antidepressivos e de outros medicamentos, pois esses não são organismos vivos, e sim componentes químicos. Seria preciso produzir um reagente para cada elemento químico desses, desconhecidos até prova em contrário. Mas, isso levaria ao colapso do Sistema;
c)Existem centenas de pesquisas, adormecendo nas prateleiras das Universidades (ou esquecidas em publicações) que só os iniciados lêem, que induziriam, se aplicadas às políticas públicas, a uma outra solução para o saneamento básico. No entanto, esta é uma questão, como se diz - política. Não é, portanto, uma questão de Saúde, Conhecimento, Racionalidade e Justiça.
O livro, ao que tudo indica, bate de frente com as teses governamentais e as empresas que hoje dependem do Estado para a sua sobrevivência.

19/03/2008

CAMPANHA PARA A LEGALIZAÇÃO DE BOSTA LAVADA

Ao ser submetido a julgamento pelo CNIC (Comissão Nacional de Incentivo à Cultura), órgão do Ministério da Cultura, em novembro último, o Livro "Bosta Lavada", de autoria do dramaturgo J.Alves, foi classificado pelos técnicos responsáveis, como "Conteúdo de Cunho Cientifico". Impedido, portanto, de receber Recursos da Lei Federal de Incentivo à Cultura ou Lei Rouanet. Em função disso, a editora responsável pela publicação impetrou recurso, que vai ser julgado na próxima semana, entre os dias 18 e 20 de fevereiro.
A decisão da Editora em recorrer a tal decisão, se deve ao fato de a mesma não aceitar a definição dada ao livro. O livro, Bosta Lavada, nada tem de científico. Pelo menos não pretende se colocar como tal. Foi escrito como literatura política, em forma de novela epopéica. É literatura pura, afirma o autor. Apesar de reproduzir informações que revelam conhecimento, o livro não pretende defender nenhuma tese a respeito dos dejetos humanos. Fala de direitos humanos. O objetivo do livro (e do autor) foi construir uma parábola, com começo, meio e fim, de uma trajetória do processo colonizador e civilizatório do Brasil contemporâneo. Em sua estrutura, Bosta Lavada revela aquilo que já foi provado por dezenas de trabalhos acadêmicos, que adormecem nas prateleiras das Universidades. A maioria deles, sequer publicada, por falta de uma política editorial adequada para o momento social e cultural em que vivemos. Culpa, portanto, do Ministério da Cultura e não de nós, artistas.
Tudo leva a crer que, tanto autor como a editora em questão, entraram de gaiatos numa disputa interna do governo Federal. De um lado, o Ministério do Meio Ambiente, com Marina Silva e, de outro, o Ministro-Chefe da Secretaria de Planejamento de Longo Prazo da Presidência da República, com status de Ministério, tendo à frente o enigmático advogado Roberto Unger Mangabeira. Ambos os Ministérios defendem posições antagônicas, a respeito da Região Amazônica. A ministra insiste na defesa da Amazônia, como um santuário, e não se cansa de afirmar sua frase de efeito: "já fizemos o dever de casa". A defesa submissa de uma agenda internacional de combate ao aquecimento global, além dessa postura religiosa demonstram, ao mesmo tempo, atitude anticientificista e pentecostal. Já Unger Mangabeira, ex-advogado do empresário Daniel Dantas, envolvido no Brasil, ainda, em questões sérias nas disputas pelas telecomunicações, defende o oposto, ou seja, para ele a solução para a Amazônia virá através de um novo estatuto jurídico (ver link). Ele faz uma proposta, como uma panacéia para todos os males, sociais e econômicos. Na verdade, é mais uma cortina de fumaça que, se vingar, criará condições para a instalação, na Amazônia Legal, de indústrias de ponta, com capital estrangeiro. Estas, não permitidas, hoje, pela legislação brasileira.
Por ora, o instrumento conhecido de Unger Mangabeira é apenas um manifesto (PROJETO AMAZÔNIA-ESBOÇO DE UMA PROPOSTA), que contou com a imediata adesão do atual ministro da Cultura, Gilberto Gil. Este, envolvido involuntariamente e indiretamente nessa disputa. O mais curioso desse episódio recente, é que o único ministro do atual governo a assumir uma posição, a favor do Ministro-Chefe, foi o compositor e cantor. Uma contradição se levar em conta que o mesmo é o mais importante quadro do Partido Verde e, esta tese contra o desmatamento é muito cara a esse partido.
Para os proponentes de Bosta Lavada, o caso revela uma ação do MINC (ou parte dele), querendo ser mais realista do que o rei. Dizem os proponentes, que o maior problema do Brasil não é a Amazônia, e sim o caos social vivido nos grandes centros, para os quais nenhum dos dois ministérios aponta uma saída. Lentamente, pelos meios de comunicação, tomamos consciência de que habitamos apenas 25% por centro do território nacional, incluso aí as áreas de extrema pobreza como o nordeste e o semi-árido. O resto é Região Amazônica. Bosta Lavada expressa, de um lado aquilo em que se transformou a política brasileira, um Vale da M, de outro a luta desesperada de uma população faminta, que corre atrás de melhores condições de vida e sobrevivência.
Talvez, o episódio da ilegalidade de Bosta Lavada tenha relevado que tenhamos nos acostumado a tratar somente dos escândalos, sem dar espaço para o aprofundamento e discussão das causas que resultam nesses escândalos. Se assim o fizéssemos, chegaríamos ao conteúdo dos mesmos e, conseqüentemente, construiríamos futuras soluções.
15/02/2008

PENA QUE PENA QUE COISA BONITA, DIGA!

QUAL A PALAVRA QUE NUNCA FOI DITA, DIGA!
- Emmanuel

Qualquer maneira de amor valerá. Eu troco qualquer 11 de setembro, por quantos 10 de janeiro ainda possam vir. Troco todos os dias da minha vida, por tantos outros 10 de janeiro como esse, onde seqüestrados despendem-se dos guerrilheiros das Farc, na selva amazônica e, graças a uma das maravilhas das comunicações, falam para que o mundo inteiro ouça: "Gracias, presidente. Mil veces gracias". Este é o brado da antiguerra, que sepulta a cultura política da destruição. É a pá de cal nas peças publicitárias que, disfarçada ou explicitamente pregam a morte. Já dizia JCMartinez Correa, no seu filme 25, "É preciso matar a morte".
É provável que Milton Nascimento e Caetano Veloso não tenham pensado que um dia essa modesta canção, escrita nos longínquos anos 80, viesse a se transformar, hoje, no hino da vitória da paz de todos os sempres. E sempre será.
Desde as primeiras horas desta tarde, o canal Record News transmitia para quem quisesse ver e ouvir os passos decisivos de uma libertação símbolo, para se atingir tudo aquilo o que queremos - o binômio, diversidade e paz. E ali estava, aos olhos de todos, a parte feminina dessa questão emblemática - Clara Rojas, mãe de Emmanuel, filho de guerrilheiro, nascido na Selva Amazônica. Outras tantas canções virão, eu sei, imoladas por esse dia tão significativo - Qualquer maneira de amor vale o canto!
Bastaram alguns minutos para conferir na emissora ainda mais poderosa do continente, na sua versão paga (Globo News), para ver que outros 11 de setembro ainda virão. Lá estavam dois comentaristas furiosos. Um, por nome Herval (o cínico) e outra por nome Hipólito (a especialista), vomitando palavrões, impróprios para o momento. O foco para esses propagandistas da guerra não era o gesto humanitário e simbólico, em direção à paz, e sim a pregação pró-EUA, como se não estivéssemos enojados dos insucessos norte-americanos, na sua política de guerra de extermínio e humilhação do inimigo. Quantos Bagdá ainda teremos, antes da paz? Qual a palavra que ainda não tinha sido dita?
Emmanuel. Nome de anjo e profeta.
Jair Alves - dramaturgo e escritor
11/01/2008

