sexta-feira, 21 de setembro de 2007

ZÉ DIRCEU E O QUARTO PODER

Jair Alves – dramaturgo/SP



Nos últimos dias me preparava para provocar o escritor Deonísio da Silva, sugerindo a ele que escrevesse um texto que tivesse como tema algo parecido a - A Origem das Expressões, visto a enorme importância de seu livro De Onde Vêm as Palavras. E por que isso? Já há semanas, com o desfecho da primeira parte do julgamento pelo STF (Supremo Tribunal Federal), envolvendo Zé Dirceu e outros, vinha me perguntando desde quando a expressão Quarto Poder é usada na literatura corrente. Rápido no gatilho, como sempre, Deonísio me manda um Emilio, como diria Saramago, avisando que a expressão teve sua origem identificada no seu livro A Vida Intima Das Frases(*), conforme se pode ler abaixo.

Minha intenção era esperar um pouco mais, até a poeira baixar, para trazer à tona uma pequena questão que pudesse, quem sabe, identificar o erro político mais grave do o ex-deputado, ex-ministro, ex-presidente partido do presidente da Nação Brasileira, como ele mesmo vem se assumindo. Dizia Lélia Abramo que em política você não pode errar, isso pode ser fatal. Pelo visto, Zé Dirceu errou mais de uma vez, mas o que é preciso que se diga que isso nada tem a ver com falcatrua e corrupção. Pelo que posso acompanhar à distância não é possível identificar nenhuma pisada na bola do mais famoso e polêmico líder estudantil que o Brasil produziu. Espero, sinceramente, que o Judiciário lhe faça justiça, uma vez que o Quarto Poder já o condenou. O que está em questão agora - e parece que ele mesmo está disposto a aceitar - é o erro político que ele, por ventura, tenha cometido. Nesse contexto, esse modesto escriba tem algo a revelar.

Pouca gente sabe, mas o grande ídolo de Zé Dirceu foi o jornalista Cláudio Abramo, sem contar, é claro, com o respeito que ele sempre dedicou a Perseu (sobrinho de Cláudio) e à própria Lélia. Respeitar também não significa ouvir, conforme veremos. Zé Dirceu chegou, inclusive, a fazer algumas incursões pelo jornalismo, mas aconselhado por Cláudio desistiu. Isso tudo ele reconhece humildemente, embora para muitos possa parecer engraçado. Pois bem, talvez o grande erro de Zé Dirceu tenha sido não avaliar corretamente o papel da imprensa, nos tempos modernos. Quem sabe, se Deonísio tivesse escrito A VIDA INTIMA DAS FRASES há mais tempo nossa história teria sido diferente?

No início de 1994 escrevi um pequeno livro, como reflexão daquele momento, que

imaginei de alguma forma pudesse servir como alimento para a discussão. Escuta Zé Dirceu não era um livro considerado profundo, nem eu tinha essa pretensão, porém na sua essência já percebi que havia nele algo que muita gente não estava a fim de levar em consideração, principalmente o Zé Dirceu. Na entrevista que fiz com ele, em seu escritório na Vila Mariana, numa manhã de segunda feira, entre os preparativos para uma campanha a governador ele, generosamente, respondeu a todas as perguntas relacionadas a dois amigos comuns, um deles, inclusive, me foi apresentado pelo próprio Zé Dirceu - o jornalista Jorge Batista; o outro era Zé Arantes. Discordamos apenas num item, o mais importante do pequeno livro, e que hoje repercute acidamente no desfecho e nos Dias de Tormentas em que ele vive.

