sábado, 4 de agosto de 2007
POR QUE CASSIA ELLER NÃO CONTINUOU VIVENDO?
Existem duas maneiras tradicionais de se tratar casos como esse: a primeira de forma conservadora, sensacionalista, preconceituosa, assim como fez no dia de hoje o jornal Agora, do grupo Folha, "Droga mata Cássia Eller" "Cantora escancarou homossexualidade", que apesar de vender alguns exemplares a mais, nada acrescenta ao debate, ao esclarecimento. E existe, também, a forma trágica de se ver o mesmo episódio, não apenas como algo que poderia ser evitado, mas como a radiografia de uma sociedade que chegou ao seu limite de saturação. Cássia Eller pertencia àquela "thurma" que não está nem aí com o preço do dólar, ela queria mesmo é cantar e representar o mundo da maneira como sentia. É oportuno indagar se isso é correto - viver e deixar viver - enquanto milhares de outros tantos estão por aí morrendo de fome ou bala. Mas ela, Cássia, só sabia cantar e não estava nem aí, ela não considerava nenhuma outra hipótese, pois o que ela queria mesmo "era ser Cássia Eller", assim diz o seu verso. Não há dúvida, ela seguia o mesmo caminho dos poetas românticos, dos beats, mas ainda não tinha vivido o tempo e fama para propor coisas mais que não fizessem parte daquele mundo de "Cássia Eller". Ainda assim há que se perguntar, por que ela não seguiu vivendo quando mais precisamos ouvir sua voz? Nada de comparações com Elis, que também se foi. Elis foi incauta, amadora no trato com o perigo. Cássia era, portanto, diferente nesse caso profissional - vivia os limites do seu corpo como queria... Agora que o presidente pós-moderno legalizou a cachaça poderia legalizar, talvez, outras coisas menos perigosas e aí poderíamos morrer dentro dos limites da lei. Assim como fazem os mexicanos, embriagados com tequila, os russos pós-Yeltsin, embriagados com vodka, ou os afegãos, encharcados com o ópio. Aí um dos primeiros bebês, nascidos durante os anos da transferência da capital federal para Brasília, (Cássia Eller-1962) poderia nem ter (?), fosse o Brasil diferente. Afinal, ela é filha da revolução. E por que então ela não seguiu vivendo? Porque vivia perigosamente - assim como os poetas românticos, os beats. E não estava nem aí. O mais brutal é que agora ela não está mais AQUI. Jair Alves - dramaturgo
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