RECORD NEWS E O E.T. DE VARGINHA

Jair Alves - dramaturgo e escritor


Desde setembro último o Brasil conta com uma emissora de televisão inteiramente direcionada a difundir notícia e informação, gratuita e sem grandes preocupações com a veiculação de comerciais. Ao menos é o que parece. Apesar da peça publicitária elaborada pela sua direção divulgando o seu conteúdo, é possível que os objetivos não sejam exatamente o que está anunciado, mas nem é importante e sim o efeito ET de Varginha que tal evento vem provocando. A estranheza é tanta que, com toda certeza, nem mesmo alguns profissionais de ponta da emissora têm uma dimensão exata do que a criação da Record News vem representar para o jornalismo atual (isso, nós veremos mais à frente). Na última edição do mês de um de seus programas - Entrevista Record, o âncora e jornalista Celso Freitas, reuniu três profissionais para falar sobre os bastidores da notícia. Ele apresenta este programa, semanalmente, sempre às quintas feiras. Dessa vez, os convidados foram o cineasta-documentarista, Vladimir Carvalho; o jornalista investigativo (assim ele é conhecido) e professor da USP, Cláudio Tognolli; e o apresentador da emissora, Eduardo Ribeiro. Não foi o melhor programa da série, dentre os melhores destacamos àquele feito com Arnaldo Duran, sobre sua premiada reportagem, falando dos garimpos clandestinos. Porém, esta última edição do ano transformou-se numa peça emblemática dos tempos atuais e do que vem ocorrendo com essa Salada Corintiana (*), por nome Imprensa Brasileira.
Começando com Vladimir Carvalho(*), sem dúvida o único prejudicado uma vez que seu documentário sobre José Lins do Rego acabou não tendo nenhuma repercussão. Tributamos esta falha à parafernália que se transformou os meios de comunicação. Em outros tempos, seria tema de grande discussão. Já Tognolli escancarou o abismo existente entre o que se faz e o que se fala no mundo da notícia. Sua arrogância acadêmica - própria dos tempos bicudos em que vive o setor - beirou a porraloquice, ao revelar sua participação num hipotético episódio, envolvendo a Diplomacia Brasileira e a família do engenheiro brasileiro, morto no Iraque anos atrás. Sem maiores comentários. O que é relevante anotar é a profissão de fé de Tognolli, ao dizer que a revolução tecnológica provocada pela Internet e todos os seus instrumentos venha a sepultar o jornalismo, como instrumento de informação e formação da população brasileira. É evidente que o jornalista e professor titular da USP está com seus olhos grudados numa realidade distante (Nova Iorque, Londres e Amsterdã) e um quase nada sobre o que acontece aqui a cerca de 300 km da capital paulista, onde por sinal está sediada a RN. No entusiasmo, Eduardo Ribeiro acabou apostando suas fichas nessa mesma tese, mas errou. Acreditamos, por excesso de trabalho com pouco tempo, talvez, para uma reflexão mais apurada. E, agora, mostramos o por quê.
A Record News está desenvolvendo uma missão extraordinária porque, com planejamento ou não, criou edições diárias de jornalismo regional: Sul, Sudeste, Nordeste e uma edição viúva para o interior e litoral paulista. Importante dizer que essas edições são mostradas em cadeia nacional, daí as contradições ainda não avaliadas corretamente. Como é sabido, em qualquer outra emissora, uma matéria jornalística regional só é incluída em cadeia nacional se o assunto for esfuziante. Eduardo Ribeiro deu como argumento do acerto de tal medida da Record News, ao veicular notícias do nordeste, o fato de a cidade de São Paulo abrigar muitos nordestinos. Ele errou. Isso não é relevante. O mais importante é que o dia-a-dia do nordeste, do sul, e de capitais como BH e o interior de São Paulo passaram a ser universalizado na programação desta emissora, e não apenas um fato isolado. A repórter da Record, residente em Belém do Pará - Aline Passos - e tantos outros profissionais que trabalham fora de São Paulo e Rio de Janeiro têm trazido à televisão brasileira uma contribuição inestimável para essa universalização. Da mesma forma, a grande maioria das matérias que compõem a edição diária da RN Paulista são indispensáveis, inclusive àquelas mal realizadas, por falta de equipamento técnico (Araraquara só tem uma equipe de filmagem), porque registram o atual estágio em que vive o Brasil e a sua estrutura jornalística. Houve um dia, por exemplo, que este programa colocou no ar uma cobertura feita de um acidente, com fotos captadas por celular, provavelmente de uma pessoa que estava próximo do local do acidente. Este é o quadro real em que vivemos, e não àquele, fruto da imaginação criadora do jornalista e professor da USP, Cláudio Tognolli. Há muito a ser feito agora, e não depois. Nesse particular, a Record News está cumprindo o seu papel messiânico. Dane-se o resto.

(*) Filmografia de Vladimir Carvalho:
• Romeiros da Guia - 1962
• A Bolandeira - 1967
• Vestibular 70 - 1970
• O País de São Saruê - 1971
• Incelência para um Trem de Ferro - 1972
• O Espírito Criador do Povo Brasileiro - 1973
• O Itinerário de Niemeyer - 1973
• Vila Boa de Goyaz - 1974
• Quilombo - 1975
• Mutirão - 1975
• A Pedra da Riqueza - 1976
• Pankararu do Brejo dos Padres - 1977
• Brasília Segundo Feldman - 1979
• O Homem de Areia - 1982
• O Evangelho Segundo Teotônio - 1984
• Perseghini - 1984
• No Galope da Viola - 1990
• A Paisagem Natural - 1991
• Conterrâneos Velhos de Guerra - 1991
• Negros de Cedro - 1998
• Barra 68 - 2000
• O Engenho de José Lins do Rego - 2006

(**) Prato típico, feito com verduras, legumes e frios de todo tipo.

30/12/2007

VINTE ANOS DEPOIS DO MALANDRO LUIS ANTONIO

Por Jair Alves

Para todos os componentes, de todos os tempos,
da Cooperativa Paulista de Teatro


Véspera de Natal do ano de 1987, a classe artística foi sacudida com uma notícia, no mínimo insólita. O diretor teatral Luis Antônio Martinez Corrêa é encontrado morto, dois dias antes, vítima de um assassinato insano, em seu apartamento no Ipanema - Rio de Janeiro. Mais tarde, esse tipo de crime se tornaria comum na vida urbana, especialmente em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. Para muitos, aquela violência era uma novidade, para poucos era o rastro da serpente que começava a se manifestar de forma clara e inequívoca. A tão cantada violência dos dias de hoje já se manifestava naquele tempo, e esse grande artista e amigo foi vítima. Diante de tamanha brutalidade, muito pouco pôde ser feito. De minha parte, escrevi logo em seguida um texto teatral, mostrado nas cidades do México e Washington, que provocaram as mais diferentes reações. Nem entendi direito porque tamanha gritaria. A peça relata as condições em que um artista, depois de ter sobrevivido uma ditadura do Estado, acaba sucumbindo diante de um verdugo infame. Hoje entendo a intensidade das discussões naquelas cidades, elas estavam bastante avançadas, em relação ao que aqui nós ainda ingenuamente acreditávamos. Os nativos da província brasileira achavam que bastava tão somente conquistar o Poder do Estado, para resolver todos os nossos problemas - as questões sociais, ao menos. Hoje, passados vinte anos é oportuno indagar o que de fato aconteceu com o contexto social? A seqüência de modificações políticas nacionais parece que perdeu importância. Para muitos, a História morreu e a Arte, por sua vez, nada mais representa do que um produto de consumo. Dentro de processo que se inicia era natural, no final de 1987, que um artista com a formação que tivera Luis Antonio fosse uma das primeiras vítimas, não a única, apesar de seu significado simbólico.
No ano seguinte (1988), as forças progressistas tiveram importante vitória eleitoral, vencendo as eleições municipais nas capitais brasileiras, expressivamente na cidade de São Paulo e em quase todas as cidades do ABC paulista. Registra-se aí que essa vitória aconteceu nos minutos finais do segundo tempo, fruto da violência explícita do exército brasileiro que metralhou operários em greve, na Usina de Volta Redonda. O ocorrido, algumas horas antes, teve grande repercussão nacional, interferindo significativamente no resultado do pleito. Nas eleições presidenciais de 1989 os conservadores deram o troco, produzindo o mesmo fenômeno, artificialmente (seqüestro do empresário Abílio Diniz e entrevista bombástica, acusando o candidato, hoje presidente da República – Luis Inácio Lula da Silva - de ser pai de uma criança, o que ele nunca tinha negado). Naquele momento, a população ainda se ruborizava com esse tipo de escândalo, verdadeiro ou não Era, sem dúvida, mais um capítulo da luta pelo poder do Estado.
Nos anos que se seguiram, por mais de uma década, mesmo sem ter perdido o Poder do Estado, os responsáveis por aquela miséria social que começava a se manifestar não conseguiram estancar seus efeitos. Hoje, os apelos dos progressistas de um lado e dos conservadores do outro se confundem e, na maioria das vezes, a população fica atônita sem saber para que lado corre o rio. Daí é legítimo perguntar onde a vida e obra de Luis Antonio podem ser vista, como contraponto desse caos urbano? O mundo desse artista foi elaborado, pacientemente, numa atmosfera muito rica onde não faltaram informação e formação humanista. Filho mais novo de uma família de sociólogos e Artistas, criado num ambiente escolar formidável. Seu pai, um educador, foi praticamente diretor de escola secundária a vida toda, e sua mãe a perfeita personagem título de “Mãe”, do romancista russo, Gorki. Seu universo literário, o melhor. Teve sua primeira experiência, como diretor teatral, aos 16 anos, sempre voltado a aprender. Sua matéria prima era a vida das prostitutas, que se reuniam muito próximo à sua casa - a famosa Rua 7, na cidade de Araraquara, para desespero das famílias conservadoras. Sua devoção era o teatro, e tinha um carinho muito especial e fraterno pelas mulheres, com certeza a retribuição para a vida diária do mesmo carinho recebido das irmãs e mãe. Luis Antonio era o caçula. Já em sua terra natal começou a elaborar seus projetos teatrais, que marcaram sua vida profissional e o teatro brasileiro: Casamento do Pequeno Burguês; O Percevejo, e o que se transformou na sua principal obra, apesar de dividi-la com Chico Buarque de Holanda, a Ópera do Malandro. Durante muitos anos estudou, exaustivamente, duas óperas predecessoras, a saber, Opera dos Mendigos e Opera dos Três Vinténs, (de John Gay e Brecht, respectivamente). A morte de Luiz Antonio, em 23 ou 24 de dezembro de 1987, espetado como um São Sebastião, significou que no mundo atual não se tem espaço para viver, como queria o artista e amigo, muito menos espaço para o sonho que ele projetou. As cenas criadas por ele, tendo como cenário de papelão, são a expressão mais intensa da vida. Luis Antonio não ousaria colocar um corpo morto em cena, ainda que fosse um ator que, ao final, se levantaria ao apagar das luzes. Não fazia isso porque repudiava a morte e a violência. Morreu sendo vítima dela - cenas que povoam, hoje, os noticiários do horário nobre e os filmes que prometem bilheterias avassaladoras. Tudo blefe.
No lançamento de O Percevejo, em São Paulo, fui me encontrar com Luis Antonio no balcão da chopperia do Sesc-Pompéia. Lá estava ele, impecavelmente bem vestido. Estréia concorrida, com presença de Caetano Veloso que, naquele momento, dava uma canja no show de Jorge Mautner que animava a festa. Ficou feliz ao ver que um dos irmãos Campos viera com camisa vermelha, para lembrar os bons tempos da Revolução (estávamos em 1983 e o Estado socialista Soviético só cairia seis anos depois). Convidei-o para tomar um chopp e ele, com vergonha, disse que estava sem um tostão. Não permiti que o constrangimento fosse a interrupção daquela magia, e falei: “Podemos, enfim, comemorar. Ainda que indiretamente conseguimos trabalhar juntos”. Ele respondeu, “É verdade”. Naquele ano a Cooperativa produziu os quatro melhores espetáculos da cidade de São Paulo. Percevejo era um deles. Incrível mundo esse em que vivemos. Cria cenas como àquela onde o artista, por essa época, tinha produzido a Opera, enriquecendo muitas pessoas e, indiretamente, gravadoras, multinacionais, projetando carreiras de muita gente, mas não tinha um vintém para pagar um chop. Não era preciso naquele momento, ao menos. Eu pagava. Mas, por quanto tempo?