Escuta Zé Dirceu alertava para a necessidade de uma política de comunicação e a criação de um relacionamento mais moderno entre o executivo e a imprensa. Algumas experiências vividas por administrações municipais, já àquela época, apontavam para as dificuldades que teria um governo comprometido com a parcela mais pobre da população. Num regime democrático, diferentemente de um regime revolucionário, é preciso dar ouvido e voz à oposição respondendo à altura o que pode e deve ser respondido. E num regime democrático, o canal de expressão de todas as oposições, fartamente utilizado pelos signatários das propostas do Zé Dirceu, tem sido o parlamento e a imprensa. Não seria diferente num governo do PT. A diferença está em saber quem manda nos veículos de comunicação social? Para as “classes dominantes”, quando se tem em mãos ministérios e secretarias de governo, não há necessidade de fazer da imprensa uma trincheira. O que faria, então, a “direita”, caso perdesse esse poder de Estado? Zé Dirceu relevou essa questão. Lembrei do fracasso da política guerrilheira de Daniel Ortega, na Nicarágua, quando num pleito democrático perdeu o poder para a magnata das Comunicações, Violetta Chamorro. Citei, ainda, o caso das câmeras Betamax, usadas “democraticamente” para motivar a população a votar contra o governo sandinista. Nada disso comoveu o líder petista.

Quando perguntado a respeito do monopólio das comunicações, ele respondeu academicamente que o Estado não tinha esse monopólio e sim o das concessões. Tudo bem, cara-pálida. Qualquer letrado sabia que existia um caminho entre a Lei e a Espada. Eu e a torcida do Corinthians entendíamos que a Lei dizia que o Estado tinha a concessão, mas era a Espada quem determinava o que fazer com ela, hoje não mais. E agora, Zé Dirceu? Ele respondeu categoricamente - e isso está lá registrado nesse pequeno livro de pouco mais de 100 páginas - o que pensava em 1994 a respeito dos meios de comunicação. Zé Dirceu chegou a afirmar que, talvez, fosse o caso de transferir para as empresas privadas o direito da concessão, desde que elas pagassem os custos de infra-estrutura. Está escrito lá, quem tiver interesse é só consultar o endereço, abaixo, sobre este trecho. http://www.jornalmacunaima.speedycorp.com.br




Mas, voltando à questão inicial desse texto (Zé Dirceu e o Quarto Poder), é possível dizer sem remorsos que o inferno astral vivido hoje por Zé Dirceu, em grande parte, é de sua responsabilidade. Ele não aceitou discutir questões que pessoas de sua estima já alertavam, com todas as letras. Conforme aponta a nota de Deonísio Silva, abaixo, o Quarto Poder ameaça a estabilidade democrática desde há muito. Por conta disso lembrei de um conto de Machado de Assis, que de revolucionário só tinha sua literatura, quando coloca em dúvida o sistema de representação republicano, nos seus primeiros anos de existência. Nos tempos de machadianos, mulher não votava, pobre não votava, muito menos analfabeto. Hoje vota. No entanto, a nossa democracia ainda está relevando à imprensa um papel auxiliar, como o das Forças Armadas que, republicanamente, como diria Paulo Henrique Amorim, vem respeitando os limites da Lei. Já quanto à imprensa, não sabemos.





(*) A IMPRENSA É O QUARTO PODER

Esta frase, que expressa em boa síntese a importância que tem a imprensa, deve sua criação ao escritor e grande orador britânico Edmund Burke (1729-1797). Ao lado dos três poderes clássicos de uma sociedade democrática, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário, a imprensa seria o quarto poder pela influência exercida sobre as votações do primeiro, as ações do segundo e as decisões do terceiro. Quem mais divulgou a frase em seus escritos, defendendo a mesma concepção, foi o famoso historiador e crítico inglês Thomas Carlyle (1795-1881). A imprensa foi sempre importante também para nossas letras. Os primeiros romances brasileiros foram publicados em jornais e revistas. (DS)

17 setembro 2007

IRMÃOS, UNI-VOS!!!

IRMÃOS, UNI-VOS!!!