Luis Antônio Martinez Corrêa ainda será mais do que um nome de Casa de Cultura, e muito mais que um logradouro. Vai ser referência para muitas gerações de jovens, até o final dos tempos. Sempre haverá um piano, tocando ao fundo The Ballad of Mack the Knife, em português, com palavras de Chico Buarque de Holanda (como se dizia antigamente).

13/12/2007

BOSTA LAVADA EM TRÊS CAPÍTULOS (*)

Por Jair Alves – dramaturgo e escritor

Capítulo 1 - O HORROR

Por que será que até muito poucos anos atrás programas de tevê que exploravam a desgraça humana atingiam índices de audiência alarmantes, e hoje essa audiência diminuiu significativamente? Esses programas projetaram nacionalmente apresentadores sensacionalistas, como José Luiz Datena e Márcio Resende. Tal tipo de apresentador ganhou força com discurso conservador, exigindo das autoridades medidas imediatas e urgentes. Nenhum deles, contudo, ousou denunciar a própria polícia como parte dessa violência. A tônica foi sempre contra uma autoridade onipresente, que tanto poderia ser o executivo, como o próprio legislativo que não cuidava de criar leis mais severas contra o crime. A resposta, talvez, esteja no fato de essa população desprotegida, que tanto colaborou com o aumento da audiência e dos salários desses profetas de feira, ter se conscientizado que não basta um executivo alinhado aos anseios populares e polícia (em especial a Polícia Federal) prendendo gente poderosa. É preciso, pacientemente, mudar as demais estruturas da sociedade, o judiciário e um tal quarto poder - os meios de comunicação. Essa necessidade de mudança se sobrepôs às demais demagogias que ainda aqui e ali insistem em permanecer. Fora isso, a realidade tem sido mais escandalosa, verdadeiramente, do que o pandemônio criado pelos apresentadores dos programas ditos policiais. Como conseqüência, a audiência caiu.

Capítulo 2 - CAPACIDADE DE SE INDIGNAR

Em recente programa, veiculado pela Record News(**), a jovem jornalista Adriana Araújo, ao debater com seus convidados sobre o ocorrido no interior do Pará insistia em querer saber se nossa capacidade de indignação tinha se diluído. Essa ansiedade destoa dos demais profissionais da emissora, que tem pautado pela discrição. Tardia encenação da jornalista que precisa tomar cuidado para não se credenciar a ser um desses profetas do fim do mundo. Ao ler a minha pergunta ao Promotor Paulo Affonso (SP), sobre como seria a participação do Conselho Tutelar de Diadema, ela cortou a parte que remetia aos descalabros que desde a muito vem ocorrendo com menores e mulheres, nas prisões brasileiras. A ânsia de punir os agentes públicos mais diretamente ligados ao caso do Pará, reduziu a questão a um “arroto”.
A realidade é muita mais sofisticada do que uma simples escolha de “quais cabeças devem rolar?” A sensatez de dois convidados naquela noite indicou que a sociedade brasileira precisa olhar e ver o tipo de política carcerária que vem financiando e decidir se é isso mesmo o que quer. A origem do problema está quando se aceita como imutável a máxima de que é preciso prender e matar “tudo quanto é bandido e contraventor”. Precisamos discutir quais instrumentos a sociedade oferece para um inocente se defender. Por outra é preciso discutir também em que medida a situação privilegiada de determinados criminosos e contraventores poderá levá-los à impunidade.

Capítulo 3 - AS ENTRANHAS DE TODOS NÓS

Por que temas como o trabalhado no livro VALE DA M causam tanto nojo e repugnância na maioria das editoras do país, indiferença na maioria das editorias dos jornais diários, e uma espécie de “censura branca” do Ministério da Cultura, impedindo que o projeto BOSTA LAVADA se credencie a receber patrocínio de pessoas físicas e jurídicas? O caso CNIC&BOSTA LAVADA se vê demonstrado nas mesmas questões dos capítulos anteriores, ou seja, há uma espécie de index (rol de assuntos e pessoas) que não podem ser discutidos, tão pouco levado a êxito. É como se fosse um selo de morte, carimbado em qualquer que seja o assunto relacionado à miséria humana. De nada adianta a ONU, no mesmo ato em que reclassificou o Brasil em posição melhorada, em relação ao IDH, apontar que a situação do saneamento básico no país está próxima a Nações africanas. Os olhos não abrem, e se abrem não vêem apesar das evidencias. Da mesma forma como vemos o escândalo da precariedade do saneamento básico no Brasil, vemos a situação carcerária, e da justiça social idem. Os incautos que se aventuram a meter a mão na massa orgânica de nosso mundo social seja ele presidente da república, jornalista, cientista ou mesmo um modesto artista acaba sendo condenado ao escárnio. Por outra, toda obra tem um final, mesmo que seus efeitos sejam notados muito tempo depois. É com esse espírito que difundimos nossa convicção de que é preciso navegar. Como diria o poeta - “vou brigar com a ignorância, vão me matar por qualquer pretexto”. E a água escura percorrerá um longo caminho, até o sertão nordestino, e lá vai chegar transparente como propõem os dois personagens de o VALE DA M.

(*) Projeto artístico enviado ao Ministério da Cultura, que deu origem ao Livro VALE DA M
(**) Entrevista Record , levado ao ar diariamente pela Record News, sobre temas diversos da atualidade.
02/12/2007

POR QUE SERÁ QUE DANILO NÃO SE LEMBRA?

J.alves - dramaturgo e escritor

Tinha feito um voto de não aborrecer Danilo dos Santos de Miranda, diretor do SESC-SP, pela sua desastrada participação no programa do Jô, em novembro deste ano, porém com a manifestação de arrogância do ex-presidente FHC, na última semana, fazendo digressões a respeito da Cultura e Educação, com alvo certo no atual e eterno presidente Lula, me sinto no direito de autopsiar a dita entrevista, citada acima. Vivemos hoje tempos bicudos, como se dizia nos anos da Ditadura, pois não basta ter o poder do Estado nas mãos. O povo, por certo, não tem o poder econômico, nem o controle das instituições mais poderosas e, muito menos, um canal para se expressar, sem censura. O povo ainda continua “falando de lado, olhando pro chão”, como diz aquela música de Chico Buarque.
Senão vejamos: que conceito de educação é este, anunciado por FHC em seu mais recente manifesto? Educação pressupõe preparação, conhecimento. Cultura é outra coisa. Na definição do educador Paulo Freire, Cultura é o que resulta da ação do homem sobre a Natureza, inclusive sobre a natureza humana. Nem sempre conhecimento acumulado significa cultura, pode significar erudição. Propositalmente, o ex-presidente, como é sabido, não se comporta como tal, mas sim como um rei destronado que nos quer fazer entender que falar duas línguas ou mais é o supra-sumo do conhecimento. Não é! Sendo assim, em que medida nós podemos considerar uma pessoa preparada, culturalmente? A começar de Danilo dos Santos de Miranda, citado acima, essa definição parece entrar em colapso, considerando sua performance no Programa de Jô Soares. Ele tinha sido ‘programado’ para falar sobre uma publicação do SESC-SP, dos últimos sessenta anos.

Segundo os parcos informes que se pode conseguir pela Internet, ele teria vindo para São Paulo, na década de 60, para integrar o quadro profissional dessa entidade. Era de se esperar que tudo o que tivesse acontecido, no âmbito paulistano, seria do seu inteiro conhecimento, sem erros, sem lapsos. Isso é o que se espera de uma pessoa preparada culturalmente. Nos primeiros seis minutos (no vídeo de 9 minutos, disponível no site da TV Globo) ele errou todas as informações, de forma bisonha, a saber:
- Imaginou que Pelé tivesse feito inscrição da sede do SESC-Baurú, em 54 (como se isso tivesse influenciado significativamente a carreira do genial futebolista), na verdade foi em 56;
- Não reconheceu em que circunstância foi tirada uma foto do diretor Flávio Rangel, ao lado de Cleyde Becker Iaconis (irmã da atriz Cacilda Becker), mais conhecida como Cleyde Yáconis e Laerte Morrone. A foto é de 1972, ensaios de A Capital Federal;
- Imaginou que a foto de Fernanda Montenegro fosse da peça Um Bonde Chamado Desejo (de Tennessee Williams). Não é. Na verdade, é de “Seria Cômico se Não fosse Sério" (de Fredrich Durremath), com seu marido Fernando Torres e Silvio Zilber -1976;
- Não soube dizer em que ano e muito menos que foto é aquela, em que Eva Vilma e Nuno Leal Maia aparecem lado a lado. AÍ sim, Um Bonde Chamado Desejo;
- Confundiu Paulo Autran com Raul Cortes, em O Homem Dela Mancha;
- Não reconheceu a atriz Regina Duarte, em Santo Inquérito;
- E, pior, chamou Perry Sales de Peri, ao lado de Marília Pêra. Imagino, que no papel de Ceci!

Somente a partir do sétimo minuto (dos nove que durou a entrevista), ele começou a associar o nome à pessoa.
A pergunta que fica é: por que essas mesmas pessoas que idolatram Danilo dos Santos de Miranda, como um homem talhado para ser o Ministro da Cultura do governo PSDB (segundo eles, a partir de 2011) consideram-no preparado? Tal convicção seria calcada no conceito de ser ele culto e erudito? Aqui à distância vemos não se tratar de nenhuma coisa nem outra. Talvez, a resposta esteja nas próprias palavras de Danilo, nos minutos iniciais, quando defende que é permitido esquecer, ou apagar da memória, fatos traumáticos que não queremos lembrar. Seria essa a máxima de FHC? Se for isso, não é difícil entender porque os teóricos do Neoliberalismo defendem tanto o fim da História.
No terreno absolutamente pessoal, tenho curiosidade de saber por onde andava Danilo, no exato momento em que essas peças eram apresentadas no Teatro Anchieta (SESC Vila Nova), e que ele publica, agora, como parte da história da entidade? Ouso apostar num palpite - estava ocupado com outras coisas, não com a Cultura!

27/11/2007

"ESTÃO QUERENDO F OS MEUS PAIS"

ou
O Silêncio Da Inocente

J.alves - dramaturgo


Diz a Lei brasileira que quando os pais entram em conflito a prioridade, em qualquer circunstância, é proteger os filhos. Neste caso, falamos da filha do casal clandestino Mônica/Renan. Porém, o que menos tem sido levado em consideração é o que poderia estar pensando ou querendo a filha desse rumoroso enlace e, agora, desenlace sexual. Um dia ela vai crescer e procurar num arquivo perdido de uma biblioteca pública, na Internet ou no instrumento que a vier suceder, o registro de todas as movimentações que se processam hoje. A mulher, hoje criança, se verá diante de uma tortuosa questão: "no ano de 2007 todos queriam F meus pais. De um lado, a turma do PSDB, DEM, PPS, parte do empresariado nacional e a grande maioria da imprensa querendo F com meu pai. De outro, grande parte dos cafajestes do Brasil querendo F com minha mãe, mesmo com um folhetim pornográfico nas mãos ou, quem sabe, um DVD pirata revelando poses que a dita revista não teria publicado". Que dilema!!!

Não é todo dia que filho de senador e/ou jornalista é colocado assim no patíbulo. Dirá ela:

1."Ainda bem que sobrevivi a esse escândalo"!
2."Ainda bem que hoje, passados quase duas décadas, o Brasil superou seus pesadelos e hoje não vive dividido entre os que adoravam ver nas tevês o show de falta de escrúpulos e de outro a "homarada", encantada com as virtudes de um mouse, corretor de celulites, e de um photoshop mágico. Aliás, instrumentos já não usados desde há muito".
3."Felizmente, tudo isso acabou e nada disso me afetou. Mesmo sem nenhum promotor público, saindo em minha defesa. Hoje, com os meus pais, me entendo eu".

São esses os votos desse que escreve essas mal traçadas linhas.

Inútil dizer mais sobre o subproduto do BBB, onde vários são os interesses econômicos em jogo. Menos, é claro, o interesse daquela estrondosa maioria que fica do lado de fora do circo, por não poder adquirir o ingresso ou, quem sabe, nem interessada nessas "vergonhas em praça pública".

No meio disso tudo, um senador que um dia já foi revolucionário diz ser capaz de arrebanhar 10 votos de outros incautos para F o pai da criança. Repete o ex-líder estudantil revolucionário a mesma fábula de seus verdugos do passado. Empunha a bandeira da moralidade, como um profeta de feira, para nos fazer esquecer o episódio nada esclarecido da vida nacional, a pouco mais de um ano. Quanto a este senador, não custa dizer que pensamos sinceramente nas horas, minutos e centavos gastos para a construção de uma liberdade que, afinal, não veio. Quarenta anos se passaram, disso também não é possível esquecer - 08/10/1967. Só nos resta dizer: "Aloízio - vá ouvir, até cansar, aquela atriz brega por nome Cristina Nicolotti, cantando o seu único e estrondoso sucesso (*)".


(*) Tendo dificuldade de entender o recado, basta procurar no Google pelo nome da atriz citada
09/10/2007

VICTOR HUGO E A MELANCOLIA DE ALBERTO DINES

Por Jair Alves - dramaturgo/SP

Victor Hugo – autor de Mélancholia

Alberto Dines escreve hoje, no Último Segundo, um texto por título Os Miseráveis. Ele tenta nos convencer, com um filosofar de botequim, que os números divulgados pelo IBGE, nos últimos dias, a respeito da diminuição da miséria no Brasil, nada representam. Chega a citar Victor Hugo, para escorar seus pobres argumentos. Com toda certeza não levou em consideração uma clássica polêmica, envolvendo dois pensadores (Marx e Proudhon), do mesmo século do autor de Os Miseráveis (a célebre novela). Dines anda esquecido ultimamente, esqueceu, inclusive, do que lhe aconteceu há 30 anos atrás, quando foi expurgado da redação de a Folha de S.Paulo, junto com muita gente boa, no episódio Hugo de Abreu-Silvio Frota e Otavio Frias. Um bom jornalista nunca esquece, vejam e leiam Mino Carta a respeito do mesmo caso. Dines se esqueceu muito rapidamente das mazelas que sofreu. Pelo visto, inclusive, da rasteira que a mesma Folha lhe aplicou recentemente, no início de seu Observatório da Imprensa. Desse episódio só guardou mágoa, nenhuma lição. Fica, quem sabe, a espera de uma oportunidade, no ocaso da vida, de vir a ser ministro ou secretário de algum governo do PSDB ou PFL. Até a próxima rasteira, é claro.
Faz uma comparação chula a respeito de um estadista e de um filósofo, ficando ele do lado do segundo. Sua intenção era ridicularizar a manifestação de Lula, que recomendou na última quinta que lessem a imprensa estrangeira porque só ela estaria avaliando corretamente os seus feitos. Por mais que ele, Dines, tenha se esforçado, convém dizer que não conseguiu. Ele não consegue se libertar do tom rancoroso que o persegue há anos.
Sugerimos a Alberto Dines que ouça mais os compositores populares brasileiros do seu tempo - Cartola, Zé Ketti ou Zeca Pagodinho. Esses, sim, vão arrancar-lhe essa carranca feia e séria, porque esses compositores apesar de estarem do lado dos miseráveis, ainda conseguem falar de rosas, alegria e amor