Por Jair Alves - dramaturgo/SP


Foi uma gritaria geral, nos camarotes e nas galerias. O Bispo da igreja Universal, hoje senador da República pelo Rio de Janeiro e ex-candidato a governador, vem propondo a inclusão de um item na Lei Rouanet que possibilite a destinação de incentivos fiscais para a recuperação e, quem sabe, construção de "templos" religiosos. Está parecendo o fim do mundo, mas ainda não é. Interessante o que acontece no Brasil; somente depois ganhar espaço em programas televisivos como, por exemplo, o Programa do Jô, determinadas questões parecem, de fato, críveis e escandalosas. Foi o que aconteceu, no último dia 30 de abril. Assuntos insólitos e cinematograficamente inacreditáveis acontecem a rodo em nosso dia-a-dia, sem com isso provocar revolta na classe artística ou nos meios de comunicação. Vamos embarcar no mote da emenda a Lei, proposta pelo Bispo Marcelo Crivella (PRB-RJ), para apontar apenas uma delas, envolvendo a Lei Rouanet.



No programa citado, o excelente ator e dramaturgo Juca de Oliveira fez graça, zombou (com alguma razão) do Bispo legislador, lembrando o estado de miséria em que vive grande parte das atividades artísticas no país, em especial aquelas ligadas à preservação do patrimônio histórico. Sempre é bom ter alguém lembrando desse misère muito particularmente se feito por um artista como Juca de Oliveira, com seu currículo como presidente do Sindicato dos Artistas e militante ou simpatizante do velho Partidão (Partido Comunista Brasileiro), porém outras mazelas não só legalizadas, mas tidas como aceitáveis estão acontecendo a todo o momento, com a aplicação da referida Lei, e não vemos uma 'viva alma' dizer que o mundo está preste a acabar.



Exemplificando: no ano que passou (2006) foram aplicados R$ 817.750.812,12 (Oitocentos e Dezessete Milhões, Setecentos e Cinqüenta Mil, Oitocentos e Doze Reais) contra 714.214.147,25 (Setecentos e quatorze milhões...), no ano de 2005, para todas as atividades cobertas pela Lei. Os números não são tão desprezíveis se considerarmos que ao longo de cada ano o MINC autoriza o protocolo de 10.000 projetos, pelos interessados, inclusos neste número os projetos que são diretamente patrocinados com dinheiro do orçamento do próprio Ministério, ou seja, por um fundo criado para atender demandas menos volumosas. Muitos desses projetos sequer passam da primeira fase, nem chegam a ir a julgamento pelo CNIC. Em média, cada inscrito deveria receber (como podemos projetar) 81 mil reais. Já pensaram nessas cifras e no tamanho da revolução artística e cultural que aconteceria no Brasil? Mas, esses números não representam a realidade, pois, apesar dos 8 e tantos milhões de reais, aplicados na Cultura, a título de Mecenato, somente 15% dos projetos inscritos conseguem o beneplácito das empresas patrocinadoras. Afinal, são elas e não o governo que decide quem vai para o céu ou para o inferno. Ou seja, apenas (aproximadamente) dois mil projetos, anuais, são contemplados.



Nessa nossa nova projeção cada projeto inscrito receberia o correspondente a 408.500, 00 (Quatrocentos e Oito Mil Reais), mas também isso não corresponde à realidade, pois em verdade esta cifra é atingida por média e, na prática, isso não acontece. Acreditem os senhores que existem projetos que recebem, a título de incentivo a cultura, R$ 7.137.606,97, já captados R$ 3.385.000,00, em 2006, e o restante será sacramentado este ano (2007), depois de passar por revisão do CNIC, em recente reunião. Este é o caso de My Fair Lady (PRONAC de número 064579). Pelo preço do mármore de banheiros reformados pela Infraero, senadores, deputados, do PSDB, PPS e Democratas (???) provocaram duas CPI’s, mobilizando todo o Congresso Nacional; Imprensa; Exercito; Aeronáutica; Controladores de vôos; Passageiros, acampados nos aeroportos; etc. Mas, nenhum "ai" a respeito de My Fair Lady.