23/09/2007

CHICO MENDES, BUSSUNDA E ALEMÃO

Por Jair Alves - dramaturgo/SP

O mínimo que se pode dizer é que os dois capítulos da minissérie AMAZÔNIA, dos dias 3 e 4 de abril, provocaram um sentimento contraditório, nem por isso deixou de revelar a tragicomédia que estamos vivendo. Ao mesmo tempo em que era conhecido o vencedor do BBB, com votação superior a 90% dos fanáticos seguidores, esperavam os expectadores notívagos, na terça feira, a aparição dos personagens da terceira e última fase da obra de Gloria Perez, que prometia tratar de cabo a rabo tudo o que envolve a Amazônia brasileira. Na quarta feira, já sem o stress competitivo provocado pela cultura do inútil, alguns saudosistas do tempo do futebol-arte esperavam um feito que, afinal, não aconteceu, ou seja, que Romário marcasse o seu milésimo gol. Nos parcos 20 minutos de encenação do capítulo a emissora procurou esgotar, talvez um dos conflitos mais significativos de nossa era - a série de assassinatos de seringueiros e o desmantelamento da região, conhecida como Amazônia legal. Foi constrangedor o resultado apresentado pela TV Globo, não por falta de recursos financeiros, disso sabemos, muito menos falta de material humano, como veremos.

A aparição de alguns poucos minutos de um ator interpretando Lula, discursando, foi patética. Seria melhor que fosse substituída por aqueles imitadores de programas humorísticos, porque assim ficaria muito claro o que a emissora pensa a respeito do ex-líder sindical e hoje presidente da Nação. De todos os imitadores de Lula, ao nosso ver, Bussunda foi o que melhor se saiu, porque não perdoou cada gesto de seu ex-ídolo, transformando sua imitação numa deliciosa crítica. Mas o humorista também se foi, como Chico Mendes. Bussunda também imitava o seringueiro, repetindo que estava com "o saco cheio" daquela conhecida piada que dizia que 'seringueiro ficava o dia inteiro tirando leite do pau'. Na minissérie que promete seu final para esta semana não sabemos se entramos na emoção que a história nos provoca ou se gargalhamos das gafes. Na terça-feira o expectador foi submetido a um exercício impressionante de cultura novelesca, quando o único elemento que dispunha era o de que o assassinato do sindicalista Wilson Pinheiro ocorrera no exato momento do capítulo final de uma determinada novela, levada ao ar, é claro, pela própria emissora. Com isso, a TV tipificou seu padrão de cultura e informação, quando se apresenta como o único referencial para todo e qualquer assunto.

Mais uma vez, é bom repetir a confusão provocada, de um lado pelo amadorismo de outro uma certa opulência, quando premia os expectadores com um elenco de botar inveja a qualquer superprodução de Hollywood. Há três meses estamos acompanhando a prova de um surrealismo puro. Com isso, é difícil exigir do expectador, em especial do jovem, a mínima coerência nas suas avaliações. Afinal, quem é mais importante no momento? Chico Mendes, com sua história épica para todos os brasileiros, ou um pobre diabo por apelido Alemão? Agora, um rico pobre diabo e futuro freqüentador de todas as revistas comerciais do Brasil e dos programas de TV de outras emissoras, que sobrevivem das rebarbas da recém-celebridade.

A nossa tragédia não encerra ai, embora em muitos casos somente rir nos faz relaxar. Por curiosidade e persistência fomos pesquisar nos sites do partido dos trabalhadores e da CUT e não encontramos uma única palavra, a respeito do assassinato do líder sindical Wilson Pinheiro, levado ao ar pela emissora-padrão. Afinal, “está saindo na Globo!!!”. Era de se esperar uma repercussão, a mínima que fosse. É bom dizer que este partido criou, antes da morte de Chico Mendes, uma fundação com o nome do sindicalista e seringueiro Wilson Pinheiro; depois a organização caiu no esquecimento, numa macabra parábola que os dirigentes não se aperceberam. Nós não vamos facilitar a vida desses dirigentes, dizendo aquilo que não perceberam; vamos continuar, como se diz no BBB - "na nossa".

A minissérie termina nessa sexta-feira santa e, nesse dia, "novamente" morre Chico Mendes. Esperamos que não seja uma morte definitiva. Esperamos que as dezenas de jovens, bonitos e talentosos atores e atrizes que surgiram na minissérie sirvam de inspiração para os milhões de outros jovens expectadores que hoje sonham, um dia, estar na pele de um “alemão”, “árabe”, ou “português” do BBB.

Para finalizar, talvez se a Rede que se vangloriou por ter criado, em computação gráfica, o envelhecimento virtual do personagem Firmino (um ser ficcional) e que deixou o ator José de Abreu preocupadíssimo ("que horror, quando eu envelhecer vou ficar assim?") pudesse usar o mesmo recurso para recriar uma realidade - Lula discursando com 27 anos menos. É possível que o resultado fosse mais convincente e não parecesse tão caricatural. Mas isso a Globo não quer. O que prova que a emissora só é capaz de reproduzir e produzir a fantasia, incapaz, portanto, de nos revelar a fundo à realidade em que vivemos.

05/04/2007

A LEI ROUANET, O CARNAVAL E O JORNALISTA QUE NÃO INFORMA

Por Jair Alves-dramaturgo/SP

No dia que antecedeu o Carnaval de 2007 o Ministério da Cultura publicou, de forma ufanista, uma matéria em seu site, onde explicita a participação da Lei Rouanet nas atividades carnavalescas http://www.cultura.gov.br/noticias/noticias_do_minc/index.php?p=23544&more=1&c=1&pb=1. É preciso lembrar que este episódio é mais uma cena desta comédia de erros vivida por artistas, políticos e jornalistas. Não há nada para se comemorar, ao contrário, os números expressam que vivemos num país do 'faz de conta'. A matéria, em boa hora diga-se, reforça o abismo entre a realidade brasileira e o que pensam sobre essa mesma realidade, os artistas, políticos e jornalistas. Entendam o que queiram entender, quem faz este alerta é um dos poucos que jogou todas as fichas nesse governo. Isso não nos impede de dizer que tem muita comida podre na dispensa.
Os números indicam que 78 projetos, aprovados pelo Ministério da Cultura (CNIC), totalizam aproximadamente 87.000 milhões de reais, todos eles voltados a atividades carnavalescas, contra um quadro calamitoso em que vivem outros importantes segmentos da Cultura Nacional. Este episódio e tantos outros indicam que a informação sobre determinados itens da atividade estatal não está sendo pautada, tendo como objetivo uma discussão civilizada a respeito. Nesta terça-feira gorda o bloguista Josias de Souza, da Folha de São Paulo, não perdeu a oportunidade para destilar o seu veneno e informar coisa nenhuma aos seus leitores. Leia, a seguir, o post com o título Carnaval vai custar ao Tesouro R$ 86,7 mi em 2007 - http://josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/arch2007-02-18_2007-02-24.html#2007_02-20_17_42_20-10045644-0. Sua fobia em "militar" a favor de uma desmoralização do governo federal, além de doentia chega a ser patética. Ele nos quer fazer entender que a totalidade financeira citada será destinada aos projetos, para serem queimados nos quatro dias de carnaval; isso não é verdade, antes fosse. Esse montante é o que está autorizado para ser "captado" pelo proponente, ou seja, a Escola de Samba, o Bloco Carnavalesco, ou mesmo a empresa contratada para realizar o evento. A fúria com que esse assunto é tratado, no blog do soldado opositor ao governo, impede que ele aponte verdadeiramente quais os reais problemas envolvendo este patrocínio estatal às atividades carnavalescas. Não é nossa missão reciclar o papel dos jornalistas na sociedade atual, e sim chutar o pau da barraca na bandalheira que vem acontecendo e, o quanto possível, pautar da maneira mais produtiva tudo o que nos diz respeito.

AOS FATOS: um respeitável senhor contesta o bloguista, com um "Josias, tenha a santa paciência. Por que não informa que estes milhões em renúncia fiscal pela Lei Rouanet geram o dobro em outros impostos recolhidos, além de empregos e tudo mais?". Está errado, também, este senhor. Não é função do Ministério da Cultura - MINC resolver questões econômicas, tão pouco de atividades econômicas voltadas aos trabalhadores das artes e da Cultura Nacional. Essa é tarefa das entidades representativas de trabalhadores, empresários e outros segmentos, ligados à infra-estrutura do setor. Este erro crasso é fruto da adesão às "grandes teses do momento", como uma tal economia das artes. O Ministro entrou nessa, talvez pela sua formação como administrador de empresas, do tempo em que fazia jingles para as baterias Heliar. A tarefa do Ministério da Cultura não é essa, e sim fazer chegar a todos os brasileiros a arte produzida por Braguinha, Arrigo Barnabé, Riachão e milhares de outros; e porquê não, a obra do artista Gilberto Gil?

AINDA O CARNAVAL: anualmente, sempre com espantoso crescimento no seu volume, o CNIC - órgão colegiado do MINC, autoriza projetos para captação de recursos na iniciativa privada. Espantoso, também, é o crescimento de mecanismos que fogem ao espírito da Lei, que outra não é senão "incentivar e proteger a Cultura nacional". Só não vimos crescimento, proporcional, quanto à fiscalização da aplicação dessa Lei. Para fiscalizar é preciso que o Estado cresça, mas isso tem uma ferrenha oposição de bloguistas e de políticos, hoje fora do governo federal. A constatação não é nossa, e sim de conhecido teórico da direita brasileira que dizia "a burguesia nacional e toda classe dominante sempre usou o Estado para fortalecer seus tentáculos, ao longo de séculos. O que era a coroa imperial senão a manifestação explícita do Estado?". O que se trava por traz da ladainha de Estado mínimo e menos impostos é o papel que um Estado democrático pode exercer, na distribuição de rendas e oportunidades neste Brasil.

O que assusta os antigos senhores de engenho é que o desenvolvimento da sociedade brasileira tenha dialeticamente produzido acesso, de forma predatória, às vezes, a um número grande de outros brasileiros que, até ontem, nunca tinham ouvido falar em "Lei Ro... Lei o quê?".

O tema é vasto e os artistas, políticos e jornalistas sérios não podem se omitir dessa discussão.


22/02/2007

POBRES CULPADOS

O que mais impressiona na recente pauta do momento, sobre a diminuição da maioridade penal, nem é mais o seu papel escapista. São verdadeiramente os jovens, menores de 18 anos, envolvidos ou não em atos criminosos, responsáveis pela violência que atinge a todos? De um lado, vemos a manifestação quase que unânime de instituições e pessoas representativas da sociedade, tais como OAB, ministra do Supremo Tribunal, presidência da República, juristas de inequívoca participação na vida nacional, todos contrários a essa solução esdrúxula e, de outro, o fomento evangélico de partidos, pessoas e veículos de comunicação numa cruzada doentia a favor da redução.



O que mais impressiona e salta aos olhos é o caráter autoritário, fascista das soluções apresentadas a essas questões. É de se perguntar porque toda vez que a humanidade revela o seu lado bestial, as soluções para tal problema quase sempre apontam para penalizar justamente de crianças, velhos, mulheres, negros, nordestinos, homossexuais, pobres ou orientais. É de se perguntar se no doloroso caso, envolvendo essa criança morta no Rio de Janeiro, a penalização não recaiu justamente sobre as crianças, não necessariamente sobre o menor que teria participado do ato criminoso. Nenhuma lei, qualquer que seja, é homologada com caráter retroativo, essa criança (sim, ela ainda é criança) não receberá o castigo se qualquer instrumento legal for criado nessa movimentação que se faz no momento. Tudo isso, é claro, pensado a partir do desejo dessa cruzada religiosa insana de punir justamente os mais indefesos.



Que sociedade humana é essa que pretendemos criar? O líder do triste episódio e os seus comparsas não se moveram motivados por nenhuma orientação humanista, muito menos em busca de uma sociedade perfeita. Agiram com o mesmo ímpeto predatório da sociedade competitiva que adora o Big Brother Brazil, e não está nem aí com a destruição da Amazônia, ou de um sonho socialista. Eles querem, na marra, o que a sociedade, tal como ai está, não lhes oferece. Como diria Datena "essa é a grande verdade". Esse caráter punitivo lembra uma cena, protagonizada por Raul Cortês, no filme 'Veredas da Salvação' (década de 60), onde o protagonista prende uma criança dizendo estar ela com o diabo no corpo, para desespero da mãe indefesa, diante de um eminente sacrifício da pobre coitada. Esta é a sociedade justa que queremos patrocinar?



Diante da guerra moral, a TV Globo que tanto dinheiro ganhou com o extraordinário ator Raul Cortes e Jorge de Andrade (autor de Vereda...) é a mesma que procura intervir como agente, nos pleitos eleitorais, e que revelou ontem (13/02/07), no seu último jornal noturno, que na cidade do Rio de Janeiro perambulam pela cidade nada menos do que 1200 menores reincidentes. Não serão essas crianças vítimas dessa sociedade, da mesma forma como o inocente João Helio, imolado há poucos dias? Ou estarão essas crianças possuídas pelo capeta, assim como a criança do filme acima citado?



A escritora Urda Alice Klueger produziu uma crônica belíssima, a respeito da morte do menino João, denominada Pintassilgos, onde compara a imagem do menino, arrastado pelas ruas da cidade maravilhosa, a um pintassilgo. Não deixa, porém, de nos remeter aos assassinatos em massa, cometidos mundo afora pelas mesmas forças que agora pedem justiça. Para os curiosos, é só acessar o link http://macunaim.sites.uol.com.br/urda.htm


Como diria Shakespeare, num de seus monumentais personagens, interpretado (porquê não?)

por Raul Cortes "O RESTO É SILÊNCIO".
10/02/2007

GALVEZ, A GENTE SE VÊ POR AÍ!

Jair Alves – dramaturgo/SP

CURIOSA, se não fosse preocupante a decisão de a TV Globo adquirir os direitos do romance histórico 'Galvez, o Imperador do Acre', do escritor Marcio de Souza. A emissora, no entanto, optou por um escritor menor, e por uma adaptadora ainda menor. Essa escolha resultou, como todos sabem, na minissérie Amazônia, em exibição nos dias de hoje. Começamos a entender o caso com a constatação de que tudo o que não interessa a Globo é que o conteúdo de Galvez, Imperador do Acre, venha a ser conhecido. Mas não é só isso.

PARA QUEM TEVE PACIÊNCIA de acompanhar par e passo os capítulos da minissérie percebeu que a ficção de Glória Perez acaba tendo mais destaque do que a história que, no subtítulo da obra, a TV Globo promete contar. O título Amazônia - de Galvez a Chico Mendes não corresponde à verdade histórica, nem de longe. Está mais próximo de "de Galvez a Chico Mendes, segundo a piração de Gloria Perez". Abundam absurdos lingüísticos, onde a aristocracia metida à besta usa expressões, na segunda pessoa do singular, tais como "tu queres o meu amor" com "deixa comigo", na boca dos filhos abastados dos coronéis. Mas isso não é tudo - TEM MAIS.

EM UMA CENA DO CAPÍTULO do dia 08 de fevereiro, a certa altura, os coronéis da borracha, preocupados com o andamento da "revolução" e da tramóia, envolvendo o governo federal e a Bolívia, um deles diz mais ou menos o seguinte "a exportação da borracha vai ser muito mais importante para todos nós, principalmente com a indústria automobilística". SANTO DEUS!!!! Como é sabido, basta ler em qualquer livro de história que o presidente Campos Salles e o presidente do Estado Silvério Nery governaram o Brasil e o Amazonas, respectivamente, de 1899 a 1903. Ambos são citados várias vezes nas conversas, inclusive com inserção direta da história contada pela Globo. Ora, apesar de Henry Ford ter se interessado pelo motor a explosão, desde o final do século XIX, somente em 16 de junho de 1903, foi criada a Ford Motor Company que passou a produzir em série, conhecido como taylorismo. Como o insignificante personagem da minissérie veio a conhecer tão importante notícia que iria provocar tamanho aumento nas exportações de látex? PELA INTERNET?

MAS A TV GLOBO, como diria Latino "não estou nem aí". Eles perdem a vergonha, mas não a piada. Se colarmos essa gafe aos resultados do conhecimento dos alunos de primeiro e segundo graus SAEB (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica), amplamente divulgados no mesmo dia em que o capítulo foi ao ar, a situação não nos parece assim tão engraçada, e sim trágica. E vejam vocês que a TV Globo, através de um de seus programas, pretende alfabetizar o Brasil, com ensino a distância pela TV Futura. MAS TEM MAIS AINDA.