Importante dizer que entendemos a proposta do senador Crivella - pentecostal convicto, inconsistente - mesmo que tenha passado por qualquer senador também inconsistente, do PT, ou de sua costumeira incompetência. Condenamos de qualquer forma, como condenamos seu projeto de marketing denominado CANAÃ, no semi-árido brasileiro. Uma fotografia aérea do projeto, mostrada no Programa do Jô, evidenciou que o mesmo não passa de um protótipo, esperando recursos federais para a sua realização. E mais, o episódio "dinheiro para os Tempos" não pode virar bandeira de moralidade de nenhum outro senador da assim denominada oposição; até que se prove o contrário, são todos iguais.



O ator Juca de Oliveira enfaticamente lembrou, no Programa do Jô, a precária situação dos Museus, Arquivos e Grupos de Teatro, distribuídos por esse Brasil; aparteado pela também excelente atriz Bibi Ferreira que se limitou a dizer, diante do escândalo suscitado por Crivella, "Sem comentários, nada mais". De nossa parte, dizemos: dinheiro para recuperar templos e a conivência com escândalos como a montagem de My Fair Lady, em cartaz na cidade de São Paulo, com patrocínio da Lei Rouanet, mas mesmo assim com ingressos ao custo de R$ 185,00, nos faz lembrar o que disse Bibi Ferreira - "Sem comentários, nada mais". Seria o caso de perguntar aos extraordinários atores, Juca e Bibi, se nesse caso vai haver gritaria. O que vale para Deus, vale para o Diabo, irmãos! Portanto, uni-vos!





Siglas usadas no texto:



CNIC - Comissão Nacional de Incentivo à Cultura

MINC - Ministério da Cultura




5 de maio de 2007

BOSTA Lavada



BOSTA LAVADA

sábado, 4 de agosto de 2007

POR QUE CASSIA ELLER NÃO CONTINUOU VIVENDO?

Existem duas maneiras tradicionais de se tratar casos como esse: a primeira de forma conservadora, sensacionalista, preconceituosa, assim como fez no dia de hoje o jornal Agora, do grupo Folha, "Droga mata Cássia Eller" "Cantora escancarou homossexualidade", que apesar de vender alguns exemplares a mais, nada acrescenta ao debate, ao esclarecimento. E existe, também, a forma trágica de se ver o mesmo episódio, não apenas como algo que poderia ser evitado, mas como a radiografia de uma sociedade que chegou ao seu limite de saturação. Cássia Eller pertencia àquela "thurma" que não está nem aí com o preço do dólar, ela queria mesmo é cantar e representar o mundo da maneira como sentia. É oportuno indagar se isso é correto - viver e deixar viver - enquanto milhares de outros tantos estão por aí morrendo de fome ou bala. Mas ela, Cássia, só sabia cantar e não estava nem aí, ela não considerava nenhuma outra hipótese, pois o que ela queria mesmo "era ser Cássia Eller", assim diz o seu verso. Não há dúvida, ela seguia o mesmo caminho dos poetas românticos, dos beats, mas ainda não tinha vivido o tempo e fama para propor coisas mais que não fizessem parte daquele mundo de "Cássia Eller". Ainda assim há que se perguntar, por que ela não seguiu vivendo quando mais precisamos ouvir sua voz? Nada de comparações com Elis, que também se foi. Elis foi incauta, amadora no trato com o perigo. Cássia era, portanto, diferente nesse caso profissional - vivia os limites do seu corpo como queria... Agora que o presidente pós-moderno legalizou a cachaça poderia legalizar, talvez, outras coisas menos perigosas e aí poderíamos morrer dentro dos limites da lei. Assim como fazem os mexicanos, embriagados com tequila, os russos pós-Yeltsin, embriagados com vodka, ou os afegãos, encharcados com o ópio. Aí um dos primeiros bebês, nascidos durante os anos da transferência da capital federal para Brasília, (Cássia Eller-1962) poderia nem ter (?), fosse o Brasil diferente. Afinal, ela é filha da revolução. E por que então ela não seguiu vivendo? Porque vivia perigosamente - assim como os poetas românticos, os beats. E não estava nem aí. O mais brutal é que agora ela não está mais AQUI. Jair Alves - dramaturgo