DESDE OS GREGOS, o protagonista geralmente é o personagem mais destacado da trama. Os demais, muitas vezes pelas circunstâncias, acabam tendo grande importância, porém a fabula contada sempre tem como enfoque o destino do personagem central. A saber: Édipo; Medeia; Antígone; Gimba (Guarnieri); Papa Higuirte (Vianinha), e outros mais modernos. Na minissérie, curiosamente, o coronel Firmino (José de Abreu) tem mais inserções do que o papel-título, o de Galvez (José Wilker). A ficção, ou piração de Gloria Perez é mais importante do que a história de Galvez, que na obra é tratado como se fosse um inveterado mulherengo, sem vergonha alguma, ao passo que o coronel Firmino, apesar de ter um filho fora do casamento, não permite que sua cunhada e mulher dêem um passo em falso, do contrário ambas vão terminar seus dias num convento, enclausuradas. O que interessa para Globo, o que nos parece ser, é o show, o que pode servir como elemento de indução ao momento presente, não importando se isso tem a ver com a verdade histórica ou não. Esse mote, aliás, foi uma escolha desde a muito. Em outras minisséries, que esse humilde escriba não teve paciência para ver e apreciar, o mesmo crime contra a educação nacional também se manifestou. O que é mais do que evidente é que isso serve para os interesses da Globo, não é necessariamente o que a maioria da população quer e precisa conhecer. O compromisso com a informação, o jornalismo sério, deu lugar ao projeto político imediato, e este é inquestionável, vide as últimas trapalhadas em que a emissora se meteu. Com essa amostragem dá pra prever os problemas que vamos ter, quando chegarmos aos tempos de Chico Mendes. Tremo nas calças, mas com muitos personagens ainda estão vivos para contestar os descalabros, morro de expectativa...
Mas a realidade, essa sim, é dinâmica e apresenta contradições deliciosas. No caso, duas envolvendo o ator José de Abreu.

NA REALIDADE: Pouca gente sabe que o ator Jose de Abreu é oriundo do movimento estudantil de 68, foi segurança, naquela oportunidade, do nada menos ex-ministro José Dirceu. A história registra uma foto, na primeira página de o Estadão: José de Abreu de joelhos, sendo preso pelos agentes do DOPS. Também naquela época, José de Abreu figurava entre os atores do espetáculo O&A do TUCA, conhecido grupo, pensado e dirigido pelos então estudantes revolucionários da AP; hoje, na sua maioria, adeptos do PSDB. José de Abreu militava na Dissidência (mesma corrente de Dirceu e Vladimir Palmeira). No período de abertura trabalhamos com José de Abreu, na montagem QUALÉ MEU (1980) que pretendia contribuir historicamente para esclarecer os acontecimentos trágicos dos governos militares. Originalmente, seria uma adaptação do livro O que é Isso companheiro, mas o seu autor resolveu cair fora e vender os direitos para o cinema. Deu no que deu. Sem comentários. Escrevemos a quatro mãos nossas memórias e de amigos e companheiros do passado ainda recente. Da montagem também participou Ecila Pedroso, apenas como atriz, hoje novelista da Globo. BONS TEMPOS AQUELES. O artista gráfico Elifas Andreato imortalizou essa montagem em mais um cartaz, anexado a este texto.

NA FICÇÃO: Nos capítulos anteriores o personagem Firmino, interpretado por José de Abreu, numa conversa com um dos filhos tenta convencê-lo (numa boa) voltar a estudar em Paris. O filho argumenta que prefere o seringal, onde se dá bem, e que "afinal vou tomar conta mesmo". Firmino retruca, dizendo que é importante o estudo porque se ele, Firmino, tivesse estudado teria ido mais longe. O filho, então, contesta novamente "se a escola é tão importante, pai, porque o senhor não deixa criar uma aqui?" Ele arremata, "escola para seringueiro é problema a vista. Vai ficar assim mesmo, e ponto final. Você vai para Paris querendo ou não".

ESSA INSERÇÃO CÊNICA que a princípio poderia ser considerada semente de insatisfação, uma contribuição ao mundo civilizado, se perde nas inúmeras contradições da minissérie que reforça o conformismo e aceitação de uma produção mentirosa. Mesmo com exemplos de belas interpretações, a começar do próprio José de Abreu, a minissérie despreza a cultura, as artes, a história e a inteligência.

10/02/2007

segunda-feira, 5 de maio de 2008

VOX POPULI É A VOZ DAS URNAS

Tudo o que não precisamos é de um corpo, como diz a canção, "estendido do chão". Isso é o que eles, urubus da democracia brasileira, esperam para os próximos dias. Este seria o subterfúgio para radicalizar e tumultuar a vontade popular. Cuidado, "o perigo mora na esquina", diz também a outra canção. Paradoxalmente, tememos o momento seguinte à desenhada vitória do presidente Lula, no dia 29 de outubro. Nesse Estado, o mais populoso do país, é bem possível que não seja razoável sair às ruas para comemorar, como se fez pacificamente há quatro anos atrás. Este desconforto é produto do quê? É o resultado do ódio e preconceito, disseminado ao longo dos últimos dois anos, em especial pela imprensa, comprometida com a candidatura tucana ao palácio do Planalto e, é claro, por ele mesmo, na sua ânsia doentia de chegar ao poder. Essa mesma imprensa terá responsabilidade histórica se, desde já, não se engajar naquilo que é fundamental para a saúde da democracia brasileira, qual seja, o respeito ao resultado das urnas. Se alguma tragédia ocorrer, as condições para que isso aconteça foram plantadas; não temos dúvida que a responsabilidade maior será dessa mesma imprensa, partidária, que não teve limites no seu engajamento. Torcemos, é claro, para que nenhuma tragédia aconteça, e que no dia seguinte, ao curar a ressaca eleitoral a vida do cidadão brasileiro possa retomar um ritmo menos hostil, como esse que vivemos agora. Que tudo pareça, sim, como um dia seguinte ao término de um campeonato de futebol. E por falar nisso, é bom lembrar o que se segue.

No dia 13 de maio de 1989, no primeiro comício como candidato oficial à presidente da República, Lula usava pela primeira vez a metáfora que o acompanha ao longo desses anos, comparando a labuta diária do povo brasileiro ao simbolismo de uma partida de futebol. Dizia ele "vamos ganhar o jogo no campo deles, com o juiz deles". Foi quase assim, ele acabou perdendo o jogo na prorrogação, com ao menos dois gols roubados. O seu adversário, atleta, não quis festa popular na Avenida Paulista, nem na Cinelândia, e em nenhuma praça pública desse Brasil. Tem início ali, com as sobras da campanha vencedora, muita festa prive, culminando com o povo nas ruas pedindo a destituição do malfadado presidente atleta. Mas, isso tudo se tornou história. Hoje, o que se desenha é um dilema ainda não diagnosticado, a saber: a voz das urnas será respeitada? Tudo indica que o aparato montado para inviabilizar a vitória triunfante de um governo, voltado para as aspirações populares, será usado para desmoralizar este feito. E se isso acontecer, estamos próximos de um confronto. É tudo o que não pretendemos. Os indícios dessa disposição já estão nas ruas, nos bares e padarias. Uma minoria mais atuante repete a cantilena difamatória, ouvida e lida na grande imprensa. Esbravejam coisas que nem mesmo conhecem. De qualquer forma, são os mesmos defensores para a pena de morte, os mesmos que propalam preconceitos contra nordestinos, negros e pobres, muitos deles também negros e pobres. Esta é a vida.

O debate quase artificial sobre ética roubou a chance de a maioria da população se manifestar e gozar, afinal, o que lhes pertence por direito - sonhar e sentir que quem decide é a maioria. Com a desmoralização, nem sempre justa, de três ex-presidentes do partido que dá sustentação ao candidato Lula, talvez falte nesse dia de vitória alguém que comande e coordene o que pode e deve ser feito. Quem sabe o próprio presidente, no seu primeiro discurso como reeleito, recomende que todos voltem para casa e, com amigos e familiares, celebrem a vitória silenciosamente. Vitória silenciosa daqueles que, lamentavelmente, não têm voz, emissora de tevê, jornal diário, nem mesmo um computador, como este que escreve essa ridícula crônica. Talvez, esse mesmo presidente recomende que, nesse próximo Natal, em cada canto do Brasil, as comunidades se reúnam para representar a penúltima cena do autor, também pernambucano, João Cabral de Mello Neto, do auto de Natal "Morte e Vida Severina". Cena esta que fala que o sangue novo que "infecciona a miséria, com vida nova e sadia", ou "como um caderno novo, quando a gente o principia".

São Paulo, 20 de Outubro de 2006

Alckmim gosta de Garotinhos

Alckmim gosta de Garotinhos



Toda campanha do primeiro turno deste ano foi marcada pela insistência de um segmento importante da imprensa brasileira, em desqualificar o debate político, voltado às transformações ocorridas no país nesse mandato prestes a terminar. Por quê esse debate não ocorreu? A questão nos parece moral, muito mais do que econômica. Por quê moral? E por quê amoral, ao mesmo tempo?

O primeiro acontecimento político, na largada do segundo turno, foi o acolhimento por Alckmim
do casal Garotinho e sua garotona, de camiseta, com a inscrição no peito, Fora Lula. O tiro pode ter saído pela culatra, apesar dos bombeiros correrem atrás, dizendo que situação análoga teria acontecido com Collor, em favor da candidatura Lula. A desculpa não colou, pois essa fotografia (Collor e Lula) não saiu na Folha, no Jornal do Brasil, no Estadão, e não sairá, no final de semana, em nenhuma revista. O episódio de ontem não passou de uma cena ensaiada, como aquela do mesmo candidato, quando foi fotografado com as pernas abertas, tentando jogar alguma coisa parecida com futsal. Isso também saiu nos jornais, no início da campanha. O tiro poderá te saído pela culatra, pois o apoio amoral do casal de Garotinhos ajudaria em quê? Aumentar os votos em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais? Disso, sabemos que não. Problema, naturalmente, da coligação PSDB-PFL.

O grande problema dos eleitores brasileiros, sem dúvida, é saber se o Brasil melhorou, se pode melhorar mais ou, por acidente de percurso, venha a retornar à sua progressiva submissão aos interesses de forças internacionais. Nesse primeiro turno, essa imprensa citada em prosa e versos descaracterizou o debate. Em nenhum momento a libertação do FMI foi pautada, como importante ou não. A privatização de organismos nacionais, como a Vale do Rio Doce, as Hidrelétricas e as Teles não foram discutidas, na sua profundidade, para saber se houve ou não melhoria das condições de vida da população brasileira. Se o aumento do salário mínimo fomentou ou não a economia, ou mesmo se esse aumento é ou não pífio, diante da miséria social centenária em que vive a maioria da população. Muito menos se discutiu os métodos para o controle da inflação, bandeira, afinal, do governo anterior. Na versão do PSDB, esse controle era mantido com a dilapidação do tesouro nacional; no governo atual, é conseguido no controle do consumo. Qual é o papel que a imprensa exerceu para aprofundar esse debate? Nenhum. Escolheu o que os opositores do governo atual chamam de ética. Então, discutamos a ética.

Contrapõe-se ao episódio Alckmim com os Garotinhos o que aconteceu no calor e tensão da apuração do último domingo. Depois de assistir a uma briga de vaidades das novas estrelas da política brasileira, batizadas pela discutível alcunha de "meninas do Jô", a tela da Globo News foi invadida com um obscuro senhor, professor da UNB, que justificou o papel da imprensa brasileira no capítulo que estava prestes a terminar (o primeiro turno). Dizia ele que a imprensa brasileira (e na sua visão, os honrosos periódicos que procuraram manter a imparcialidade não faz parte da mesma) não tinha interesse no desfecho do processo eleitoral no primeiro turno. Alegou, em resumo, que o prosseguimento do processo eleitoral ajudaria a população a escolher melhor, e que o debate postergado favorecia a imprensa (argumento do tipo "ela também precisa viver"ou "precisa vender jornais"). A coragem do obscuro professor da UNB, dizendo esse insulto à inteligência, não quer dizer que os proprietários dos meios de comunicação sejam tão irresponsáveis, como ele sugeriu, e que tenham fraudado propositalmente a vontade popular, mas nós os acusamos de incompetentes e irresponsavelmente partidários na disputa eleitoral. Em 1998, o mundo vivia uma crise cambial sem precedentes, e essa mesma imprensa simplesmente sonegou seus reflexos na economia brasileira e as verdadeiras razões do arrocho no câmbio e nos salários e, como se diz, "liquidou a fatura no primeiro turno". Sonegou a discussão da conveniência do instituto da reeleição, aprovada durante o primeiro mandato FHC que terminava, gestado e concluído nesse mesmo período. Essa articulação aconteceu a partir do primeiro dia, após a proclamação dos resultados, em 1994.

Na atualidade, não foram os candidatos à presidência os grandes personagens desse primeiro turno, tão pouco os irresponsáveis que armaram e não executaram a compra de dossiê. Muito menos àqueles que diziam "querer vender", e muito menos os nomes que participaram do episódio que justificaria ser considerado material comprobatório de crimes. O grande personagem desse primeiro turno foi a imprensa que, historicamente, tem sido veículo, progressista ou conservador, para a construção da identidade nacional. Nesse caso não, ela funcionou como um atraso, num processo irreversível. É próprio da natureza humana buscar a evolução. No momento, essa grande imprensa, citada pelo obscuro professor da UNB, não passou de um produtor cinematográfico que se vendeu ao mercado pornográfico que, afinal, tem seus dias contatos. Quanto a Alckmim, nem importa se ele gosta ou não de Garotinho1, Garotinho2, ou mesmo da garotona que vestia a camiseta, com a inscrição "Fora Lula". A ele faltou o apoio moral da pose ontem montada. É fácil perceber a pisada, quando hoje seus aliados mais conservadores caíram no constrangimento. Muitos deles, dentre os quais o presidente do PFL disse, "vamos procurar um caminho", o que quer dizer, "que excremento!!!"

Jair Alves - Dramaturgo/SP

06/10/2006

VERDADES E MENTIRAS (*)

Por Jair Alves – dramaturgo


No jornal da Globo desta noite o apresentador, em tom grave, após ser exibida pela enésima vez uma imagem conseguida, de forma ilegal e covarde, pergunta: é constrangedor a exibição da pilha de dinheiro? Ele mesmo confirma que sim, no entanto, diz que mais grave é a tentativa de o PT de ter tentando impedir, na Justiça, a exibição da mesma. Procurar caminho da Lei agora é imoral??? Este é o vale tudo, no qual a população está entregue. Os meios de comunicação, que hoje gozam de toda a liberdade zombam daqueles que, num passado não muito distante, entregaram sua vida para que construíssemos a democracia. Democracia que hoje está sendo usada para que esses mesmos meios de comunicação empurrem, garganta abaixo, uma candidatura que, durante mais de um semestre, não conseguiu entusiasmar o eleitorado.

Os responsáveis por esse programa jornalístico (mas também O Estadão, A Folha, A Veja, Isto É e outros) querem que a população também engula o ilegal, como "mal necessário". Tripudiam àqueles que procuram os limites da lei, para se proteger. Nas últimas semanas, vários absurdos foram cometidos por alguns promotores, nomeados e pagos com dinheiro público, para garantir o estado de direito e, no entanto, como na ditadura militar, abusam dos instrumentos de que são portadores para sufocar a verdade e interferir na história. Os desmentidos passam desapercebidos nesta imprensa corrompida, que insiste em acusar adversários do candidato sem brilho, de corruptos. É o caso da farsa do "não grampo no TSE" e o caso, agora, do pedido de prisão dos "suspeitos de compra ilegal de dossiê", agora à noite revogada pela própria Justiça. Neste último caso, o teatro do absurdo ficou obsoleto. Não existe, na Lei brasileira, homicídio se não houver vítima (ou seja, o corpo do assassinado). Se existe tentativa de compra de dossiê, portanto deve existir (e onde está) este dossiê? Para que haja a configuração de um crime dessa natureza, é preciso ficar evidente a vantagem que o responsável pelo ato criminoso teve. E que vantagem o candidato Lula levaria nessa história? No entanto, essa imprensa não se importa com os danos, provocados ou não, à candidatura do suposto beneficiado pela suposta compra, o candidato Mercadante.

Em todos os casos, no entanto, o moto-contínuo do vale tudo é usado para desmoralizar e interferir, não pelo debate livre e democrático, mas sim pelo boicote à campanha da reeleição. O mais triste e trágico desse jogo sujo é que segmentos que se julgam "mais à esquerda" zombam, ou demonstram dar pouca importância, ao golpe na democracia em curso. Apostam no quanto pior melhor. Potencializam o não comparecimento do candidato Lula no debate (debate?) da tevê Globo, como se ali, de fato, fosse mostrado para a população indecisa o melhor caminho a ser seguido. Desafiamos alguém a puxar pela memória e trazer à tona uma cena do passado tão grotesca, de palavras de ódio e desprezo pelos adversários, como o que ouvimos ontem da boca dessa falastrona HH. Desafiamos a encontrar no passado uma manifestação tão agressiva, e incluímos ai, Paulo Maluf, Collor, Ademar de Barros e Dr. Enéas. Não encontrarão, temos certeza.

Tememos pelo futuro que se avizinha, não nos termos da atriz Regina Duarte, na campanha presidencial passada. Ela falava do medo dela, do medo que um operário chegasse ao poder. Um operário a quem muito a democracia brasileira deve, não só a ele, mas toda uma geração de trabalhadores que enfrentaram o regime militar, primeiro na Justiça, depois no enfrentamento físico. Tememos pelas gerações futuras, pois estão sendo formadas debaixo do trauma da mentira e das manobras. Como os hipócritas, os adversários do candidato Lula ousam acusá-lo de "autoritário". Tal prática de apoderar-se do discurso do adversário originou-se no terceiro governo militar, quando tudo era relativo: a abertura, a democracia e, por ultimo, também a vida.

A luta dos comunicadores e dos legisladores foi para garantir a liberdade de pensamento e de expressão, e não para usar a propriedade dos meios de comunicação para sufocar quem não tem voz. Os reflexos dessa campanha sórdida já se fazem sentir na população desinformada. A população está confusa e ninguém está se importando com as conseqüências desses atos. Articula-se, uma história sangrenta de atraso político e social. Articula-se, com o escárnio daqueles que ainda se julgam à esquerda, um golpe no que foi construído por mais de trinta anos - a democracia brasileira.


(*) Vérités et mensonges
Filme de Orson Welles – 1.974

30/09/2006